Por que temos medo de envelhecer? Os tabus e desafios da velhice nas diferentes esferas do cotidiano

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli 

Apesar de ser um processo natural, o envelhecimento ainda é temido por milhares de pessoas. Seja pelas alterações físicas, que podem implicar perda de autonomia, pelas mudanças estéticas, econômicas ou sociais, a sociedade continua compreendendo o passar dos anos e o “estar velho” como algo negativo, embora inevitável. Contudo, com o aumento expressivo da expectativa de vida, cada vez mais pessoas atingem a chamada “quarta idade” – de sexagenários a centenários – e se veem diante de um impasse: como compreender e enfrentar a própria velhice de maneira positiva? 

Nesse cenário, em que a discriminação contra a pessoa idosa e o etarismo reforçam a ideia de que a senioridade representa um problema econômico e social, o pesquisador Jorge Félix percebeu a urgência de reconfigurar a forma como a sociedade interpreta o envelhecimento. Para isso, tornou-se necessário analisar a questão a partir de diferentes áreas do conhecimento, como economia, medicina e sociologia, de modo a desenvolver um estudo abrangente, capaz de investigar desde a origem desses tabus até suas consequências para a sociedade contemporânea. 

Jornalista especializado em envelhecimento populacional, Jorge Félix é mestre em Economia Política e doutor em Ciências Sociais, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Além de sua atuação em grandes veículos de comunicação – Valor Econômico, TV Cultura, Jornal do Brasil e Rede Globo, onde atualmente é apresentador e comentarista dos programas Bem Estar e Encontro –, Félix é pesquisador de pós-doutorado financiado pela Fapesp na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e realiza estágio pós-doutoral no Centre National de la Recherche Scientifique, da Université Paris 8. Referência nacional nos estudos sobre economia e longevidade, é autor de diversas publicações em revistas e artigos, além dos livros Viver Muito (2011), Economia da Longevidade (2019) e, mais recentemente, A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social (2026). 

Em seu novo livro, o autor busca não somente fornecer um panorama sobre o envelhecimento populacional no Brasil, desenvolvendo em detalhes os desafios de envelhecer na contemporaneidade, mas também discutir as maneiras pelas quais esse tema vem sendo abordado. Para alcançar esse objetivo, A (difícil) decisão de envelhecer reúne conteúdos publicados originalmente em jornais e revistas, como crônicas, artigos e reportagens, que abordam os principais aspectos relacionados ao tema. 

Organizado em duas partes principais, “Notícias sobre o envelhecer” e “Estudos sobre o envelhecer”, o título apresenta, primeiramente, 21 textos jornalísticos e, em seguida, dois artigos acadêmicos, além de um posfácio assinado por Frei Betto. Somam-se ainda um prefácio da pesquisadora Guita Grin Debert, uma apresentação e anexos. Dessa forma, o livro aborda o envelhecimento sob diferentes perspectivas e áreas do conhecimento, discutindo questões sociológicas, antropológicas, econômicas, políticas, médicas e culturais. 

Os textos introdutórios oferecem ao leitor um importante embasamento teórico para a leitura crítica dos conteúdos apresentados ao longo da obra. No prefácio, Guita Grin Debert contextualiza de maneira clara e concisa a situação demográfica enfrentada por muitos países e as problemáticas decorrentes do envelhecimento populacional em contextos ainda despreparados, do ponto de vista socioeconômico e político, para lidar adequadamente com o prolongamento da vida humana, um ganho coletivo para a sociedade. Já na apresentação, Félix narra o caso da médica cardiologista Véronique Fournier, aposentada compulsoriamente devido à sua “idade avançada”, para discutir as formas como o envelhecimento e a passagem do tempo vêm sendo tratados no século XXI. 

Em “Notícias sobre o envelhecer”, o leitor encontra artigos publicados ao longo da década de 2010 e do início dos anos 2020 em revistas como Época, Brasileiros e Interesse Nacional; jornais como O Globo, Folha de S. Paulo e Valor Econômico; e plataformas digitais como The Conversation Brasil, NeoFeed, Economia da Longevidade e Portal do Envelhecimento. Embora abordem o tema sob diferentes perspectivas – ora científicas, ora filosóficas ou sociais –, todos os textos compartilham um objetivo comum: contribuir para “a construção de uma ‘velhice insubmissa’”. 

Já a segunda parte, “Estudos sobre o envelhecer”, reúne os artigos acadêmicos “Economia da longevidade, gerontecnologia e o complexo econômico-industrial da saúde no Brasil: uma leitura novo-desenvolvimentista” e “Economia do Care e economia da longevidade: o envelhecimento populacional a partir de novos conceitos”, além das reflexões de Frei Betto sobre seu próprio envelhecimento, a passagem do tempo e experiências de proximidade com a morte. 

O primeiro artigo, publicado em 2018 na Revista Kairós – Gerontologia, parte das escolhas feitas por diferentes países, alguns que enriqueceram antes de envelhecer e outros que envelhecem ainda em situação de pobreza, para pensar caminhos econômicos capazes de enfrentar o fenômeno do superenvelhecimento humano. O texto discute as necessidades brasileiras diante do envelhecimento acelerado da população e estabelece relações entre o complexo econômico-industrial da saúde e a economia da longevidade, destacando a urgência de novas estratégias industriais.

O segundo artigo, publicado em 2014, na Revista Argumentum, realiza uma breve revisão da literatura sobre os estudos do envelhecimento, tanto sob perspectivas gerontológicas, médicas e psicológicas quanto econômicas e demográficas. A partir disso, propõe uma reflexão sobre a maneira como o envelhecimento populacional é tratado nos currículos escolares e no ensino superior, argumentando que, apesar da relevância do tema para a vida cotidiana, a disseminação desses conteúdos ainda é insuficiente. Nesse sentido, o artigo busca estabelecer parâmetros para a criação de uma nova disciplina voltada à economia e à longevidade.

Por fim, o livro apresenta quatro anexos: dois artigos breves publicados nos jornais Valor Econômico e O Globo; uma entrevista concedida pelo autor ao jornalista Guilherme Arruda – centrada nos problemas da financeirização da velhice no Brasil e na transferência das responsabilidades de cuidado do Estado para as famílias –; e uma tira da cartunista Laerte, intitulada “Sobre o tempo”. 

Assim, A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social reúne interpretações, problematizações e reflexões sobre a complexa experiência do envelhecimento na contemporaneidade. Ao discutir os desafios impostos pelo atual cenário demográfico, a obra busca incentivar transformações na forma como a sociedade compreende a velhice, contribuindo para a construção de perspectivas mais humanas, inclusivas e conscientes sobre o envelhecer. 

Para conhecer mais sobre o livro, acesse nosso site!

A (difícil) decisão de envelhecer: reflexões sobre longevidade, cuidado e bem-estar social

Autor: Jorge Félix

ISBN: 978-85-268-1909-2

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 192

Dimensões: 16 x 23 cm

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