Em meio à inércia da esquerda, a rebeldia de uma direita “antissistêmica” se assoma

Por Gabriel de Lima

Um século de revoluções políticas e de gigantescas mobilizações sociais, os anos 1900 são conhecidos por concentrar vários episódios trágicos e sistematicamente reformadores, reverberando até a contemporaneidade. Fundamentados em Karl Heinrich Marx, os movimentos de esquerda detinham, em seu bojo ideológico, o ímpeto de organizar levantes populares, sendo que estes resultaram em uma onda de revoluções – como as Russas, a Cubana e a dos Cravos – de ordem global e socialista. Ao revés disso, são também dessa época as ideologias nazifascistas que devastaram o continente europeu; ultraconservadoras e ultranacionalistas, essas doutrinas antidemocráticas infelizmente não se extinguiram com o fim da Segunda Guerra Mundial, permeando ainda a dinâmica política atual.

Embora sistematicamente organizados, esses grupos de direita, ao estarem, de modo geral, em sintonia com a configuração governamental moderna e burguesa, não conseguiram capitalizar o descontentamento social das camadas mais pobres e marginalizadas. Analisando o espectro político mundial das últimas décadas, o etnógrafo estadunidense Benjamin Teitelbaum, em seu livro Guerra pela eternidade, constatou que o pensamento antiprogressista reascendeu por meio da difusão intercontinental de uma corrente filosófica moderna, porém antimodernista, o Tradicionalismo, que “quando combinado com o nacionalismo anti-imigração, no entanto, muitas vezes é sinal de um radicalismo ideológico raro e profundo”. O igual reconhecimento da proliferação de “intelectuais menores” conservadores e imensamente midiáticos impeliu Pablo Stefanoni, doutor em História pela Universidade de Buenos Aires, a publicar A rebeldia tornou-se de direita?: como o antiprogressismo e a anticorreção política estão construindo um novo sentido comum (e por que a esquerda deveria levá-los a sério), lançamento da Editora da Unicamp.

O volume – traduzido por Beatriz Marchesini – faz parte da série “Discutindo o Brasil e o Mundo” e tem por objetivo “a revitalização do debate em torno de temas de grande interesse contemporâneo”, sobretudo do âmbito político em escala nacional e global, como “o avanço da direita autoritária, a crise do neoliberalismo e os rumos do capitalismo na era digital, o conflito na Ucrânia e o embaralhamento da política internacional”. Traçando um panorama geral do campo ideológico contemporâneo – tanto de esquerda quanto de direita –, o pesquisador argentino alerta sobre um pessimismo crescente das frentes progressistas, principalmente com a estabilização democrática pós-Guerra Fria, que possibilitou uma virada geopolítica de cunho autoritário e neofascista.

As narrativas conservadoras readequaram-se, a partir dos anos 1990, para que pudessem abranger um grupo politicamente reacionário e deslocado do sistema democrático liberal, os “white trash”, termo pejorativo surgido nos Estados Unidos para denominar os brancos pobres – que, juntos, formam uma parcela significativa da classe trabalhadora do Ocidente. Nesse sentido, Pablo Stefanoni principia desse acontecimento extremo, relatando a criação de discursos utópicos e sedutores que são a força motriz do maquinário populista dessa “reformulada” direita, terminando por elencar alguns espaços políticos perdidos pela ala progressista com o desestímulo ao modelo revolucionário de fazer política.

De modo a elucidar os principais ramos ideológicos desse moderno conservadorismo, a obra é estruturada em cinco capítulos que dissecam toda a transformação comportamental e os apoios adquiridos nesse percurso – como de neoliberais e até de algumas comunidades homoafetivas. A transição gradual de líderes direitistas emblemáticos, como Ronald Reagan e Margaret Thatcher, para uma massificação de informações e de ideias reacionárias por meio de influenciadores digitais e pseudointelectuais é o que orienta todo o estudo sociológico de Stefanoni. Ao final de A rebeldia tornou-se de direita?, encontra-se o “Glossário essencial para entender as novas direitas”, contendo os principais termos e siglas empregados no livro.

Docente na Universidade Nacional de San Martín, Pablo Stefanoni colaborou, ao longo de sua carreira editorial, em alguns jornais renomados como o Cone Sul do Le Monde Diplomatique e a revista argentina Nueva Sociedad, além de integrar, enquanto pesquisador, o Centro de Documentação e Investigação da Cultura de Esquerda. Somados, todos os conhecimentos adquiridos nessa longa trajetória profissional foram fundamentais na realização de seu estudo, ainda mais quando se pretende esquematizar e detalhar os inúmeros paradoxos sociopolíticos e ideológicos encontrados, dos quais a direita neofascista, em suas múltiplas correntes – ecofascismo, homonacionalismo, tradicionalismo e vários outros subgrupos –, é a propagadora.

Para além do uso infundado da “bandeira da ‘liberdade’”, visto que este lema iluminista possui bases revolucionárias – em oposição à ordem estabelecida e favorável a uma democratização do âmbito político –, o conservadorismo tomou para si o caráter subversivo e de contestação que historicamente esteve no cerne da esquerda marxista, sendo que Stefanoni imputa a responsabilidade dessa reviravolta ao próprio comodismo e à passividade da recente esquerda diante do maquinário sistêmico do Estado. Entre a globalização neoliberal e a defesa “da soberania nacional”, o estudioso argentino explicita, em seu texto, como o campo progressista secundarizou, mantendo-as marginalizadas, algumas populações periféricas que são comumente desassistidas pelos órgãos públicos e não se veem representadas por uma “esquerda [que] foi ficando no lugar do politicamente correto”, sendo que “a direita se apropriou do campo oposto”.

A rebeldia tornou-se de direita? elenca dois elementos ideológicos como principais no robustecimento da atual extrema direita: a irracionalidade existente em suas narrativas – demagógicas em demasia – e o temperamento “antissistêmico” desses movimentos conservadores. Diante da passividade da democracia, foi a direita que assumiu o papel da rebeldia, do ímpeto revolucionário, da oposição ao establishment, mesmo que isso imbricasse em uma redefinição de seus valores e de seu clássico posicionamento sociopolítico. Por todas essas motivações, Pablo Stefanoni, apoiado em uma análise minuciosa do panorama político mundial, promove um alerta não só para as alas progressistas, mas para todos os que defendem um Estado Democrático de Direito.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

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