Bons dias, Boas Noites

Por Beatriz Burgos

Em 1850, a Lei Eusébio de Queirós proibiu o tráfico de escravos no Brasil. Já em 1871, a Lei do Ventre Livre devia garantir a liberdade de todo filho de mulher escravizada nascido a partir de então. Mais tarde, em 1885, a Lei dos Sexagenários libertou todos os escravizados com mais de 60 anos de idade e, finalmente, em 13 de Maio de 1888, foi assinada a Lei Áurea, que determinava o fim da escravidão no Brasil e fez ruir as últimas bases de sustentação do regime monarquista. Cerca de um ano e meio depois, em 15 de Novembro de 1889, a República foi proclamada.

É nesse importante contexto de mudanças políticas e sociais que Machado de Assis, sob o pseudônimo de Boas Noites, passa a escrever e publicar na Gazeta de Notícias, quase semanalmente, as crônicas reunidas no livro Bons dias!, republicado pela Editora da Unicamp em 2008. Os textos, que datam de 5 de abril de 1888 a 29 de agosto de 1889, coincidem com a Abolição da Escravatura e o fim gradual e inevitável do Império, e muito bem se encaixam com tal conjuntura sociopolítica: apesar do tom divertido, característico de Machado, as crônicas têm também um fascínio especial por revelarem as opiniões políticas do autor, em particular no que diz respeito às questões políticas e abolicionistas – ele foi a favor da Abolição da Escravatura e contra a instauração da República, que, segundo o autor, traria a “anarquia social, mental, moral, não sei mais qual”. 

Seja por isso, talvez – visando a não explicitar, naquela época, suas polêmicas visões sociopolíticas –, que Machado tenha usado um pseudônimo para a publicação da série de crônicas. Além disso, esse artifício permitiu-lhe criticar valores e comportamentos recorrentes da sociedade à sua volta nos textos de Bons dias!. O nome “Boas Noites”, usado pelo autor, fez com que esses textos não fossem reconhecidos como de sua autoria até a década de 1950. 

Além da política da época, os textos abordam certos temas caros ao autor, como a medicina popular, o uso de estrangeirismos na língua portuguesa e a ascensão do espiritismo. No entanto, apesar da diversidade temática, o mote central da obra são os importantes eventos circundantes à assinatura da Lei Áurea e da queda do Império. Segundo John Gledson, que assina a Introdução da obra:

as primeiras nove crônicas da série são, na verdade, o seu cerne, e expõem os argumentos centrais do autor. Constituem um processo em que as questões mais importantes são tratadas, desenvolvidas, e finalmente chegam a um clímax, embora, claro, nunca sem ironia. Também – assunto mais controverso, talvez – não está ausente um certo nível de ambiguidade e de dúvida que Machado, por mais que quisesse, nunca pôde eliminar. Nem deveríamos esperar outra coisa – já mencionamos o conflito entre o coração e a mente em relação à sobrevivência do Império como regime.

A série de crônicas semanais constitui, portanto, um testemunho analítico de uma época, mas de forma alguma se limita a ela. Machado de Assis, com uma destreza que lhe é tão singular, consegue promover o riso sarcástico e atiçar o espírito crítico dos leitores ainda hoje. Tratando-se de crônicas tão inseridas em um contexto sociopolítico da época, o autor impressiona ao permanecer moderno, tanto na linguagem como no conteúdo, prendendo os leitores dos textos de Bons dias! do começo ao fim.

Machado de Assis é considerado um dos maiores representantes da literatura brasileira, consagrado pela crítica nacional e internacional. Foi ele o responsável por inaugurar o Realismo no Brasil com a publicação da obra Memórias póstumas de Brás Cubas, publicada em 1881. Apesar de ser lembrado especialmente como romancista, na crônica o autor também se destacou, e os textos que compõem Bons dias! estão entre os melhores do gênero.

A Introdução de John Gledson dessa terceira edição, diferentemente da edição de 1990, tem enfoque mais estritamente cronológico, numa tentativa de explicar o processo de escrita da série, de explicar a relação tensa com o leitor e de levar em conta certas críticas que foram feitas aos seus argumentos na edição anterior, sobretudo no tocante ao assunto da escravidão. Gledson, ainda na Introdução, também acrescentou uma cronologia, num modelo conciso e organizado, como o que tinha feito para A semana; assim, o leitor pode resgatar, de forma fácil e rápida, as datas e demais informações caso sinta necessidade durante a leitura, que acaba por se tornar mais acessível para todos os públicos.

Bons dias! entrou para a lista de leituras obrigatórias do Vestibular Unicamp 2022. A obra, no entanto, não só é indispensável para os pré-vestibulandos, como também para aqueles interessados na riquíssima obra de Machado de Assis, um dos maiores mestres da nossa literatura, que, nos textos do livro, além de relatar algumas das mais importantes mudanças sociopolíticas já vividas em nossa história, as transformou em arte com maestria, ouso dizer, única.

Para saber mais sobre os livros, visite o nosso site!

Bons dias!

Autor: Machado de Assis

ISBN: 9788526807761

Edição: 3a

Ano: 2008

Páginas: 320

Dimensões: 23,00 x 16,00 x 2,00 cm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s