Análise de discurso: bases teóricas e metodológicas

Por Gustavo Gonçalves

Que cargas sociais e históricas a nossa comunicação carrega? Frequentemente utilizada no meio acadêmico, a análise de discurso é um campo linguístico interdisciplinar, usado para examinar as ideologias que dão molde à maneira pela qual nos comunicamos em várias instâncias. A análise do discurso é o entremeio na relação entre língua, história e sujeito, considerando o discurso não como uma produção individual, e sim como algo que atravessa o enunciador. Portanto, o discurso é um fenômeno mais bem compreendido por meio do entendimento de suas características históricas de produção e de seu veículo de transmissão.

Entretanto, mesmo que a análise do discurso seja bastante utilizada, suas teorias e metodologias devem ser abordadas por estudos aprofundados, para encontrar a melhor maneira de criar possibilidades de reflexões que levem em conta as especificidades de lugar do material a ser analisado e os desdobramentos que a teoria pode ter dentro do contexto de análise. A obra Materialidades discursivas, escrita originalmente em 1980, foi um marco acadêmico por dissertar sobre as bases teóricas da análise do discurso como resultado de uma combinação heterogênea entre história, linguística e psicanálise. Partindo da linha pecheuxiana, o livro explora as fronteiras discursivas entre essas áreas distintas, eliminando a ideia de um dispositivo que comporte todas as respostas.

Produzida no colóquio “Materialidades discursivas”, a obra foi organizada por cinco pesquisadores franceses: Michel Pêcheux, precursor e grande nome dentro do coletivo intelectual fundador da linha conhecida como análise de discurso na segunda metade do século XX, teorizando principalmente sobre a materialidade do discurso; Bernard Conein, professor emérito na Université de Nice-Sophia Antipolis e especialista em etnometodologia e cognição social; Jean-Jacques Courtine, linguista de formação e professor de antropologia histórica e cultural na Université de la Sorbonne/Paris III; Françoise Gadet, linguista e professora de sociolinguística no Departamento de Ciências da Linguagem da Université de Paris X/Nanterre; Jean-Marie Marandin, linguista e pesquisador do Centre national de la recherche scientifique, atuando no Laboratório de Linguística Formal da Université de Paris VII.

A teoria da análise de discurso proposta por Pêcheux é diferente da de Foucault em alguns aspectos, sendo mais materialista e distante do humanismo, do positivismo e da metafísica. Para ele, a formação discursiva, repleta de particularidades, molda um sujeito. O filósofo junta a análise discursiva com a formação ideologia ao olhar o objeto, precisando usar a ideologia para explicar esses sujeitos particulares. Além disso, o conhecimento dos materialismos dialético e histórico é, na sua visão, fundamental. O materialismo dialético é uma doutrina marxista que apresenta o mundo como um processo em que as coisas e seus conceitos estão em constante conflito e mudança. Já o materialismo histórico trata do modo de produção da vida material e da maneira como ela retém outros processos, como vida social, política etc. O materialismo dialético engloba o materialismo histórico, considerando todo o universo, formado de matéria e movimento. A noção de processo e a de movimento são básicas no estabelecimento da teoria e da análise de discurso que Pêcheux propõe.

A obra é dividida em cinco partes. O primeiro capítulo, “Aonde vai a análise de discurso?”, por meio de dois exemplos de trabalhos com corpus, discute as possibilidades e os limites da teoria da análise de discurso, esclarecendo de que modo o pesquisador acaba lidando com aspectos presentes no campo que podem frustrá-lo, como a noção de pré-construído, repetição, a ausência de poder de decisão e o conservadorismo acadêmico. 

No decorrer do livro, os autores exploram as teorias do discurso nas áreas já citadas (história, língua e psicanálise), apresentando suas peculiaridades, deslocando suas fronteiras e afetando suas verdades, como uma mistura de práticas acadêmicas. Porém, o livro deixa claro que não se deve homogeneizá-las apenas por todas pertencerem a discursos, já que não são a mesma coisa. As questões teóricas das materialidades discursivas surgem das diferenças entre essas áreas. Segundo Pêcheux:

Nessa retomada e nessa profusão, redes polarizadas de repetição desconstroem a identidade, rupturas tomam a aparência de gêneses continuadas, pontos de antagonismo se incendeiam e se apaziguam para serem retomados em outro lugar.

Materialidades discursivas molda as bases da análise de discurso, apresentando sua essencialidade e os caminhos a que sua prática pode levar. Unindo um dos maiores nomes da teoria discursiva a grandes especialistas franceses de diferentes áreas, a obra conta com diversas falas apresentadas no colóquio, inserindo o leitor nesse debate. Seu conteúdo é indispensável para linguistas, historiadores, comunicadores e psicanalistas interessados pelo campo semiótico ou pesquisadores que queiram se aprofundar na análise de discurso.

Materialidades discursivas

Organizadores: Michel Pêcheux, Bernard Conein, Jean-Jacques Courtine, Françoise Gadet e Jean-Marie Marandin

ISBN: 978-85-268-1353-3

Edição: 1a

Ano: 2016

Páginas: 336

Dimensões: 21 x 14 x 2 cm.

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