Narrativas para (re)existir

Por Sophie Galeotti

Você certamente já ouviu dizer que, mais do que nunca, atravessamos um período de “disputa de narrativas”. Ainda mais com o advento das redes sociais, a informação circula muito intensa e rapidamente e logo já entra em disputa. Politicamente, a “disputa de narrativas” significa que os dois lados do espectro maquinam histórias que legitimem as suas visões e práticas; como se narrativa fosse sinônimo de “versão elaborada”, para atingir determinado efeito.

Todavia, colocar o embate político em um nível de simples e equivalente oposição – como se ele consistisse apenas na produção de histórias convenientes a uma visão preestabelecida – acaba por relativizar a verdade. A verdade é constituída por “enunciados cuja plausibilidade possa ser sustentada por um discurso de demonstração e prova”, como nota Sidney Chalhoub, historiador que assina o prefácio de Narrativas de (re)existência: antirracismo, história e educação. A obra reintegra a palavra “narrativa”, muito profanada, à semântica do mundo do conhecimento, trazendo à tona a importância de narrativas abafadas no passado para a construção de um novo futuro.

O livro, organizado por Amilcar Araujo Pereira, é formado por duas partes: “Diferentes faces do antirracismo produzido pela população negra no Brasil” e “Narrativas e a diversidade de (re)existências”. O conjunto da obra é formado por 12 artigos independentes, mas que enriquecem um ao outro. A origem do conceito do livro foi o XIII Encontro Regional Sudeste de História Oral, em 2019. Seus dois primeiros textos foram apresentados no evento; os outros são inéditos, frutos de contatos que brotam da troca acadêmica. A obra conta com a contribuição de autoras reconhecidas como Nilma Lino Rodrigues e Conceição Evaristo.

A amplitude do trabalho torna-se evidente logo no jogo de palavras do título; (re)existência soa como resistência. Resistir é, por definição, “conservar-se firme; não sucumbir”. Para as populações oprimidas – negros, indígenas, romi e LGBTQIA+ –, é, muitas vezes, o simples ato de viver no mundo. Porém, existir vai além da sobrevivência; aqui, entra o sentido da grafia da palavra (re)existência; é moldar a existência – a identidade que intermedeia nosso contato com a cultura e com o mundo – de modo libertador e democrático.

O esforço da obra em estudar os modos pelos quais essas populações oprimidas podem (re)existir; desde um olhar sobre as políticas públicas e educacionais até o significado cultural corpóreo – como o uso de turbantes e a afirmação da beleza negra – para a construção de novas identidades. Essas identidades são novas no sentido de afirmar, dentro de um mundo globalizado e marcado pela colonialidade, o direito de herdar a cultura própria como protagonista na própria identidade e não subalterna à dominante e imposta, que é a europeia ocidental.

O capítulo “Narrativas de (re)existência e educação antirracista”, do próprio organizador, Amilcar Araujo Pereira, ajuda a elucidar a noção da dominância dessa cultura em tempos de globalização. Pereira traz Aníbal Quijano, que entende que a globalização é só um desdobramento de um processo complexo que se iniciou no século XV, e os seus conceitos de “colonialidade” e “colonização”. Esta última tem o seu marco inicial com a chegada dos europeus à América – cujo nome homenageia o navegador Américo Vespúcio. Os desdobramentos da colonização marcam o mundo até hoje, apesar de ela em si já ter acabado. É pela colonialidade que se perpetua o padrão de poder emergente do colonialismo moderno. Não se trata do domínio de uma nação sobre a outra, mas da forma como trabalho, conhecimento, autoridade e relações intersubjetivas articulam “através do mercado capitalista mundial a ideia de raça”. Portanto, a colonialidade sobrevive ao colonialismo. 

Porém, como as narrativas podem abrir espaço para um futuro mais plural e livre? A cultura ocidental europeia tem uma pretensão de universalidade, como se o seu desenrolar fosse “o desenrolar ontológico de uma história”, nas palavras de Walter Mignolo e Júlio de Souza Pinto. Tal perspectiva é falsa, pois a cultura consiste na “interpretação de certos eventos por atores e instituições que se viam e se veem como estando no centro da Terra e no presente de um tempo universal”. Ou seja, no caso da cultura europeia ocidental, como se ela pudesse ser uma cúpula transparente que envolve e conecta o mundo, unificando-o em torno de si mesma. 

A realidade é que há uma infinita multiplicidade cultural no mundo – e no Brasil. Há diversas culturas, opacas e de diferentes cores. Por mais que tenham sido silenciadas nos processos colonizatórios e imperialistas, elas persistem, e suas inclusões na nossa perspectiva cultural e na nossa visão de mundo são fundamentais para que se construa uma real democracia. Como ainda nota Pereira, a memória e a história esquecidas ganhando vozes possibilitam “construções identitárias positivas para todos os envolvidos no processo educativo”. Como suas palavras resumem: “precisamos conhecer a pluralidade de passados, os diferentes passados em diversos tempos e espaços, para que possamos vislumbrar uma pluralidade de futuros”.

A obra ainda traz relatos em primeira mão da experiência de pessoas negras em meios culturalmente opressores, como no capítulo “Imagens, vozes: narrativas negras no audiovisual contemporâneo”, de Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, Raquel Terto Rego e Samuel Silva Rodrigues de Oliveira. No artigo, há um relato sobre o projeto de conclusão de curso de alunos do curso de midialogia e comunicação social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O projeto é um curta-metragem chamado Cabeças falantes, que mistura documentário e ficção, dirigido por Natasha Rodrigues. A trama é perpassada por uma perspectiva de traumas, “na qual alunos brancos, mais numerosos, estranham ou ignoram a presença do colega preto”. A temática é autobiográfica da diretora, que, quando estudante, sentia-se uma fraude, incapaz de competir com a bagagem cultural de seus colegas. A realização audiovisual, nesse caso, serviu como uma possibilidade de superação. Dez estudantes voluntários, entre eles seis autodeclarados negros, participaram da montagem do curta. Ele foi selecionado em vários festivais, como o Festival Latino-Americano de Cinema de São Paulo.

Na ocasião em que Natasha Rodrigues ingressou na Unicamp, as cotas étnico-raciais ainda não eram sequer um projeto. Com a aprovação delas, destinando 25% das vagas da Unicamp para alunos autodeclarados pretos ou pardos, deu-se um importante passo rumo à democratização da educação. É a partir da movimentação das pessoas e da junção de novas perspectivas a ambientes públicos e educacionais que o presente pode ser alterado para fecundar um futuro diferente. 

Por meio de diversas contribuições para o debate sobre narrativas de (re)existência na história e para a educação atual, o livro Narrativas de (re)existência: antirracismo, história e educação amplia o olhar do leitor sobre a realidade e oferece uma rica análise sobre as práticas educacionais e políticas antirracistas. A obra é indispensável a profissionais da educação, historiadores e a todos os que desejam ampliar suas perspectivas de mundo.

Narrativas de (re)existência: Antirracismo, história e educação

Organizador: Amilcar Araujo Pereira

Edição: 1a

Ano: 2021

ISBN: 978‑65‑862-538‑94

Páginas: 320 p.

Dimensões: 26 x 16 x 2 cm

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