
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Por diversas razões, como a valorização das ciências humanas e da cultura nacional, os estudos acadêmicos sobre música popular, com destaque para a brasileira, têm ganhado cada vez mais espaço.
No Brasil, esse campo de estudos surgiu sobretudo de forma integrada ao processo de reconhecimento e valorização de nossa própria cultura. A princípio, o interesse acadêmico voltava-se ao folclore (músicas de tradição oral), buscando compreender o país sob uma ótica predominantemente rural. Contudo, entre as décadas de 1960 e 1970, as músicas produzidas em áreas urbanas e voltadas ao consumo de massa passaram a ser consideradas um campo fértil para o entendimento social, político e cultural do país.
Nesse contexto, a música popular assumiu papéis importantes no desenvolvimento das ciências humanas. Como meio em constante transformação e reflexo direto das sociedades, passou a ser analisada sob perspectivas históricas (em períodos de repressão e censura, por exemplo), sociais e antropológicas (música como prática social e de consumo) e literárias (a letra de música como poesia, além do estudo de movimentos como o Tropicalismo e a Bossa Nova e seus impactos culturais). Desse modo, consolidou-se como um importante objeto de legitimação sociocultural. Ao reconhecer a importância da música popular para os estudos da sociedade, a comunidade acadêmica passou a investigá-la também sob diferentes lentes, como a teoria e a análise musical.
Nessa área, um dos principais e mais influentes nomes da pesquisa sobre teoria e análise musical é Carlos de Lemos Almada. Com interesse voltado à variação musical e aos estudos sistemáticos da música popular, Almada é professor dos cursos de graduação e pós-graduação da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde alia prática musical e pesquisa acadêmica para embasar e testar suas teorias. Além de sua atuação docente, possui trajetória acadêmica internacional, é membro da Associação Brasileira de Teoria e Análise Musical, líder do grupo de pesquisa MusMat e editor-chefe do Brazilian Journal of Music and Mathematics (MusMat).
Sua extensa produção acadêmica, que inclui livros, publicações em periódicos especializados e anais de congressos nacionais e internacionais, concentra-se na intersecção entre música, teoria, análise e matemática, dialogando também com sua experiência como compositor e arranjador.
Pela Editora da Unicamp, o pesquisador publicou cinco livros: Arranjo (2001), Harmonia Funcional (2012), A harmonia de Jobim (2022), A melodia de Jobim (2023) e Funcionalidade harmônica em música popular (2025). A seguir, conheça cada um deles:

Publicado pela Editora da Unicamp em 2001, Arranjo – primeira obra de Carlos Almada pela Editora –, apresenta um panorama completo sobre teoria e prática de arranjos e composições musicais.
Dividida em duas partes, a obra constitui um material inédito no país. A primeira parte, voltada ao estudo de bases rítmicas na música popular brasileira e a arranjos para sopros, situa as pesquisas do autor no contexto brasileiro, aproximando conteúdos e publicações estrangeiras da realidade do leitor. A segunda parte traz discussões e exemplificações sobre arranjos complexos e escrita para vozes, cordas e instrumentos de percussão, além de abordar criação e variação melódica, acompanhamentos para solistas, tratamento contrapontístico, entre outros aspectos, todos enquadrados no universo da música popular brasileira.
Assim, Arranjo apresenta não somente uma reflexão crítica sobre o ensino de disciplinas relacionadas à música popular, haja vista a falta de fundamentação teórica brasileira, mas também fornece um conteúdo consistente para auxiliar estudantes e interessados em seu processo de formação.
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Lançado em 2012 pela Editora da Unicamp, Harmonia Funcional revisita a tradição da disciplina ao aperfeiçoar seu ensino por meio de fundamentações teóricas claras, aplicações práticas e contextualização no cenário da música popular brasileira.
Estruturada em três partes – histórica, teórica e prática –, a obra apresenta os pré-requisitos indispensáveis ao estudante de música, oferece bases conceituais sólidas e as insere em contextos que favorecem a assimilação. Na parte prática, a Harmonia Funcional é analisada como um dos principais fatores de caracterização estilística do samba e do choro, sendo estudada a partir desses gêneros.
Ao equilibrar a revisão histórica do desenvolvimento das teorias e a análise de peças brasileiras, Almada constrói um conteúdo didático, organizado de forma lógica e acessível, que se destaca como contribuição inovadora e essencial à área.
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Publicado em 2022 pela Editora da Unicamp,A harmonia de Jobim oferece ao leitor um estudo técnico aprofundado sobre a obra de Antonio Carlos Jobim, músico brasileiro de reconhecimento internacional.
Dando continuidade aos estudos de Almada sobre harmonia, a obra apresenta dois modelos teóricos originais – criados por meio da análise de 145 canções de Jobim e parceiros –, além de discutir funcionalidade harmônica, campos tonais, peculiaridades do modalismo jobiniano e questões conceituais e práticas.
Ao estabelecer conexões entre as produções textuais do compositor, a melodia e o campo harmônico, o livro propõe novos olhares sobre a produção de Tom Jobim e sobre a música popular brasileira.
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Resultado de pesquisas originais e detalhadas sobre diversos aspectos da obra de Antonio Carlos Jobim, A melodia de Jobim (2023) dá continuidade aos estudos apresentados em A harmonia de Jobim (2022).
Nesse volume, o leitor tem acesso à descrição precisa dos modelos teóricos elaborados por Almada para examinar estruturas rítmicas e de alturas nas composições, algumas já publicadas, outras inéditas, obtidas no acervo digital do Instituto Antonio Carlos Jobim. O livro também apresenta análises específicas da organização melódica da obra, como configurações de contornos, relações entre melodia e texto, linhas cromáticas, entre outros elementos.
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Obra mais recente de Carlos Almada publicada pela Editora da Unicamp, Funcionalidade harmônica em música popular (2025) expõe discussões sobre as diferentes maneiras de entender as funções harmônicas na música popular brasileira.
Destinado a leitores já familiarizados com os estudos musicais, o título resulta de anos de pesquisa e docência do autor e propõe uma abordagem teórica e analítica renovada. Nele, Almada amplia o conceito de funcionalidade, tratando-a de forma expandida, abrangente e aprofundada, o que aumenta as possibilidades de compreensão e análise da prática harmônica.
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Nota-se, assim, que as obras de Carlos Almada se consolidam não somente como ferramentas didáticas para a formação de músicos, arranjadores, compositores e pesquisadores, mas também como contribuições fundamentais para a ampliação das formas de estudar a música, que passa a ser legitimada não apenas como objeto sociocultural, mas também como campo consistente de análise teórica e acadêmica.
Ao incorporar também teorias de estilos estrangeiros, como o jazz, aos estudos da música popular brasileira, a produção do autor tornou-se referência na área e impulsionou pesquisas sobre arranjo, harmonia funcional e prática musical.
Além desses títulos, o catálogo da Editora da Unicamp reúne um amplo acervo de obras que apresentam pesquisas e reflexões fundamentais sobre música, teoria e criação musical. Acesse o site da Editora da Unicamp e confira!