Série Contos Brasileiros em Edição Bilíngue: 6 coletâneas dos mais clássicos escritores brasileiros

Victor Shimabukuro Pastor

Talvez existam poucas coisas mais presentes nos diferentes processos de criação dos Estados nacionais globo afora do que a estruturação e a instituição de cânones literários específicos para cada uma dessas novas e incipientes nações. “O melhor de nossa literatura”, “O que a literatura de nosso país oferece de melhor”, “As pedras fundacionais de nossa literatura”, “Os autores clássicos de nosso país”… Típico desses processos, a literatura é utilizada, assim como outros elementos, como cola para a formação de um novo povo e pedra de sustentação para o levantar da nova identidade nacional que estaria por se formar.

Deixando de lado questões mais específicas sobre a escolha por detrás da formação desses diferentes cânones literários, é fato que o Brasil, ao longo de seu processo de formação, também elegeu aqueles escritores e obras que compreendia como essenciais para compor e ocupar aquilo que reconhecemos como o lugar dos clássicos da literatura brasileira. Tendo em vista a aproximação desses colossos de nossa literatura ao público estrangeiro, a Editora da Unicamp, em parceria com a Diretoria Executiva de Relações Internacionais da Universidade Estadual de Campinas (DERI-Unicamp), apresenta a Série Contos Brasileiros em Edição Bilíngue, composta por volumes de contos de escritores canônicos do país em versão bilíngue. Fazendo jus à intenção da Série de aproximar esses autores do público, cada volume é aberto com textos escritos por especialistas que apresentam os autores e seus respectivos contextos sociais, históricos e o conjunto de suas obras. O fazem, contudo, sem perder a riqueza de detalhes e de análises, o que garante excepcional qualidade às introduções, que servem como ótimas entradas para o universo de cada autor. Apresentada primeiro em 2020, a Série é, agora, relançada com identidade visual renovada e três novos títulos que trazem histórias escritas por Machado de Assis, Maria Firmina dos Reis e Joaquim Manuel de Macedo.

Tendo em vista esse contexto, passemos para seus integrantes.

Short Stories by Machado de Assis

Abrindo nossas breves apresentações, nada mais justo do que iniciarmos nossa lista com o maior escritor da língua portuguesa: Joaquim Maria Machado de Assis, ou o “Bruxo do Cosme Velho”, ou simplesmente Machado de Assis. Negro e de origem pobre, Machado de Assis é o mais reconhecido romancista brasileiro do século XIX. Com escrita elegante, irreverente e criativa, que, contudo, carrega em seu interior pessimismo, ambiguidade e ceticismo nato, Machado é descrito por Sabrina Sedlmayer – professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), presidente da Associação Internacional dos Lusitanistas (AIL) e quem assina a introdução e a curadoria dos contos – como um autor com estatura de universal, digno de estar lado a lado com o que de melhor produziram escritores como Dostoiévski e Flaubert.

Compõem a coletânea os contos “Pai contra mãe” (Father Versus Mother) – uma fotografia brutal da escravidão durante o contexto do Segundo Reinado –, “Capítulo dos chapéus” (The Chapter of Hats) – uma pintura ácida do regime de poder normalizado em seu tempo e do lugar ocupado pela mulher em sua sociedade – e “Um homem célebre” (A Celebrated Man) – um embate entre arte como ideal e arte como mercadoria, cristalizado na figura de um compositor de polcas que persegue a música erudita. Como apontado por Sedlmayer durante sua introdução, quando tomados em conjunto, os contos “revelam uma operação crítica similar: há um desmonte da ideia de escolha individual, de liberdade, ao expor sujeitos cujas ações são moldadas por engrenagens sociais que operam com eficácia justamente porque aparentam ser naturais”.

Short Stories by Maria Firmina dos Reis

Autora negra ativa durante o século XIX, Maria Firmina dos Reis foi escritora impetuosa, inconformada e transgressora. Pioneira, é considerada a primeira autora a realizar uma série de feitos, cada um mais impressionante que o outro. É tida como a primeira autora a publicar um romance no Brasil – e talvez em toda a América Latina –, com seu romance de estreia intitulado “Úrsula”, publicado em 1859, e também como a primeira a inserir o abolicionismo na literatura. Também inaugurou a autoria feminina na ficção e na escrita do diário no país e possivelmente abriu portas para a contística feminina com “Gupeva”, em 1861.

