Jornal da Unicamp publica matéria sobre o livro “Reconstrução Negra”

Em 1961, o sociólogo e historiador William Edward Burghardt Du Bois (1868–1963), mais conhecido como W.E.B. Du Bois, exilou-se em Gana e renunciou à cidadania estadunidense. À época, a opressão nos Estados Unidos era institucionalizada, tanto pelas leis de segregação racial como pelo macarthismo, que promovia uma intensa perseguição a intelectuais e ativistas de esquerda. No mesmo ano, em carta de filiação ao Partido Comunista Americano, o intelectual e ativista apontava: “Nenhuma nação pode se considerar livre se não permitir que seus cidadãos trabalhem para esses fins”. Com 83 anos, ele deixava o país onde nasceu, que, em sua visão, havia matado a possibilidade de uma democracia real, sufocando as experiências de emancipação lideradas pela população negra.

A saída de Du Bois dos Estados Unidos ocorreu após uma vida intensa de lutas sociais e de produções intelectuais que ele viu serem escanteadas, seja pela perseguição racial, seja por causa do seu ativismo, ou ainda pela ligação, desde a década de 1930, com o comunismo. O pensador chegou a ser excluído, no início do século 20, de eventos científicos, fato que não o impediu de seguir galgando uma intensa vida intelectual e política que, quase 70 anos após sua morte, é finalmente reconhecida. Desde o início deste século, Du Bois vem sendo reivindicado na academia como um clássico da sociologia, autor de contribuições consideradas fundamentais para pensar a sociedade capitalista moderna em sociedades pós-escravistas.

No Brasil, o movimento de reconhecimento e difusão do pensamento do intelectual tem como um dos epicentros a Unicamp. O esforço de pesquisadores para possibilitar a circulação das ideias de Du Bois culminou em uma série de traduções, sendo a mais recente a obra Reconstrução negra: ensaio sobre o papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860–1880, publicada em coedição entre a Editora da Unicamp e a Boitempo.

O livro, de 1935, trata de um momento da história estadunidense em que uma população recém-liberta da escravidão ousou propor, além de direitos civis e políticos, bases concretas para a sua emancipação, formulando uma “democracia abolicionista”, nas palavras do autor. Até a publicação do livro, o período pós-Guerra Civil norte-americana, conhecido como Reconstrução, era narrado pela historiografia do país como um momento de fracasso. O sociólogo, ao denunciar como essa versão mascarava as experiências políticas da população negra e seu papel na derrocada da escravidão, recuperou, com um denso trabalho empírico, as diversas formas de sua ação política. Na obra, ele mostra, por exemplo, como a luta por educação dos negros culminou na criação do ensino público no Sul dos Estados Unidos, apesar da reação da elite branca local. Também narra a resposta violenta à liberdade e às propostas da população negra, com o surgimento de grupos supremacistas e de uma nova forma de escravidão – a servidão sob o capitalismo.

A tradução da obra foi realizada por Murilo van der Laan, pós-doutorando da Unicamp, e a apresentação é assinada pelos professores Matheus Gato e Sávio Cavalcante, do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade, cujas agendas de pesquisa se encontraram em Reconstrução negra. O livro cruza questões raciais e de classe, apresentando uma interpretação marxista sobre o levante de escravizados contra a opressão do sistema escravista durante a Guerra Civil, episódio que o autor chama de “greve geral dos trabalhadores negros”.

Gato foi o professor responsável pela primeira disciplina dedicada ao pensamento duboisiano no Brasil, logo após ingressar na docência da Unicamp, em 2021. A experiência do curso, o envolvimento dos alunos e o interesse de outros professores motivaram a criação do Projeto Du Bois no Núcleo Afro-Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), do qual é o coordenador. Entre as atividades do núcleo estão a divulgação científica do pensamento duboisiano em veículos jornalísticos e traduções integrais de obras do sociólogo. Já foram publicados os livros A igreja negra, pela editora Recriar, Água escura, pela editora Fósforo, e, agora, Reconstrução negra.

