Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Nos últimos anos, diante de uma intensa e acelerada onda de avanços tecnológicos, a maioria dos hábitos cotidianos passou por transformações. Seja em aspectos fundamentais para uma vida saudável – como alimentação, transporte, saúde e educação –, seja em elementos complementares ao bem-estar, a tecnologia veio para tornar o dia a dia mais descomplicado, prático, muitas vezes, mais prazeroso.
É nesse cenário que os livros digitais se destacam e vêm despertando o interesse crescente do público. No Brasil, o hábito de ler tem passado por mudanças que refletem o papel fundamental da leitura na formação cultural e intelectual da população. A pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, aponta para o aumento da leitura em celulares, seja por meio de e-books ou audiolivros. Segundo o levantamento, cerca de 75% dos leitores brasileiros optam pelo celular como principal meio para acessar livros digitais – um crescimento de 73% para 75% entre 2019 e 2024. O dado evidencia como as tecnologias, integradas ao cotidiano, têm facilitado o acesso ao lazer e ao conhecimento.
Além da praticidade, outros fatores impulsionaram o consumo de livros digitais no Brasil, como a pandemia de covid-19 e o consequente lockdown. De acordo com a pesquisa “Conteúdo digital do setor editorial”, houve um salto significativo nas vendas de e-books em 2020: um crescimento de 81% em relação a 2019, com 8,7 milhões de livros digitais vendidos, contra 4,7 milhões no ano anterior. Desde então, os e-books vêm conquistando cada vez mais leitores.
Apesar das inúmeras vantagens – como preço acessível, possibilidade de carregar vários títulos em um único dispositivo e maior durabilidade do conteúdo –, a leitura digital também pode gerar alguns desconfortos, como cansaço visual e dor de cabeça, causados pela exposição prolongada à luz das telas. No entanto, esses efeitos podem ser amenizados com configurações simples, como o ajuste do brilho, o uso de filtros de luz azul e, sempre que possível, a leitura em dispositivos adequados, como o Kindle.
Pensando nisso, a Editora da Unicamp disponibiliza a Coleção Históri@ Illustrada, que oferece uma experiência de leitura mais rica e envolvente ao combinar textos, imagens e som. Coordenada pela professora Silvia Hunold Lara e com o apoio editorial das professoras Maria Clementina Pereira Cunha e Martha Campos Abreu e do professor Sidney Chalhoub, a coleção reúne obras digitais acompanhadas de vídeos complementares, resultado de pesquisas desenvolvidas no Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult), ligado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Os livros da coleção foram pensados não apenas para o público geral, mas também como ferramentas didáticas para o uso em sala de aula. Confira os títulos da coleção:
Com autoria de Maria Clementina Pereira Cunha e publicada pela Editora da Unicamp, “Não tá sopa”: sambas e sambistas no Rio de Janeiro, de 1890 a 1930 é a obra inaugural da Coleção Históri@ Illustrada.
Cunha é professora aposentada do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora do Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult), também da Unicamp. É autora de diversos livros na área, entre eles está a coletânea Carnavais e outras f(r)estas. Ensaios de história social da cultura (2002), também publicada pela Editora da Unicamp.
O livro digital, “Não tá sopa”, apresenta um estudo bem-humorado e de linguagem acessível sobre como trabalhadores, que vivenciavam seu lazer em rodas de samba, transformaram-se em figuras reconhecidas no cenário musical. Com foco no cotidiano desses frequentadores dos bairros Cidade Nova e Estácio, esse livro reúne mais de 180 imagens e cerca de 40 fonogramas, disponíveis no vídeo Sambas e sambistas, fornecendo ao leitor uma imersão rica e completa no universo do samba brasileiro.
O segundo volume da coleção, Estilo moderno: humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre (2017), é de autoria de Marcelo Balaban, professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Balaban é graduado em Letras pela Unicamp, mestre em História Social pela PUC-Rio e doutor pela Unicamp na mesma área. É autor de diversos artigos e coletâneas, além do livro Poeta do lápis: sátira e política na trajetória de Angelo Agostini no Brasil imperial (1864-1888), publicado pela Editora da Unicamp em 2009.
Estilo moderno investiga a produção literária de Manuel Bastos Tigre, buscando compreender os impasses políticos, sociais e raciais do início do século XX. A obra, que analisa sua trajetória nos campos teatral, jornalístico e publicitário, bem como sua militância em prol dos direitos autorais, é acompanhada pelo vídeo Humor, literatura e publicidade.