Assinada por Fernanda Miranda –  doutora em Letras na área de estudos comparados de literaturas de língua portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e professora adjunta de teoria da literatura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) –, a introdução do livro faz um ótimo trabalho de apresentar essa autora tão importante e esquecida para o público, focando sua ressurgência na academia, sua importância para a estruturação do sistema literário brasileiro e as principais características de seu projeto literário. Compõem o volume “Gupeva: romance brasiliense” (Gupeva: A Brazilian Romance) – contribuição da autora à literatura de temática indianista – e “A escrava” (The Slave Woman) – escrito apenas um ano antes do fim oficial da escravidão no Brasil, tem em seu centro a figura da mulher negra, a maternidade e a abolição.

Short Stories by Lima Barreto

Há quase um século em constante processo de redescobrimento, estudo e reconhecimento pela academia, Afonso Henriques de Lima Barreto é tomado, hoje, como pioneiro do modernismo no Brasil, precursor de uma literatura negro-brasileira e peça fundamental para a compreensão da belle époque carioca. Compondo a coletânea deste crítico contundente da sociedade brasileira, estão contos que destacam essas particularidades de seu projeto literário e suas principais armas: a ironia, o exagero e o sarcasmo. A introdução do volume é assinada por Daniela Birman – doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora titular do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

O livro abre sua série de seis contos com “A nova Califórnia” (The New California) – uma das histórias mais famosas do autor, construída a partir de uma forte ironia sobre duas características da sociedade brasileira à época: a mistificação da ciência e outras superstições e práticas da “nova e já tão velha República” e o academicismo e o culto à gramática, vinculados a práticas de distinção social – e segue com “O homem que sabia javanês” (The Man Who Knew Javanese) – outro ataque às instituições sociais, culturais e políticas de sua época, dessa vez com especial atenção aos bacharéis do período –, “Três gênios da secretaria” (The Three Departmental Geniuses) – crítica, agora, estendida à burocracia estatal e ao universo do funcionalismo público. 

Abrem os contos de temática escravagista “O pecado” (The Sin) – um retrato do darwinismo social e de toda a sua condição de exclusão e desigualdade que assolava sua época – e “Um especialista” (A Specialist) – que acompanha a história de Alice e sua transformação em objeto sexual de um comendador português, atravessando, assim, a questão da prostituição da mulher negra a partir de um recorte que envolve raça, gênero, nacionalidade e classe. Por fim, fecha a coletânea “Como o ‘homem’ chegou” (How the ‘Man’ Arrived) – obra-prima de Lima Barreto –, conto que nos insere na temática do hospício e das violências ali realizadas, outro tema caro ao autor.

Mais informações sobre o livro podem ser encontradas neste artigo, referente apenas à obra de Lima Barreto.

Short Stories by Mário de Andrade

Figura de proa na vanguarda brasileira dos anos 1920 e membro ativo do movimento modernista, Mário de Andrade está entre aquelas personalidades de quem todo brasileiro ouviu falar ao menos uma vez. Autor de obras como Macunaíma e Pauliceia desvairada, teve, junto de seu projeto literário, a aproximação da escrita com o português falado, visando um abrasileiramento da língua e da literatura. Além de escritor e poeta, foi pianista, crítico literário, cronista, musicólogo, folclorista e professor. À frente da apresentação que abre este volume de cinco contos, quase todos eles retirados da coletânea “Contos novos”, edição póstuma publicada dois anos após o falecimento precoce do autor, está Orna Levin – doutora em Teoria Literária pela Unicamp, onde é professora livre-docente do Departamento de Teoria Literária.

Da introdução, vemos que os contos, frutos de um longo processo de escrita e edição e reescritos por último no final dos anos 1930, expressam “anseios emancipatórios ancorados no questionamento da relação do homem com o mundo à sua volta”. Compartilham, então, espacialmente, a cidade de São Paulo, sendo possível identificar diferentes marcos da cidade em suas páginas – como o centro e os entornos da Igreja da Sé, presentes em “Frederico Paciência” (Frederico Paciência), ou o Bom Retiro, em “O ladrão” (The Thief). Também nos são apresentados os casarões da classe média em “O peru de Natal” (The Christmas Turkey), em uma chave de leitura para lá de irônica; crítica que se mantém em “Tempo da camisolinha” (Little Nightgown Times) e sua descrição das viagens de férias para as praias de Santos ou estações de águas. Encerra a coletânea “Será o Benedito!” (Really, Benedito?!), uma ilustração das temporadas de férias das famílias de estirpe. É para além dessa paisagem que observamos nos textos, portanto, um mosaico de vivências e experiências da sociedade paulista, em que se vê manifestada a fragilidade de suas figuras humanas e suas relações com os espaços que ocupam.