O professor considera o conhecimento a respeito do autor no Brasil ainda restrito, mas aponta um aumento na circulação de suas ideias. “Os anos 2000 são muito importantes para a percepção de Du Bois no Brasil, porque estávamos tendo uma briga por ações afirmativas, e o lugar dos intelectuais negros na universidade era uma pauta”, destaca.

Reconhecimento tardio

Não foi apenas no Brasil que o pensamento de Du Bois tardou a ser reconhecido. O intelectual foi menosprezado em seu país natal, enfrentando a segregação racial e a perseguição anticomunista no fim da vida. Cerca de 50 anos após sua morte, Gato estava nos Estados Unidos, como parte do seu doutorado, quando seu orientador na Universidade de Princeton, Jeremy Adelman, comentou: “Tem um movimento aqui para repensar Du Bois. Como você estuda intelectuais negros, devia acompanhar isso”. O ano era 2013, e desde então o docente brasileiro se dedica ao pensamento do sociólogo estadunidense.

Du Bois foi o primeiro intelectual negro a obter doutorado na Universidade Harvard e um dos responsáveis pela fundação da Escola de Atlanta, corrente sociológica pioneira que reuniu diversos pesquisadores em trabalhos empíricos importantes no país norte-americano, como estudos sobre saúde e condições de trabalho da população negra.

Segundo os dois professores da Unicamp, a resposta para a demora em reconhecer o pensador tem diversas camadas. “Do ponto de vista político, as disputas sobre a constituição da sociologia nos Estados Unidos foram decisivas. Há estudos mostrando como o Laboratório de Atlanta perdeu investimentos e, de certa maneira, foi um pouco boicotado pelo grande rival de Du Bois no começo do século 20, Booker T. Washington”, diz Gato, referindo-se ao ativista do movimento negro que tinha visões mais conservadoras e conciliatórias, conflitando com a atuação e as visões do autor traduzido.

A aproximação com o comunismo na década de 1930 também explica parte do rechaço. No caso do livro Reconstrução negra, frisa Cavalcante, “o ataque direto que ele faz a toda uma corrente da historiografia nos Estados Unidos” é também um motivo. Na obra, há um capítulo inteiramente dedicado à denúncia de uma história propagandeada, que abordava o período da Reconstrução apenas como uma desestruturação da ordem social sulista supostamente harmônica. “Du Bois mostra projetos de democracia radical – que vai chamar de democracia abolicionista – que não foram devidamente identificados e descritos, por conta do próprio preconceito e da discriminação racial, o que impedia esses historiadores de verem a agência negra nesse processo”, diz o professor, responsável pela tradução de textos do intelectual para o número 53 da revista Crítica marxista (como a Carta de Filiação ao Partido Comunista citada no primeiro parágrafo desta reportagem). A crítica sobre a limitação da democracia nos Estados Unidos, num momento em que o país tentava se colocar como liderança de um mundo livre, à época, não era bem recebida.

Um clássico da sociologia

Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber são considerados fundadores da sociologia por suas contribuições para a construção das bases da disciplina. Há uma reivindicação de intelectuais da área para que Du Bois seja somado a esses cânones. Existem diversos motivos para isso, segundo os dois professores da Unicamp. Em primeiro lugar, indicam, sua obra contribui para a compreensão da sociedade capitalista moderna, especialmente em formações nacionais fundadas no colonialismo e na escravidão. Além disso, foi ele quem trouxe a importância da dimensão racial na sociologia, rechaçando teorias vinculadas ao racismo científico que pregavam uma superioridade branca e rompendo um quase silêncio de seus contemporâneos sobre questões raciais.

Cavalcante explica que, naquele momento, a sociologia quase não falava em raça, pois a considerava, de forma geral, uma questão apenas relativa à biologia. “O processo de elaboração da categoria de raça a partir de uma dimensão sociológica é o que a teoria europeia não fez e o que Du Bois estava produzindo. Hoje, com a recuperação dessa obra, você percebe como ele adentrou num continente – não só físico, mas também de conceitos e categorias – que estava de certa maneira interditado por aquela sociologia”, analisa.

