Jornal GGN artigo sobre o livro “Capitalismo e colapso ambiental”

No Brasil dos dias de hoje, vivemos aos sobressaltos, dormimos de olhos abertos, sempre conscientes da corda que nos enlaça o pescoço. Em vão, tentamos nos esgueirar das tropelias insanas das “boiadas que passam” para todo canto e lugar, cada vez mais amiúde e com intensidades ainda mais mortíferas. Existimos, assim, já na espreita de que o pior aconteça com nossas matas, nossos pântanos, nossos mangues, restingas, ares, mares, rios e, também, com nossas almas e nossos corpos.

Já não conseguimos mais cantar o verde louro de nossa flâmula e, tampouco, nosso céu risonho e límpido, posto que tudo agora surge pleno de fumaça, negrume, fogo de queimada e onça-pintada agonizante. E agora mais ainda, já que por recente decisão do Conama, os fornos de produção de cimento poderão queimar os “resíduos de poluentes orgânicos persistentes” (leia-se: agrotóxicos e lixos tóxicos), sabe-se lá Deus a que custo mortífero na contaminação da atmosfera que todos respiramos. Nossos lindos campos já agora não nos prometem mais flores e somos obrigados a conviver com os delírios da loucura grandiloquente daqueles que deliberada, maquiavélica e cruelmente adoram a nossa própria morte.

Desgraçadamente, o cenário dantesco ora esboçado não se resume a uma sequência de infelizes catástrofes ambientais malcuidadas, negligenciadas (quem sabe, até, desejadas), nem tampouco a desvarios passageiros dos mandões de plantão. Pior que não! Precisamos ter a coragem de enfrentar o demônio de frente, de pegar o touro a unha ou a boiada pelo rabo (seja lá o que for!). Temos que morder o rabo do diabo e dar nome aos bois: estamos, sem dúvida, vivendo os estertores de um capitalismo movido por sua própria, insone e insaciável ganância, que tudo abocanha, tudo engole, tudo destrói, dejetando à sua volta e à sua passagem, todo lixo, toda defecação e toda poluição. Essa triste e desalentadora imagem não é de minha lavra e, tampouco, trata de desvarios momentâneos de esquerdopatas, lulopetistas ou de outras raças de gente, cuja missão, na visão negacionista da hora, é tão somente não deixar o homem governar. Na verdade, ela reflete o acúmulo de vaticínios, visões antecipatórias e análises criteriosas feitas por muitíssimos cientistas, pesquisadores, filósofos e pensadores ao longo de muito, muito, mas muito tempo mesmo! Trata-se da denúncia dirigida à essência constituinte, intrínseca, dorsal, funcional do capitalismo, em sua lógica de acumulação e miséria, de destruição da natureza, gentes e almas, em processos tanto de glutonarias sem peias, quanto da sua incontornável consumição.

Poderíamos aqui alinhavar uma infindável miríade de autores que já se dedicaram à denúncia desse quadro em irrefreável avanço para a destruição do mundo (ao menos do mundo tal qual o conhecemos). Fosse esse o propósito, talvez devêssemos começar por Adorno e Horkheimer[2], que já lá nos longínquos meados dos anos 40, nos alertaram sobre as racionalidades e as astúcias do capitalismo imperioso na subjugação da natureza e do Outro à sua insaciável devoração. Aprendemos, desde então (e até já de antes), que nada pode escapar de sua incontornável destruição, incluindo até ele mesmo, na danação da cobra que se come pelo próprio rabo. Nesse ponto, capitalismo e colapso ambiental se tornam expressão de um mesmo e único fenômeno, duas faces de uma mesma moeda. E é exatamente disso que trata o livro Capitalismo e colapso ambiental, de autoria do historiador Luiz Marques, publicado pela Editora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), já em sua terceira edição, revista e ampliada.

As edições anteriores do livro, feitas respectivamente em 2015 e 2016, receberam atualizações e acréscimos valiosos, que resultaram em uma das mais abrangentes e vigorosas compilações de fontes, de análises e de dados sobre a crise ambiental mundial disponíveis na atualidade.

Mas esse não é o único, nem tampouco o principal, elemento do “tour de force” de Marques. Em realidade, grande virtude do trabalho do autor está em demonstrar cabalmente as falácias de uma pretensa sustentabilidade para o capitalismo triunfante em cenários de consumo irrestrito de recursos naturais, de irrefreável concentração do poder de megacorporações e embasado em infundados projetos de crescimento infinito dos lucros e da irreprimível acumulação.

Destacamos que os múltiplos méritos de Capitalismo e colapso ambiental já foram reconhecidos com a conquista do primeiro lugar do prêmio Jabuti, na categoria “Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática”, em 2016, e, naquele mesmo ano, do 2º lugar do prêmio da Associação Brasileira de Editores Universitários, na categoria “Ciências Humanas”.