Publicado em 2017 pela Editora da Unicamp, o livro Da senzala ao palco: canções escravas e racismo nas Américas, 1870-1930, de Martha Abreu, analisa o sucesso de músicas produzidas por descendentes de pessoas escravizadas no Brasil e nos Estados Unidos, entre o fim do século XIX e o início do século XX.
Professora titular do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora da Faperj e do CNPq, Abreu tem ampla produção na área. É autora de Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque (Paz e Terra, 1989) e O império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900 (Nova Fronteira, 1999), além de organizadora de coletâneas e artigos sobre música negra, cultura popular e ensino de história.
Da senzala ao palco, terceira obra da coleção, destaca a variedade da produção cultural negra em meio à construção e perpetuação de estereótipos racistas. A obra é enriquecida por 201 imagens, 47 fonogramas e 5 vídeos, com o título Canções escravas e racismo nas Américas.
A quarta obra da coleção, Clichês baratos: sexo e humor na imprensa ilustrada carioca do início do século XX, de Cristiana Schettini, amplia o horizonte temático da coleção.
Schettini é professora do Instituto de Altos Estudios Sociales da Universidad Nacional de General San Martín (Unsam) e pesquisadora do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), na Argentina. Seus estudos concentram-se em história social, perspectiva de gênero, prostituição e história do Brasil e da América. É autora de Que tenhas teu corpo: uma história social da prostituição no Rio de Janeiro das primeiras décadas republicanas (Arquivo Nacional, 2006), entre outras publicações.
O livro Clichês baratos, publicado pela Editora da Unicamp em 2019, analisa duas revistas cariocas – O Rio Nu (1898-1916) e Sans Dessous (1909-1910) – para traçar um panorama inusitado da sociedade da época, abordando temas como relações de gênero, diversões noturnas e prostituição. A obra é acompanhada pelo vídeo Sexo, humor e diversão. Mais informações estão disponíveis no Blog da Editora.
Escrita por Sandra Sofia Machado Koutsoukos e publicada em 2020 pela Editora da Unicamp, Zoológicos humanos: gente em exibição na era do imperialismo é a quinta obra da coleção e a única disponível em versão impressa.
A autora traz no livro os resultados de suas pesquisas durante seus anos de formação acadêmica. Graduada em Belas-Artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com mestrado e doutorado em Artes e Multimeios pela Unicamp, Koutsoukos desenvolveu sua pesquisa de pós-doutorado também na Unicamp, abordando a exibição de pessoas em eventos no século XIX e início do século XX.
O livro, acompanhado do vídeo Gente em exibição na era do imperialismo, investiga a hierarquia étnico-racial expressa em exposições de negros, indígenas e povos colonizados, em museus, zoológicos, circos e feiras científicas. Essas práticas, conduzidas por colonizadores brancos europeus, reforçavam a noção de supremacia branca e legitimavam o imperialismo crescente. Mais detalhes estão disponíveis no Livro da Vez.
Gabriela dos Reis Sampaio e Wlamyra Ribeiro de Albuquerque são as autoras do livro De que lado você samba? – Raça, política e ciência na Bahia do pós-abolição, que trata das dinâmicas do racismo em Salvador, no período dos primeiros anos da República.
Ambas são doutoras em História Social pela Unicamp e professoras do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Entre suas publicações, destacam-se Nas trincheiras da cura (2001), de Sampaio, e Algazarra nas ruas (1999), de Albuquerque, ambas pela Editora da Unicamp. Além disso, elas possuem um amplo histórico em pesquisas e estudos sobre história social, Brasil Império e ensino da história.
O livro, publicado em 2021, analisa o cotidiano de Salvador nos primeiros anos da República, focando em festas, religiosidades e sociabilidades urbanas. A partir desses elementos, as autoras constroem uma análise dos embates políticos, sociais e culturais da época. A obra é acompanhada pelo vídeo De que lado você samba?. Mais informações podem ser conferidas no Livro da Vez.
Além dos livros da Coleção Históri@ Illustrada, a Editora da Unicamp conta com um catálogo diversificado, com títulos sobre História e muitos outros temas. Entre eles, destacam-se Na senzala, uma flor (2012), História & memória (2013), Escritos de liberdade (2018) e Os lugares da marinhagem: racialização e associativismo em Manaus, 1853-1919 (2024). Confira mais no site ou na livraria da Editora!