Diante disso, entender Du Bois como um clássico reposiciona as questões raciais como fundantes da sociologia, avalia Gato. Para o docente, além disso, há também a importância de colocar a América no circuito da sociologia. “Isso muda um pouco o lugar do próprio Brasil na história do pensamento sociológico”, aponta. Se antes autores que lidavam com raça não eram considerados parte de uma sociologia geral, observa, agora eles são reposicionados. “Desse ponto de vista, por exemplo, Florestan Fernandes não se encaixa apenas em um pensamento social brasileiro, o que também é muito bom, mas como um sociólogo que está dando grandes contribuições para interpretar o que é esse tipo de sociedade moderna nas condições que vivemos aqui na América Latina. Isso ficava sem lugar na história da sociologia.”

Gato acrescenta que Du Bois é um clássico por seu estilo de trabalho. Ao fundar a Escola de Atlanta, explica o professor, o pensador reuniu pesquisadores em torno de diversos trabalhos empíricos que analisaram as condições da população negra. Sua forma de imbricar métodos qualitativos e quantitativos, completa, é mais um legado.

Reflexões atuais

Os professores destacam a importância de diversos conceitos de Du Bois para o debate sobre raça e classe. “Salário psicológico” é um exemplo: a expressão foi criada a partir de uma observação sobre divisões na classe trabalhadora, oriundas do racismo. Para o autor, trabalhadores brancos, mesmo em cargos equivalentes aos de trabalhadores negros, recebiam uma espécie de “salário psicológico” que lhes garantia privilégios – como a entrada em parques e clubes. Essas benesses lhes davam a sensação de superioridade racial e geravam uma divisão intraclasse. “O caso do salário psicológico mostra o quanto as divisões internas entre trabalhadores pobres – brancos e negros – eram também explicadas pelo peso da ideologia racial, que, supostamente, oferecia melhores caminhos para os trabalhadores brancos poderem ascender socialmente”, pontua Cavalcante.

Essa divisão, elucida o professor, diminui a força coletiva da classe trabalhadora. “[O capitalismo] é um sistema essencialmente anti-igualitário baseado na exploração do trabalho. Nesse sentido, todo tipo de ideologia anti-igualitária, como o racismo, tende a ser acomodado dentro dessa lógica.”

Buscando diferenciar-se do trabalhador negro e se sentindo superior, o trabalhador branco também acaba prejudicado, conforme frisava o intelectual. “De certa maneira, ele perde a luta emancipatória ao aderir à ideologia racial. O que o Du Bois está dizendo é que, ao aderir à ideologia racial, o trabalhador branco vai deixar de contestar a hierarquia socioeconômica e vai precisar se acomodar a ela”, observa Gato, destacando a importância do sociólogo estadunidense também para os estudos sobre a branquitude.

A reflexão de Du Bois, aprofundada em Reconstrução negra, atravessa o tempo. Para Gato, exemplos disso são as reações às ações afirmativas, bem como ao reconhecimento de direitos de trabalhadoras domésticas e ao acesso de setores populares a espaços antes tidos como de elite. “Quando o Estado institucionaliza formas de promover uma igualdade de oportunidades mínima, isso desorganiza simbolicamente uma sociedade que via que cada um tem que estar em um lugar. Reformas que possibilitam, mesmo timidamente, a ocupação de determinados lugares por setores populares mostram isso.”

Os professores lembram ainda que, a partir do legado de Du Bois, a “reconstrução negra” pode ser entendida como um processo de luta por direitos, mais do que um período histórico dos Estados Unidos. “Guardadas as devidas proporções, podemos pensar [em reconstrução] não somente no Brasil da abolição, mas também no Brasil da Constituição, nos movimentos por direitos civis da população negra, das mulheres, e nas lutas por reconhecimento de várias ordens”, destaca Cavalcante. O autor promove uma complexificação de lutas emancipatórias igualitaristas, na qual a diferença não é oposta à igualdade, concluem os docentes.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

Reconstrução negra: ensaio para uma história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880

Autor: W. E. B. Du Bois

Tradução: Murillo Van Der Laan

ISBN: 9788526818729

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 816

Dimensões: 16 x 23 cm

Coedição: Boitempo

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