
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Conhecida por ser uma narrativa curta, cujo principal meio de circulação são veículos de imprensa, como revistas, jornais e, por vezes, rádios, a crônica é um gênero textual que transita entre a literatura e o jornalismo.
Com origem no latim (chronica) e no grego (khrónos), a palavra “crônica” significa a narração de acontecimentos em ordem temporal linear. Associado à passagem do tempo, o gênero surgiu como forma de registrar cronologicamente eventos banais ou extraordinários, utilizando elementos literários que conferiram aos fatos um caráter de entretenimento. Entretanto, apesar de nascer com o objetivo de informar e divertir os leitores no curto período em que circulava, a crônica passou a assumir um importante papel social.
De maneira despretensiosa, ao incorporar os pontos de vista, as opiniões, os afetos e as críticas de seus autores, os textos desse gênero tornaram-se espelhos das sociedades em que circulavam, constituindo-se em excelentes objetos de estudo para a compreensão de diferentes formas de vida, culturas e ideologias ao longo do tempo. Dessa forma, ainda que apresente elementos estruturais semelhantes – como a temática do cotidiano, a linguagem simples e a curta extensão –, a crônica se distingue pelas subjetividades expressas em cada narrativa, responsáveis pela singularidade do gênero.
Diante da importância da crônica como produto social, a Editora da Unicamp disponibiliza em seu catálogo livros que aprofundam as discussões sobre o gênero e suas relações com a história social e cultural do Brasil. Confira:

Em 2008, Bons dias! – uma das mais conhecidas e importantes coletâneas de crônicas de Machado de Assis – ganhou nova edição pela Editora da Unicamp, com revisão ampliada, nova introdução e notas.
Com textos de apoio escritos por John Gledson, tradutor, ensaísta e crítico literário inglês especializado na obra machadiana, a edição reúne crônicas publicadas entre 1888 e 1889 no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Originalmente, os textos foram lançados sob o pseudônimo “Boas noites”, estratégia utilizada para evitar desgastes na imagem do autor em razão das opiniões polêmicas presentes na obra. A autoria das crônicas permaneceu desconhecida até meados da década de 1950.
As 49 crônicas reunidas em Bons dias! oferecem uma visão precisa e irônica da sociedade carioca durante o período da abolição da escravatura e do declínio do Império. Nelas, Machado expõe suas opiniões políticas e leituras sociais ao abordar temas como medicina popular, espiritismo e neologismos.

Organizada por Lúcia Granja e Jefferson Cano – pesquisadora especializada no estudo das crônicas e das intersecções entre literatura e jornalismo na obra de Machado de Assis, e professor de teoria literária voltado à história do romance e às relações entre literatura e imprensa, respectivamente –, a edição de Comentários da semana, publicada pela Editora da Unicamp, foi lançada em 2008.
A obra reúne crônicas escritas originalmente para uma coluna dedicada a temas da atualidade, como política e cultura, publicada no Diário do Rio de Janeiro, periódico de perfil liberal, entre 1861 e 1862. O convite para a escrita e a manutenção da coluna não ocorreu por acaso: Machado, já conhecido pelo tom crítico e irônico de seus textos, era consequentemente observado em relação às suas posições políticas.
As crônicas reunidas em Comentários da semana revelam, portanto, um Machado de Assis ainda jovem, em cujos textos já se delineiam marcas fundamentais de sua obra, como o teor crítico, irônico e satírico, ainda em formação.

Escrito por Machado de Assis entre 2 de junho e 1o de setembro de 1878, Notas semanais apresenta 14 crônicas publicadas no jornal O Cruzeiro sob o pseudônimo “Eleazar”.
Em 2008, a Editora da Unicamp lançou uma nova edição da obra, evidenciando um importante momento de amadurecimento na trajetória machadiana. O volume conta com textos introdutórios e notas elaborados por Lúcia Granja e John Gledson, concebidos para esclarecer referências presentes nas crônicas a situações da sociedade carioca da época, fossem elas triviais ou não.
Nas narrativas, é possível identificar um escritor profundamente engajado com as questões de seu tempo, atento às dinâmicas sociais e culturais que atravessavam o cotidiano do Rio de Janeiro.

