Alegria é devoção: as rezas e raízes do samba do Recôncavo

Por Beatriz Burgos

“Mas samba não só manifesta e representa alegria. Ele também a cria. […] Assim como o riso tem uma natureza contagiante, o samba ‘faz aquela influência’ na alegria justamente por ser a própria manifestação da alegria. O samba é o sentimento em si.” Assim Michael Iyanaga, em Alegria é devoção, lançamento da Editora da Unicamp, define o samba. A obra oferece uma análise inédita e minuciosa sobre uma das mais significativas tradições afro-diaspóricas da Bahia: a tradição domiciliar de sambar e cantar para santos de devoção.

Iyanaga é graduado em Execução Musical (violão e alaúde) pela Universidade da Califórnia, Irvine (EUA), possui mestrado e doutorado em Etnomusicologia pela Universidade da Califórnia, Los Angeles (EUA), e pós-doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco e pela William and Mary (EUA). O autor, além de sua nova obra, escreveu diversos artigos em sua área de atuação e foi coorganizador do livro Desafios e particularidades da produção antropológica no Norte e Nordeste do Brasil. Alegria é devoção é resultado de mais de uma década de pesquisas históricas, antropológicas e musicológicas, das quais o autor se utilizou para apresentar os pormenores da tradição baiana, as músicas e a vida dos devotos e das devotas, sempre realçando o seu legado africano.

A partir de pesquisa de campo, o autor captou as múltiplas essências e presenças das “rezas de samba”, registradas no livro. “Todo ano, devotos e devotas no Recôncavo abrem suas casas para parentes, amigos, amigas, vizinhos, vizinhas e até estranhos e estranhas para que todas as pessoas possam festejar um santo de devoção”, diz o autor, na Introdução. E, muito mais que um estudo descritivo, o livro é uma tentativa de explorar o motivo pelo qual isso acontece. “Em outras palavras, o livro investiga os comos e os porquês de rezar um santo com canto e dança”, ele explica. Com isso, Alegria é devoção revela faces da vasta complexidade religiosa e cultural da diáspora africana no Brasil, que aqui perpetuou raízes e até hoje inspira práticas de força ímpar, colocando em questionamento conceitos acadêmicos consagrados como “sincretismo” e “catolicismo popular”.

A obra é dividida em seis capítulos, além da Introdução e Conclusão. Nela, o autor transmite com maestria a formação estética da “reza do samba”, não deixando de lado nenhum detalhe e não desprezando nenhuma expressão subjetiva. Assim, desenvolve um completo “estudo etnográfico” sobre os eventos domiciliares conhecidos como “rezas”, “carurus”, “novenas”, “sambas”, “penitências” – ou, simplesmente, “devoções”. Na obra, Iyanaga ainda analisa 36 cantigas que ele mesmo gravou em 6 rezas diferentes de 5 cidades/municípios distintos: KM 25 (distrito de Santo Amaro), Cachoeira, Muritiba, São Félix e Fazenda Pilar (zona rural de São Félix). A partir dessa análise, o autor percebe que, apesar de haver recorrência de certas cantigas nas rezas comparadas, as performances (melodias) eram muitas vezes distintas, podendo ter uma perspectiva das possíveis variações de uma mesma cantiga. As faixas das cantigas são disponibilizadas ao fim da obra em QR Codes, por onde podem ser acessadas.

Katharina Döring, prefaciadora do livro, colega etnomusicóloga e amiga de Michael Iyanaga, identifica como o maior fio condutor do livro a compreensão sensível da multidimensionalidade e territorialidade do samba “e sobretudo da sua inserção numa paisagem sonora que ocupa com persistência, em possibilidades quase infinitas”. Sobre a obra, Döring aponta:

Michael Iyanaga foi capaz de perceber além do aparentemente invisível e pintar com as devidas matizes, cores e luzes, toda riqueza e intensidade das rezas, dos altares, dos cantos e versos, dos comes e bebes, das casas e, sobretudo, das pessoas de várias idades, as quais, em suas memórias, contêm as peças e as chaves para a materialização criativa da sua fé que foge de qualquer dogma e padronização, porém se manifesta enquanto performance ritual numa coerência estética, poética, cênica e musical que se perpetua, sem que alguém tenha precisado ensinar ou decretar.

Alegria é devoção, dessa forma, apresenta-se como uma obra que inova ao analisar as “rezas do samba” para além do que se vê, unindo todas as suas múltiplas essências. A um só tempo, aponta suas multifacetas e variações em diferentes grupos, valoriza sua presença no conjunto da cultura nacional e ressalta seu legado africano. Iyanaga é capaz de colocar em sua escrita sua própria identidade e suas heranças, ao tempo em que faz um trabalho etnográfico embasado em dados, na história e em sua experiência de campo. A obra, por isso, enlaça arte e saber, religião e ciência, experiência e tradição, transmitindo conhecimento com a espontaneidade do samba e a beleza da devoção a todos aqueles que se propõem adentrar seu universo. Ainda, Döring, no Prefácio do livro, nota que ele “certamente se tornará uma referência única no que diz respeito à ‘reza do samba’ e a essa tradição atlântica e afro-diaspórica de inspiração católica”.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Alegria é devoção

Autor: Michael Iyanaga

ISBN: 9788526815551

Edição: 1a

Ano: 2022

Páginas: 344

Dimensões: 16 x 23 cm

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