Para um mergulho ainda mais profundo na coletânea, acesse este artigo!

Short Story by Joaquim Manuel de Macedo

Médico de formação e intelectual orgânico, Joaquim Manuel de Macedo é o autor de “Simeão, o crioulo” (Simeão, the Creole), única obra deste volume. Mais conhecido por seu romance de estreia, A moreninha (The Little Brunette), o texto aqui presente representa a primeira de três narrativas encontradas no livro As vítimas-algozes: quadros da escravidão; a narrativa se situa no limite do que pode ser tido como “novela” e tem como tema um episódio em que uma pessoa escravizada se vinga de seu senhor – ambas as características são compartilhadas com as outras duas narrativas irmãs.

Tendo como público-alvo os leitores brancos da segunda metade do século XIX, a novela “aborda a escravidão a partir do seu cotidiano de violência e de incompreensão da diversidade”. É escrito, portanto, como uma espécie de sermão laico de tom moralizante, algo típico de seu tempo que faz com que a literatura assuma papel de tribunal. A tese principal do conto/novela está em como a escravidão, e o modo de produção escravagista, destrói vidas ao “transformar o escravizado em um ser imoral e violento” e se mostra responsável pela deterioração da família, das instituições e da religião – representada através da deterioração psíquica de Simeão no decorrer da narrativa.

A introdução é assinada por Frederico Garcia Fernandes, professor na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e atual coordenador do Comitê de Assessoramento em Graduação em Letras, Linguística e Artes da Fundação Araucária.

Short Stories by Monteiro Lobato

Monteiro Lobato é o último autor que compõe a Série Contos Brasileiros em Edição Bilíngue. Figura muito conhecida e igualmente polêmica, José Bento Monteiro Lobato é descrito na introdução do livro como natural de Taubaté, no interior do estado de São Paulo, e autor de dezenas de livros para adultos e crianças. Mais conhecido por sua literatura infantil, suas histórias são consideradas pioneiras na modernização da literatura infantil brasileira e continuam sendo lidas e reeditadas até nossos dias. Dentre suas controvérsias, pode ser destacado seu posicionamento a respeito do trabalhador rural – que, mesmo após retratação, em muito contribuiu para a formação de sua imagem no imagético social brasileiro –, o “Jeca Tatu”, e o racismo internalizado em sua obra.

Compõem o volume “O comprador de fazendas” (The buyer of farms), “O jardineiro Timóteo” (Timóteo the gardener), “O plágio” (Plagiarism) e “Marabá” (Marabá). Nos dois primeiros, Lobato nos aproxima do universo rural paulista, espaço de que era muito próximo, e constrói, a partir desse fundo, relatos do quotidiano de seus moradores. Em “O comprador de fazendas”, em tom mais jocoso, nos conta o episódio em que um fazendeiro tem de vender sua fazenda para resolver sua situação econômica um tanto precária. Já em “O jardineiro Timóteo” acompanhamos uma nova família chegando a uma fazenda recém-comprada, trazendo consigo um rol de mudanças que hão de cobrar seu preço. Esse cenário e esse tema mudam em “O plágio”, obra que trata do próprio escrever, do ser escrito e, como anunciado no título, da questão do plágio. O último conto, “Marabá”, também se insere no universo da escrita, mas dentro de uma situação um tanto inusitada: a questão sobre a adaptação de uma obra literária para outros meios; neste caso, o cinema mudo. A apresentação da antologia é assinada por Marisa Lajolo, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, professora titular aposentada da Unicamp e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Quer saber mais? Visite este artigo sobre o livro.

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Ação importante para a difusão de livros clássicos da literatura brasileira no exterior, a Série Contos Brasileiros em Edição Bilíngue é material incontornável não só para o estrangeiro que procura se familiarizar com nossas letras e aprendê-las, mas para todo brasileiro que ainda não conhece esses autores. Seja pela rica introdução ou pela certeira curadoria das coletâneas, trata-se de uma bela série, agora relançada com novos títulos e identidade visual renovada.

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