Um gênero todo seu

Por Beatriz Burgos

No primeiro capítulo de O segundo sexo (1949), “A infância”, Simone de Beauvoir traz sua célebre frase: “Não se nasce mulher, torna-se”. Isto é, tudo aquilo que aparenta ser da ordem do individual e somente agregado à vivência da mulher revela-se, também, da ordem do político, do público, do social – construído socialmente e determinado politicamente. Levanta, assim, a questão: o que é ser uma mulher? Para tentar responder a essa questão, a autora enumera diversas ideologias, desconstrói-as, descarta-as, distingue a fêmea da mulher. No entanto, à luz da época, joga as bases da construção do gênero, apenas, mas não da construção do sexo, e sem tematizar completamente essa diferença.

Eleni Varikas, em seu livro Pensar o sexo e o gênero, publicado originalmente na França, em 2006, e em 2016, pela Editora da Unicamp sob a tradução de Paulo Sérgio de Souza Jr., aprofunda-se nessa questão. Varikas atualmente ministra Estudos e Teoria de Gênero em Política na Universidade de Paris VIII e já foi professora e pesquisadora convidada de várias universidades e vários centros de pesquisa, como, por exemplo, o Centro Mulheres e Literatura de Barcelona, do Brasil e dos Estados Unidos. Suas obras e seus artigos sobre o feminismo, o gênero na modernidade política, as hierarquias sociais, o racismo e a colonialidade do saber foram traduzidos em oito idiomas. Seguindo a mesma linha estruturalista de Beauvoir, a escritora, na obra, busca pensar a questão da diferença entre sexo e gênero em sua dimensão de formação política.

O livro é dividido em dois grandes capítulos, “Gênero: um conceito itinerante” e “Pertinências e impertinências do gênero”, ambos divididos em subseções. O primeiro capítulo busca refletir sobre o conceito de gênero a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Com isso, a autora propõe, por meio das diversas áreas que estudam mulheres e gênero, repensar as próprias fronteiras que as encapsulam. A escritora, assim como Beauvoir, ao desenvolver sua teoria, afasta-se de ideias pautadas no determinismo biológico, isto é, em ideologias que definem a mulher por sua função biológica; no lugar – e, aqui, inova em relação à sua precursora –, aproxima-se do determinismo social ou linguístico: Varikas pensa em como o conceito de gênero pode ser percebido no campo da linguagem, que entende como campo de ação. Repensa a própria significação do conceito nas ciências humanas e busca esclarecer que ele é resultado de uma construção social, e não de uma materialidade pré-discursiva. O gênero, em seu sentido gramatical, é totalmente arbitrário – não dependente de uma essência própria das coisas que os substantivos buscam designar, mas das próprias terminações desses nomes. Por isso, para a autora, o gênero não se materializa somente como um princípio de ordem, fundamentado numa divisão social de tarefas e de funções diferenciadas; é, igualmente, uma grade de leitura, uma maneira de pensar o mundo e o político pelo prisma da diferença dos sexos. E, segundo Varikas, assim se justifica a relação entre o gênero gramatical e a diferença de sexo: continua-se a tentar a pôr em sintonia o gênero dos substantivos e a essência masculina ou feminina das coisas que eles designam. Ilustrando seu raciocínio com exemplos da língua francesa, a autora problematiza a tendência de se apoiar na diversidade linguística dos paradigmas da diferença sexual para pôr em questão o gênero como uma abordagem teórica generalizável, a fim de tornar possível a análise da dinâmica social e as questões de poder do antagonismo dos sexos.

No segundo capítulo, “Pertinências e impertinências do gênero”, Eleni Varikas aprofunda sua reflexão acerca da historicidade e da política em relação ao conceito de gênero, bem como às diferenciações entre os sexos. Para a autora, é preciso que haja um afastamento de concepções que atribuem determinados traços característicos a categorias biológicas, uma vez que essas concepções operam de forma a assegurar e perpetuar a estigmatização das mulheres. Nesse sentido, ela defende a necessidade de ser feita uma relação entre as mulheres e os outros grupos discriminados, pois isso permitiria deslocar a discussão sobre o caráter feminino do terreno da biologia para o das relações de poder. Esse deslizamento estratégico permitiria pensar o antagonismo de sexo como uma configuração de poder cuja análise visa à subordinação social e política das mulheres e, por meio dela, aos axiomas, às categorias e às distinções pelos quais pensamos o político e a política, de forma a permitir que compreendamos como o gênero, a um só tempo, constitui e é constituído pelo político.

