Mário de Andrade acessível a surdos e a deficientes visuais

Por Sophie Galeotti

Mário de Andrade foi um grande escritor brasileiro, além de pianista, crítico, cronista, folclorista, musicólogo e professor. Precursor do modernismo no Brasil, participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Seu estilo literário inovador é importante tanto para os estudos da área quanto para a formação de leitores em geral. A Editora da Unicamp já contribuiu para a internacionalização de Mário de Andrade e, agora, com a nova edição multimídia e bilíngue português-Libras de Contos, proporciona que o livro se torne acessível em todas as acepções da palavra: pela inclusão, pela tecnologia e pelo preço. O leitor pode lê-lo na maneira tradicional, por meio das palavras impressas nas páginas, ouvir as histórias ou vê-las em Libras.

A coordenação da equipe de tradução foi de Ivani Rodrigues, doutora em linguística aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e docente no curso de fonoaudiologia na mesma instituição, e Kate Kumada, doutora em educação especial pela Universidade de São Paulo (USP) e professora adjunta no Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC (CCNH-UFABC). A tradução foi feita por Eric Honorato Nunes, que é surdo, e Leilane de Morgado Bispo, ambos mestrandos na Unicamp. Orna Levin, doutora em teoria literária e livre-docente de literatura brasileira no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade, escreveu a introdução do livro.

Ao escanear a capa da obra, por meio do aplicativo Livros Interativos da Editora da Unicamp, é possível ver tanto a introdução de Levin, “Lições e assombrações”, quanto os contos “O ladrão”, “Peru de Natal”, “Frederico Paciência”, “Tempo de camisolinha” e “Será o Benedito!” em Libras. Por esse aplicativo também é possível ouvir a narração do livro, acessar um glossário com palavras traduzidas em Libras e divertir-se com um jogo interativo de pega-ladrão. A versão voltada a pessoas com deficiência visual pode ser comprada em ePub 3 pelo site da Editora da Unicamp.

A introdução de Orna Levin contextualiza histórica e estilisticamente os contos. Eles são ambientados em São Paulo – cidade que ainda estava em desenvolvimento, como vemos claramente nas ruas de “O ladrão” – na época das repercussões do crash da Bolsa de Valores em 1929 e da desestabilização de uma economia baseada na monocultura cafeeira. Andrade usa essas crises como pano de fundo para expressar a fragilidade emocional das personagens. Em sua narrativa, ele dá preferência a palavras brasileiras em vez de lusitanas, algumas de origens indígenas, outras, termos regionais – “Será o Benedito!” traz um dito popular no próprio título. 

Ivani Rodrigues conversou, em 2020, com o Observatório de Direitos Humanos (DeDH) da Unicamp sobre educação dos surdos no ensino superior. Ela destacou que, em 2002, Libras foi reconhecida legislativamente como uma língua oficial no Brasil,  marco importantíssimo para as pessoas surdas, uma vez que, nas palavras dela, “quando você valoriza a língua para o sujeito, você valoriza o sujeito”; afinal, Libras é responsável por conferir um senso de identidade aos que a utilizam, pois é fundamental para que o surdo se integre como sujeito no e do mundo, como consta no livro Cidadania, surdez e linguagem: desafios e realidades, do qual Rodrigues é uma das organizadoras. 

Ainda nessa conversa, Ivani Rodrigues contou que o reconhecimento de Libras criou uma demanda por sua gramatização, isto é, por uma integração de palavras e conceitos complexos do português com a Língua Brasileira de Sinais. Esse processo passa pela tradução e pela criação de glossários, para que, então, as referências de palavras em português existam em Libras – a criação, por sua vez, ocorre à medida que haja demanda. Ou seja, quanto mais Libras é integrada ao ensino, mais ela interage com o mundo e enriquece seu repertório. A língua é, afinal, um organismo vivo formado por indivíduos: quando estes se movimentam e entram em contato com o novo, aquela também se move, cresce e muda. Assim sendo, podemos concluir que a integração da literatura brasileira à Libras certamente amplifica o acesso à primeira, podendo enriquecer o repertório da segunda, e faz com que mais cidadãos assimilem obras culturais de seu país na língua materna formativa de suas identidades. 

O lançamento ainda conta com um glossário de 59 palavras, tanto em português quanto traduzidas em Libras, incorporando o idioma a esta última. Atualmente, a integração entre as línguas oral e escrita e gestual-visual pode ser facilitada pela tecnologia, pois meios como o smartphone podem intermediar o acesso a esta última, como acontece através do aplicativo no livro Contos.

Ademais, as narrativas de Andrade são valiosas; por exemplo, a rememoração não linear que a personagem Juca faz de sua infância e de sua mocidade em “Peru de Natal”, “Frederico Paciência”, “Tempo de camisolinha” e “Será o Benedito!” toca em temas sensíveis a qualquer indivíduo, como perdas – de si, com o fim da infância, de amigos, pela morte ou pelo distanciamento, e de familiares, pelo findar da vida – e a busca pela própria identidade. “Por isso, a sondagem psicológica das personagens dá a essas narrativas de sabor tão brasileiro um caráter deliciosamente universal”, nas palavras de Orna Levin.

O livro Contos, de Mário de Andrade, disponibiliza aos deficientes visuais, aos surdos e a todos os demais um amplo universo literário, que converge o contexto histórico de uma época, as complexas relações e emoções humanas e uma grande renovação de estilo narrativo em histórias que foram consagradas como clássicos da literatura brasileira. Agora, elas estão acessíveis a ainda mais pessoas.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

Contos

Autor: Mário de Andrade

Organização: Orna Levin

ISBN: 978-65-86253-78-8

Edição: 1ª

Ano: 2021

Páginas: 152

Dimensões: 10,5 x 18 cm

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