Michelangelo: uma vida dedicada à arte

Por Gustavo Gonçalves

Michelangelo Buonarroti é um dos principais nomes que nos vêm à mente quando pensamos em um artista. Gênio do Renascimento, sua arte não é só um marco de sua era, como também uma referência necessária para conhecê-la. Suas obras remetem a um passado que se distanciou e não se comunicava mais com a Itália do século XVI – marcada por crises político-militares e religiosas. Porém, ao mesmo tempo, a estética de Michelangelo foi visionária, à frente da imaginação geral de seus tempos. Por isso, mesmo considerado um talento, comentários negativos sobre seu trabalho estiveram presentes durante parte de sua carreira. 

Todos esses aspectos fazem de Michelangelo e de suas obras elementos essenciais para o conhecimento da natureza íntima presente na cultura moderna. O livro A vida de Michelangelo Buonarroti, de Giorgio Vasari – cuja primeira versão foi escrita em 1550 e a final, em 1568 –, é o principal documento histórico sobre o gênio italiano. Realizada quando o artista ainda era vivo, a biografia apresenta elementos íntimos e profundos sobre Michelangelo, recolhidos em primeira mão.

O escritor, pintor e arquiteto Giorgio Vasari foi amigo fiel do artista, conhecendo-o quando ingressou como aluno em seu ateliê. Em diversos momentos do livro, ele posiciona Michelangelo fora daquela época, consciente de que o amigo estava à frente de toda recepção à arte daquele período. Grande biógrafo, é enaltecido por suas qualidades e pelo seu talento de interlocução direta com o leitor. 

A tradução foi feita por Luiz Marques, professor livre-docente do Departamento de História, da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp). Reconhecido como um grande especialista na arte italiana dos séculos XV e XVI, ele é ex-curador chefe do Museu de Arte de São Paulo, sendo o responsável por organizar grandes exposições que destacaram a arte italiana.

Este livro é a primeira tradução do clássico para o português. Divide-se em três partes. Na primeira, anterior à biografia, Marques apresenta as origens e a trajetória de Vasari. Sua relação com Michelangelo, assim como sua carreira, é explorada para que possamos entender e conhecer mais sobre o contexto e o percurso que levaram Giorgio Vasari a produzir biografias de artistas da época. Ao escrever a vida de seu companheiro, Vasari evidencia ser um homem dotado de grande empatia em relação a seus semelhantes. Conforma Luiz Marques, “Vasari foi capaz de escrever nesta biografia de Michelangelo a vida de uma ideia de arte como se escrevesse a vida de uma paixão”.

Vasari descreve o nascimento de Michelangelo como uma privilegiada conjunção astrológica – crença comum no século XVI – que favorecia trabalhos manuais na arte. Quando criança, ao mostrar interesse pelo desenho, o artista italiano foi repreendido por seu pai e por seus mestres escritores, que chegaram a puni-lo fisicamente por considerarem essa prática indigna. 

Só aos 14 anos sua família permitiu que ele desenvolvesse seu talento, guiado, principalmente, por um grande nome da arte: Domenico del Ghirlandaio. Mais tarde, Lorenzo de’ Medici o escolheu para ser seu patronato. Desde o início, Michelangelo já assombrava seu tutor ao se destacar dos demais alunos, chegando a rivalizar com artistas consagrados. 

O jovem não só copiava as obras de seus mestres de maneira indistinguível, como adicionava suas próprias características, muitas vezes melhorando as obras originais. Esse dom causou inveja até mesmo em amigos próximos. 

O orgulho de Michelangelo sobressaía-se. Um capítulo que ilustra isso é “O Cupido Galli, o Baco e a Pietà”. Após lhe ser oferecida a chance de eternizar seu legado na cidade de Roma, por meio de uma escultura da “Pietá” – a cena de Jesus morto nos braços de sua mãe –, Michelangelo avista forasteiros creditando seu trabalho a outro artista. Naquela mesma noite, ele se trancou dentro da capela apenas para entalhar seu nome na estátua. Ainda hoje, sua Pietà é considerada a melhor representação dessa cena bíblica.

A biografia segue os passos de Michelangelo em suas viagens ao redor da Itália e descreve minuciosamente todas as suas obras. Encantando todos por onde passava, frequentemente conseguia abrigo sob os tetos daqueles fascinados por seu trabalho. O artista morou com vários desses admiradores de sua arte durante a juventude, sempre aceitando de bom grado as novas oportunidades de aprendizado e de pedidos de produção de obras. 

Vasari não poupa elogios ao descrever os trabalhos do amigo. Por exemplo, ao falar da estátua Davi, erguida em Florença, deixa claro que aquela é a melhor escultura já feita: “Quando enfim a escultura foi fixada e terminada, Michelangelo descobriu‑a e verdadeiramente essa obra suplantou todas as estátuas modernas e antigas, gregas ou latinas”. Mais à frente, Vasari também escreve com paixão sobre todo o esforço que o artista italiano empenhou para pintar a abóbada da Capela Sistina. Vasari versa sobre o significado de cada traço, sobre o orgulho de Michelangelo em não dividir o trabalho com ninguém, e sobre o que pôde descobrir se passar na cabeça do artista durante o projeto. No final desse capítulo, o escritor não esconde sua admiração profunda e quase divinização pelo amigo:

Ó, idade nossa verdadeiramente feliz! Ó, artistas beatos, que assim mesmo vós deveis chamar, pois pudestes em vosso tempo em fonte de tanta clareza dissipar as tenebrosas luzes dos olhos e ver tudo o que era difícil aplainado por tão maravilhoso e singular artista! Certamente a glória de suas obras, ele vos faz conhecer e honrar desde que vos tolheu a venda que tínheis nos olhos da mente, tão plena de trevas, e vos distinguiu o verdadeiro do falso que vos obscurecia o intelecto. Agradecei por isso ao Céu e esforçai-vos por imitar Michelangelo em todas as coisas.

Na terceira parte, a edição em português conta com um capítulo intitulado “Comentário”, feito por Luiz Marques. Com o objetivo de orientar a compreensão do texto e de reconstruir sistematicamente a vida e a obra de Michelangelo, Marques incorpora ao livro informações presentes em bibliografias produzidas ao longo dos séculos seguintes, majoritariamente após 1960. Essas informações referem-se aos acontecimentos históricos e aos personagens presentes na biografia de Vasari. Além disso, “Comentário” apresenta a documentação visual das produções artísticas de Michelangelo e de outros artistas italianos. Essas documentações podem ser encontradas nos sites Mare e Vasari.

Considerado como um dos trabalhos mais completos sobre o gênio renascentista, esta edição de A vida de Michelangelo Buonarroti é não somente uma primorosa tradução, como também uma obra que explica e contextualiza toda uma era artística da sociedade ocidental e suas influências na modernidade. O livro é indispensável aos amantes da arte e da história italiana.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

A vida de Michelangelo Buonarroti

Autor: Giorgio Vasari

Tradução, introdução e comentário: Luiz Marques

ISBN: 978-85-268-0941-3

Edição: 1

Ano: 2011

Páginas: 808

Formato: 27,00 x 18,00 x 4,50 cm.m

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