Na última parte da obra, “A experiência do gênero”, Eleni Varikas reflete sobre como as relações de poder e o processo de heterodefinição tornaram indizível e incomunicável, em termos políticos, a experiência do feminino. Para a autora, isso aconteceu porque a diferença não é mais relação entre particularidades, mas desvio da norma: a mulher acabou por cair do lado do particular. A categoria “homem” elaborou o universal a partir de suas próprias experiências como homem, negando as experiências da “mulher”, e, dessa forma, o que lhe acontece nunca pode ser paradigmático – está marcado com o selo da insignificância, do particularismo. Assim, esse universalismo limita a mulher como ser relativo, que não tem definição a não ser em relação ao homem – ela é o outro absoluto; em contrapartida, o homem, por meio de sua categoria de sujeito, de genérico, subalterniza-a e define sua experiência.

O livro é encerrado com o desenvolvimento da relação entre historicidade de gênero e procedimentos discursivos, a partir da desconstrução dos enquadramentos teóricos já propostos por pensadoras como Joan Scott e Judith Butler. Segundo Varikas, as autoras deixaram pouco espaço para uma pesquisa da subjetividade, e Butler continuou a estabelecer uma relação amplamente unilateral entre a linguagem e o sujeito falante. Para a autora de Pensar o sexo e o gênero

A experiência já não é fonte de atribuição de sentido e de ação históricos, ela é o produto do discurso pelo qual, e por meio do qual, ela é enunciada. A historicidade do gênero, por conseguinte, tem de ser buscada nos procedimentos discursivos que produzem os sentidos do masculino e do feminino, isto é, no estudo exclusivo e no relacionar discursos cuja validade não teria como ser medida com base em suas correspondências – supostamente maiores ou menores – com vivências de mulheres e homens, uma vez que toda pretensão desse tipo é, por definição, metafísica. […] Se os “sujeitos são constituídos por discursos” governados por regras que “operam por repetição”, nós devemos forçosamente privilegiar a análise dos discursos constituídos e, o mais frequentemente, hegemônicos. Ora, o que se pode retirar da análise desses discursos são os sentidos da diferença dos sexos, do indivíduo, da liberdade já estabelecidos.

Ainda, Varikas rememora a frase de Mary Astell: “Se todos os homens nascem livres, como é que todas as mulheres nascem escravas?”. Sobre ela, coloca: “A estupefação de Astell visa, assim – tanto quanto a antecipa –, à transformação da diferenciação política em ‘diferença’ dos sexos que serve de mediação para a construção do indivíduo macho, autônomo, sem amarras nem constrições, dotado de razão e, se possível, proprietário de uma mulher”.

Assim, Eleni Varikas, em Pensar o sexo e o gênero, tece uma reflexão acerca dos conceitos de gênero e sexo cruzando história, formação política e abordagens epistemológicas várias. A autora se mantém sempre atenta ao debate feminista atual ao tratar tanto das questões do feminismo clássico quanto das autoras pós-estruturalistas que figuram a chamada “virada linguística”, apesar de mais próxima das ideias do primeiro, e sempre dialogando com autores célebres. A investigação densa e potente de Varikas é leitura indispensável para aqueles que desejam se aprofundar nos estudos da teoria feminista, bem como para os que estudam a linguagem e o discurso, bases do desenvolvimento teórico da autora. “Não há linguagem política para pensar a liberdade ou, o que dá na mesma, a não liberdade das mulheres; não há linguagem para conceber uma ausência como essa em termos políticos. Essa linguagem, será preciso inventá-la.”

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Pensar o sexo e o gênero

Autora: Eleni Varikas

ISBN: 9788526813380

Edição: 2a

Ano: 2021

Páginas: 136

Dimensões: 14 x 21 cm

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