Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “Novo sujeito coletivo”

Marcio Pochmann é economista, professor, pesquisador e político. Atualmente, é presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e professor colaborador do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Na entrevista a seguir, ele comenta os principais conceitos de seu livro e desenvolve reflexões acerca dos principais temas abordados.

Jornal da Unicamp – No contexto atual, uma governança contra-hegemônica ou a superação do sistema econômico são condições para um novo modelo?

Marcio Pochmann – Sim. Sem uma governança contra-hegemônica, não há novo modelo econômico e social em plena transição para a Era Digital, portadora de um significativo excedente de força de trabalho em relação aos requisitos do capitalismo financeirizado. O que se tem notado ao longo do ciclo político da Nova República, iniciado em 1985, é a prevalência de modalidades distintas, porém adaptativas, de reprodução da dominação mediante novas tecnologias.

O capitalismo brasileiro sempre produziu sujeitos sociais subordinados e sobrantes em seus distintos momentos históricos: o escravizado e a mão de obra livre no longevo e primitivo agrarismo; o operariado urbano na sociedade industrial; massas sobrantes no campo; e, agora, o trabalhador precarizado, endividado, conectado e monitorado em plena transição para a Era Digital. Em cada momento, o sistema reorganizou o padrão de governança da população no território nacional segundo as necessidades de acumulação e geração de excedente econômico, geralmente a partir de processos de contrarrevolução preventiva.

Por isso, não basta remediar os efeitos sociais do modelo atual. É necessário disputar a própria forma de governar a população, o território, o trabalho, os dados e a riqueza. Uma governança contra-hegemônica significa retirar a vida social do comando exclusivo do mercado, das plataformas, das finanças e dos algoritmos.

A superação do sistema econômico, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata, mas a condição concreta para impedir que a Era Digital transforme o Brasil em uma imensa população administrada pela precariedade, pela dívida, pela informalidade e pela vigilância tecnológica, uma espécie de fazendão do mundo.

Jornal da Unicamp – Em poucas palavras, o que seria o sujeito coletivo? De que maneira o coletivo precarizado, um “agregado social”, torna-se um sujeito político ativo?

Marcio Pochmann – O sujeito coletivo é a parte da população total que deixa de sofrer isoladamente para passar a reconhecer sua dor como uma condição comum, histórica e política. Ele nasce quando indivíduos dispersos percebem que seus problemas não são fracassos pessoais, mas efeitos de uma forma social de dominação. O desempregado, o entregador por aplicativo, a trabalhadora doméstica, o jovem endividado, a mãe solo, o morador da periferia, o idoso precarizado e o trabalhador informal deixam de aparecer como casos isolados e passam a formar uma força social reconhecível.

O “agregado social” é apenas uma multidão administrada, composta de pessoas contadas, endividadas, monitoradas, governadas e dispersas. O sujeito político nasce quando esse agregado cria consciência, linguagem, organização, conflito e projeto. Ele se torna ativo quando transforma sofrimento em reivindicação, fragmentação em solidariedade, indignação em organização e presença estatística em presença política.

Jornal da Unicamp – Tendo em vista os impactos da desindustrialização no país, que consequências se esperam para esta nova Era Digital?

Marcio Pochmann – A desindustrialização colocou o Brasil em posição perigosa diante do ingresso na Era Digital. O país entrou no século 21 sem completar plenamente a condição de sociedade urbana e industrial e agora se submete aos riscos da reconfiguração imposta pela economia digital, enquanto mero consumidor subordinado às tecnologias estrangeiras e propagador do esvaziamento da soberania nacional de dados.

A consequência mais grave tem sido a substituição do antigo projeto nacional de desenvolvimento por uma sociedade de serviços hiperconectada, precarizada, com plataformas importadas, baixa produtividade, dependência tecnológica e trabalho desprotegido. Ao deixar de disputar a fábrica do futuro, em razão da dominância do receituário neoliberal, o Brasil se submete à disputa por uma vaga no cenário mundial concorrido de países usuários, entregadores, consumidores e fornecedores de dados que sustentam a nova fase do subdesenvolvimento.

Sem indústria forte, ciência, tecnologia, infraestrutura digital soberana e capacidade de inovação, a Era Digital tende a aprofundar a dependência. O país exporta commodities, importa tecnologia, entrega seus dados às big techs e organiza sua população em torno de aplicativos, informalidade, crédito caro, endividamento e da difusão de antidepressivos diante de expectativas decrescentes e sem horizonte futuro.

A nova Era Digital pode produzir crescimento sem desenvolvimento, conectividade sem cidadania, inovação sem soberania e trabalho sem direitos. O problema nacional não se resume à tecnologia, mas é de natureza política e está associado à necessária formação de uma nova maioria política antineoliberal. Por isso, a pergunta decisiva para o Brasil que avança na Era Digital, neste segundo quarto do século 21, é se haverá um novo sujeito coletivo da emancipação ou apenas a submissão exploratória a ela e, nesse sentido, o fundamento para uma nova contrarrevolução preventiva.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil

Autor: Marcio Pochmann

ISBN: 9788526818019

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 200

Dimensões: 21 x 14 cm

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