Estruturalmente, ao longo de suas 735 páginas, o livro é dividido em duas partes e em 14 capítulos, além obviamente de sua muito bem costurada conclusão. A primeira parte aborda a convergência das crises ambientais, alinhavando um extensíssimo conjunto de evidências que apontam para as interconexões irrefutáveis entre degradação de florestas, água e solos e crises de insegurança alimentar. Segue em frente arrematando, ainda, os tecidos e os fios que enredam os múltiplos colapsos da biodiversidade, do clima e dos mais diferentes ecossistemas. Nesse percurso, o autor deixa muito bem claro que a soma das pequenas catástrofes produz uma desgraça muito maior que o simples conjunto dos seus tristíssimos componentes. Nos prepara, enfim, para a expectativa de um colapso global iminente.

A segunda parte do livro é criticamente dedicada à desmistificação das ilusões de que o capitalismo possa assumir, de fato, formas sustentáveis de perpetuação, demonstrando a falácia da compatibilidade cíclica e virtuosa entre as questões da proteção ambiental e da produção incessante de lucros crescentes e de acumulação ilimitada de capitais. Avança, ainda, contra a desmesurada arrogância de um antropocentrismo tecnocientífico anacrônico e obscurantista, que já nos conduziu a um Antropoceno deletério, consumista, poluidor e, para bem se apropriar da expressão pop, exterminador de qualquer futuro.

Conhecer, ler, reler ou pensar com Luiz Marques, nesse momento, pode ser extremamente útil em mais de um sentido e para múltiplos propósitos. Primeiramente, por que nos ajudará a ver com maior clareza que o invasivo e ostensivo desmonte da rede de proteção ambiental no Brasil, que ora estarrecidos assistimos, não se constitui apenas em um conjunto de maldosas retaliações e mesquinhas vinganças contra as conquistas de governos passados, ainda que não se possa negar seus vazamentos nas expressões do escárnio nervoso que somos obrigados a ver na presença midiáticas dos (des)mandões ambientais em exercício. Para muito além disso, representa uma violenta retomada de ciclos de exploração capitalista contra a natureza, que vinham sendo mitigados, inibidos ou controlados pelas forças sociais mais conscientes e democraticamente mobilizadas em prol do futuro do mundo.

De fato, não são poucos os avanços consolidados pelos governos democráticos das últimas décadas na promoção, defesa e proteção permanente dos ecossistemas brasileiros e das áreas críticas à sobrevivência e à qualidade da vida. Destruí-los, agora, são tentativas insanas e desesperadas de “recuperar o tempo perdido” pelos agronegócios, pelas especulações imobiliárias, pelos extrativismos cegos em suas investidas predatórias e egoísticas sobre o bem comum, que pertence, de fato, tanto às gerações atuais e às futuras da espécie humana, quanto das de todos os demais seres vivos.

Um segundo ponto a ser destacado como contribuição inestimável de Capitalismo e colapso ambiental é que, nele, o autor não nos deixa sucumbir na descrença e na desesperança frente ao futuro planetário possível. Pelo contrário, nos sinaliza com as possibilidades de redenção e de cura. Diferentemente de outros pensadores e lideranças militantes em muitas frentes sociopolíticas, filosóficas ou religiosas, contudo, Marques não aponta qualquer solução pronta. Ele nos deixa o caminho por construir, transferindo-nos a responsabilidade pelo nosso próprio amanhã.

Nesse sentido, seu livro nos leva muito mais longe do que o faria uma ciência catastrófica e assombrada, ainda que muito bem embasada em irrefutáveis evidências. Ele nos permite sonhar (e também militar) na fronteira imaginativa de uma nova sociedade e de uma renovada tecnociência capazes de orientar a existência de um mundo regenerado, harmônico, equânime e inclusivo.

Assim, inspirado em Michel Serres, entre outros pensadores, Marques consegue nos propor um novo contrato social, capaz de superar o capitalismo em suas mais duras e cruas mazelas, na direção de um verdadeiro “contrato natural”, generoso, dadivoso e democrático.

Como já sabemos muito bem, a contemporaneidade nos exige pensar globalmente e a agir localmente. Então, enquanto nos preparamos e nos modificamos internamente para produzir o mundo pós-capitalista de amanhã, corramos para nossas janelas e nos irmanemos nos mais fortes panelaços contra o desmonte e o desvario ambiental do (des)governo que infelizmente nos coube aturar!

Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. (Original publicado em 1947).

SERRES, Michel. O contrato natural. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.

Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

SOBRE O LIVRO

Capitalismo e colapso ambiental

Autor: Luiz Marques

ISBN: 9788526814684

Ano da Publicação: 2019

Edição: 3

Formato: 23,00 x 16,00 x 4,00 cm.

Nº Páginas: 736 pp

Peso: 1.110 g.

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