A academia analisa o futebol

Por Everaldo Rodrigues

Não há dúvidas de que o futebol é uma paixão nacional há muito tempo, mesmo que as últimas quatro Copas do Mundo não tragam boas lembranças para o torcedor brasileiro. Criado na Inglaterra no final do século XIX, o esporte mais popular do planeta carrega significados que vão além do que acontece em uma partida. Desde os sonhos de crianças que desejam a glória das chuteiras, a emoção que desperta em milhões de torcedores e a quantidade imensa de dinheiro que movimenta anualmente, o futebol permite diversos estudos e reflexões dignos de debates acadêmicos. E é justamente o que nos traz O futebol nas ciências humanas no Brasil, livro lançado pela Editora da Unicamp e organizado por Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt.

A obra lança múltiplos olhares especializados sobre esse esporte, com o intuito de expor os assuntos que emergem dele e apresentar os enfoques que constituem o campo de pesquisa sobre o futebol. Essa multidisciplinaridade é expressa pela quantidade de pesquisadores e pesquisadoras reunidos e pelas áreas de conhecimento presentes na obra: história, sociologia, antropologia, política, geografia, economia, administração, comunicação, literatura e educação física.

O livro é resultado da consolidação de linhas de pesquisa relacionadas com futebol no interior das ciências humanas, em desenvolvimento há décadas. Assim, a obra reúne três gerações de pesquisadores: aqueles que iniciaram seus estudos nos anos 1970, pioneiros que tomaram para si a missão de inserir o futebol entre os temas estudados pela academia; a segunda geração, com os que realizaram suas pesquisas de pós-graduação a partir dos anos 1990; e a geração recente, surgida nos anos 2000, que teve como grande aliada a internet e que, graças a ela, fez com que os estudos dessem um grande salto. Todos os pesquisadores atuam, ou atuaram, em 26 centros de pesquisa espalhados pelo Brasil. Os mais de 40 textos reunidos dão uma boa ideia do tamanho da abrangência dessa coletânea.

O livro é dividido em oito partes, sendo cinco delas dedicadas às ditas áreas “clássicas”, ou seja, as que se concentram em linhas de pesquisa mais conhecidas: política, história, literatura, sociologia, antropologia e comunicação. A sexta parte destaca estudos de áreas cujo interesse pelo futebol vem crescendo consideravelmente, como geografia, economia e pedagogia. A sétima parte contempla questões de gênero, das torcidas e do racismo. E o livro termina com um capítulo focado no debate sobre o VAR, ou árbitro de vídeo, e sua introdução nas partidas realizadas no Brasil. 

Vale dizer que os textos expõem abordagens muito variadas, ora com visões amplas sobre o debate geral, ora focadas em aspectos particulares, possibilitando uma leitura não linear de suas 800 páginas, ricas em temas, estratégias argumentativas, abordagens e estilos. A obra também traz dezenas de fotografias, reproduções de jornais e revistas, charges e gráficos que complementam a experiência de leitura.

Um exemplo dos estudos clássicos presentes no livro é a abordagem política do futebol. O esporte inseriu-se nos estudos políticos graças à recente percepção de que a política é prática social e não apenas um exercício do poder estatal, visão que colocaria tudo o que está fora dessa esfera como algo apolítico. Sendo uma atividade de origem burguesa, que nasceu como uma “ação política de classe, de ocupação de seu tempo livre”, o futebol era reservado inicialmente apenas às camadas mais abastadas da sociedade. Ao se desenvolver e sair de sua fase puramente recreativa, passando por um processo de profissionalização e propagando-se pelo mundo, tornou-se incrivelmente popular entre as camadas mais pobres, envolveu-se com a mídia e sofreu influência do Estado. Essa forma de encarar o futebol pode ser encontrada em diversos textos do livro, que abordam, por exemplo, a influência política do futebol no Brasil no início do século XX, seu papel durante a ditadura civil-militar e sua relação com questões democráticas contemporâneas internacionais, como no debate separatista espanhol/catalão, que ganha novos contornos quando times tradicionais dessas regiões se enfrentam.

O livro traz também debates sobre temas recentes, como a questão de gênero no futebol. A presença das mulheres no esporte, não só em campo mas também nas profissões relacionadas ao jogo, tal qual a arbitragem ou o comentário esportivo, foi tabu por muitos anos e é abordada em três textos do livro. Um deles discute o fato de a popularidade midiática estar quase sempre reservada aos jogadores homens, marginalizando o futebol praticado por pessoas de outros gêneros. 

Outro assunto abordado no livro é o racismo, infelizmente presente ao longo de toda a história do esporte. O trabalho busca investigar como esse “racismo à brasileira” e suas contradições se manifestam no futebol. Por sua característica integradora, o futebol pareceria capaz de conectar a todos, independentemente de cor e raça, mas nele também se mantêm resquícios de preconceitos, que se manifestam de forma evidente nos momentos de conflito do esporte. O futebol nas ciências humanas no Brasil não oferece uma história encadeada, com intenção de ser uma tese, muito menos traz uma simples coletânea de artigos. É uma iniciativa ambiciosa, pensada para ser uma espécie de handbook, abrangendo diversas linhas de pesquisa aplicada. O livro corrobora o grande intercâmbio acadêmico que se construiu ao longo dos anos e a importância desses estudos para a compreensão de fenômenos culturais interconectados, que se inserem em uma sociedade em movimento e ajudam a compreendê-la. Todos os textos servem como um mapeamento dos vários temas que envolvem o futebol no Brasil e, sem esgotá-los, ajudam a enxergar esse esporte não apenas como um campo onde dois times se enfrentam em busca do gol, mas também como uma arena em que ecoam diferentes fenômenos da sociedade.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

O futebol nas ciências humanas no Brasil

Organizador: Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt Proni

ISBN: 978-65-86253-00-9

Edição: 1ª

Ano: 2020

Páginas: 800

Dimensões: 18×27

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