Organizada por Rodrigo Camargo de Godoi – livre-docente de História do Brasil Império pela Unicamp e pesquisador do Núcleo de Estudos da Edição, Literatura e Imprensa (Neelim) –, a edição de O Futuro, publicada pela Editora da Unicamp, foi lançada em 2014.
Intitulado a partir do nome da revista luso-brasileira em que os textos foram originalmente publicados, entre 1862 e 1863, o livro reúne 16 crônicas escritas pelo jovem Machado de Assis. Os textos foram recuperados por meio de extensa pesquisa em arquivos e bibliotecas e tiveram como base a única edição conhecida da revista, há décadas fora de catálogo.
O resultado é um material raro e extremamente rico, que revela um Machado jovem, atento aos detalhes de sua atualidade e, principalmente, à vida cultural da sociedade carioca.

Escrito por Arthur Azevedo entre setembro de 1894 e outubro de 1908, O Theatro reúne mais de 680 crônicas publicadas em jornal, no qual o autor era responsável pela cobertura de espetáculos artístico-teatrais apresentados no Rio de Janeiro.
Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855-1908) foi uma das figuras mais expressivas do teatro e das letras brasileiras do final do século XIX e início do XX. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras e importante articulador da construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, destacou-se também como crítico literário, cronista e jornalista, colaborando com periódicos como Vida Moderna, A Gazetinha e A Notícia, onde publicou as crônicas reunidas nesta edição.
Lançada em 2009 pela Editora da Unicamp, a obra foi organizada por Larissa de Oliveira Neves e Orna Messer Levin – professoras livre-docentes da Unicamp, vinculadas aos departamentos de Artes Cênicas e Teoria Literária, respectivamente. As crônicas oferecem um panorama amplo da vida social e cultural brasileira da época, especialmente a partir da observação do público teatral. A edição conta ainda com material iconográfico inédito e um CD-ROM com o conteúdo transcrito.

Resultado da extensa pesquisa da professora Laura Taddei Brandini, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral (2008, Editora da Unicamp) aproxima o leitor do universo das artes plásticas, de Paris e dos movimentos de vanguarda.
Conhecida mundialmente por sua produção pictórica, Tarsila do Amaral (1886-1973) também desenvolveu uma significativa produção escrita, composta de poemas, crônicas e contos publicados majoritariamente em jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro entre 1936 e 1958.
Os textos, em grande parte inéditos, revelam aspectos ainda pouco explorados da obra de Tarsila, apresentando suas interpretações sobre o meio artístico e cultural das grandes cidades, além de suas relações com a cultura francesa.
Dessa forma, Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral oferece ao leitor um vasto material traduzido e comentado, acompanhado de bibliografia francesa, ampliando as possibilidades de compreensão sobre a artista, sua obra e suas concepções estéticas.

Publicado em 2012 pela Editora da Unicamp, Registro: crônicas da Belle Époque carioca reúne textos escritos entre 1900 e 1908 para a coluna “Registro” do jornal A Notícia.
Organizada e editada por Álvaro Santos Simões Jr., professor da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), a obra evidencia uma faceta ainda pouco explorada de Olavo Bilac, conhecido principalmente por sua atuação como jornalista e poeta parnasiano.
Em suas crônicas, Bilac surge como um atento observador da modernização carioca, das transformações urbanas e das tensões sociais da Primeira República. A partir de um ponto de vista profundamente pessoal, o autor discorre sobre diferentes assuntos, mesclando as habilidades do jornalista à sensibilidade do poeta.
A partir dessas obras, é possível perceber a diversidade e a potência da crônica, hoje reconhecida como um gênero literário essencial para as letras brasileiras, capaz de fornecer diferentes compreensões sobre a sociedade nacional em distintas classes sociais, culturas e épocas.
É por meio dela que o leitor do século XXI tem acesso às particularidades da opinião e da escrita do jovem Machado de Assis, a Tarsila do Amaral para além da pintura, a Olavo Bilac como cronista ou às interações sociais que permeavam os teatros da capital carioca.
Assim, mais do que evidenciar como um gênero inicialmente concebido para ser momentâneo e voltado ao entretenimento transformou-se em uma forma de aproximação com outras temporalidades, os títulos da Editora da Unicamp permitem ao leitor entrar em contato com a subjetividade desses artistas e intelectuais consagrados, que interpretam suas épocas a partir da ironia, da crítica e do afeto.
Gostou das dicas de leitura? Explore também outros livros de história, literatura e crítica literária disponíveis no site da Editora da Unicamp.