Clarice e a poética da inocência

Por Beatriz Burgos

Segundo Marisa Lajolo, pesquisadora e crítica literária, a infância é representada em diferentes vertentes da literatura brasileira “quase sempre em scripts que invertem radicalmente a representação idílica da infância casimiriana, substituindo a visão ingênua e idealizada por imagens amargas e duras”. É esse o caso de grandes títulos que vêm à mente quando pensamos nas crianças nas páginas da literatura brasileira, como “Negrinha”, de Monteiro Lobato, “Meninos carvoeiros”, de Manuel Bandeira, o livro de memórias de Graciliano Ramos e várias narrativas de Guimarães Rosa. A inocência sempre foi trazida às nossas páginas como um período relacionado a dureza e amargura, a privações e desafios.

Mell Brites, pesquisadora em literatura infantil, decide olhar para a temática a partir da vasta obra de Clarice Lispector, um dos maiores nomes de nossas letras. Mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Letras, além de editora executiva dos selos infantis e paradidáticos do Grupo Companhia das Letras, Brites, em As crianças de Clarice: narrativas da infância e outras revelações, busca explorar a representação da infância na literatura clariceana, atentando para o talvez principal traço que singulariza e marca a literatura da autora: o “olhar que revira e investiga o interior”, nas próprias palavras de Brites.

Esse olhar para dentro do indivíduo é trabalhado nas obras de Clarice com brilhantismo poético, com construção linguística que se faz e move em conjunto com seu conteúdo e por vezes em jogo com o seu leitor, de forma a fazê-lo olhar para si de mãos dadas com a personagem do texto que lê. O papel ativo que muitas vezes o leitor assume na leitura dos textos de Clarice faz com que muitos associem dificuldade à escrita da autora. No entanto, o não entregar a mensagem já decodificada, o trabalhar nas entrelinhas, os longos fluxos de consciência e as rupturas narrativas abruptas são características que compõem a singularidade e o brilhantismo de sua obra, que adentra o território da prosa poética. Segundo Alfredo Bosi, “a prosa de Clarice Lispector faz-se aos poucos, move-se junto com os seus exercícios de percepção, e tateia, e não pode nem quer evitar o lacunoso, ou o difuso, pois o seu projeto de base é trazer as coisas à consciência, a consciência a si mesma”.

Na representação da infância, em Clarice, esses mesmos traços se fazem presentes, e o olhar intimista que remexe o interior continua sendo sua marca mais distinta. Apesar de ser conhecida principalmente por seu trabalho destinado ao público adulto, em especial contos, crônicas e romances, a autora é também responsável pela autoria de livros infantis. E Mell Brites, em As crianças de Clarice, contempla esses dois lados da obra clariceana: seleciona quatro contos voltados para adultos, nos quais o tema da infância ganha destaque (“Restos do Carnaval”, “Cem anos de perdão”, “Felicidade clandestina” e “Os desastres de Sofia”), esses analisados na primeira parte do livro, e três livros infantis de Clarice (“A mulher que matou os peixes”, “O mistério do coelho pensante” e “A vida íntima de Laura”), que compõem o segundo bloco da obra.

Apesar de Clarice, como a maior parte dos outros nomes que retrataram a infância em nossa literatura, em seus textos adultos também associar à infância a dureza, a privação e o desamparo, abre quase sempre espaço para momentos de prazer, muitas vezes associados à construção da identidade do personagem e à ânsia pela vida adulta – e aí se anuncia aquele olhar que revira o íntimo, o que Brites chamou de a mais significativa marca da escrita de Clarice. Enquanto isso, nos livros infantis, Brites vê uma tentativa de Clarice de aproximação com a criança – mais que isso, com a sua própria criança interior.

“Possivelmente não havia melhor forma de dialogar tanto com o leitor quanto com a própria criança dentro de si que não fosse a literatura infantil, na qual a autora encontraria espaço para exercer certa espontaneidade, algo que não enxergava na sua literatura adulta. E, como bem sabia Clarice Lispector, suas infâncias nunca deixariam de acompanhá-la: “Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais”.

No entanto, mesmo nos livros infantis, esse olhar que revira o íntimo – e o que Carlos Mendes de Sousa chama de a “permanente colocação da dúvida”, própria de Clarice – não fica de fora: todos os contos são narrados em primeira pessoa, mas também o é a maior parte dos livros, o que une a autora e os narradores na missão de desvendar “essa realidade que lhe(s) escapa” por meio “de uma escrita que ‘mergulha no próprio caos’, vive ‘no seio da própria incompreensão’ e abre espaço para uma investigação voltada para sua origem”.

Seja nos livros voltados para o público adulto – que, por meio da rememoração do passado, trazem às páginas a infância paradoxalmente sofrida e prazerosa de uma criança que já não existe mais –, seja nos títulos infantis, a partir do contato direto com o leitor infantil imaginário, as obras exploradas por Brites em As crianças de Clarice colocam em evidência a infância e a busca de Clarice pela aproximação com sua própria criança interior, aquela que, segundo ela mesma, não cresceria jamais. O estudo de Brites fascina por sua, a um só tempo, profundidade e acessibilidade, sendo capaz de explorar com maestria as múltiplas facetas de uma autora tão rica, enigmática e sedutora como é Clarice – não à toa considerada um dos maiores nomes de nossa literatura. As crianças de Clarice, publicado pela Editora da Unicamp, é leitura essencial para aqueles que desejam adentrar mais a fundo o universo que é a literatura da autora – e que, quem sabe, assim como ela, ainda guardam no íntimo um pouco das crianças que foram e que se recusam a crescer.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

As crianças de Clarice: narrativas da infância e outras revelações

Autora: Mell Brites

ISBN: 978-85-268-1522-3

Edição: 1a

Ano: 2021

Páginas: 200

Dimensões: 14 x 21 cm

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