A revolução doutrinária do cristianismo: do pacifismo à guerra santa

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Por Luisa Ghidotti

A Idade Média é, com frequência, retratada pelos mitos em torno do tema das cruzadas. No entanto, historiadores como o francês Jean Flori investigam os fatos desse conflitante período. O pesquisador é referência mundial na área de historiografia medieval e tem extenso material publicado em que explora as relações entre a Europa e o Oriente Médio. 

Em Guerra santa: Formação da ideia de cruzada no Ocidente cristão, livro publicado em 2013 pela Editora da Unicamp, Flori analisa numerosos documentos produzidos num período de cerca de 600 anos para entender a relação entre a Igreja e os conflitos bélicos na Europa medieval. Com isso em vista, o autor desenvolve a ideia de uma revolução doutrinária no cristianismo, consolidada a partir do século XI, com o empreendimento das Cruzadas.

O desfecho desta obra é a formação de um conceito de cruzada, como afirma Néri de Barros Almeida no “Prefácio à edição brasileira”:

“A pergunta da qual parte o estudo de Jean Flori é: como a comunidade cristã, em sua origem pacifista, desenvolveu um pensamento e uma prática em relação à violência bélica que lhe permitiram aderir de forma justificada e legítima a diversas empresas guerreiras a ponto de a Igreja vir a tornar-se a deflagradora direta de um conflito com a extensão e a repercussão das cruzadas?” 

O autor analisa e compara documentos oficiais e não oficiais da Igreja, revisando a literatura historiográfica de pesquisadores que o antecederam na investigação do assunto. Constrói, assim, uma narrativa que visa responder à pergunta teórica: “Haverá algum elo direto entre as noções de guerra santa e de cruzada?”.

Esse questionamento leva Flori a relacionar o processo de formação das cruzadas com a concepção de guerra santa, definida como “um empreendimento guerreiro desejado por Deus”. Isso é desenvolvido ao longo da história com a reconfiguração de diferentes aspectos do cristianismo pela instituição da Igreja. Um deles diz respeito às peregrinações, práticas comuns entre os cristãos ocidentais que caminhavam até o túmulo de Jesus com a “garantia da indulgência de seus pecados confessados”. Quando o papa Urbano II pronunciou sobre o paganismo da população no entorno do Sepulcro de Cristo, a peregrinação passa a ser ressignificada, tomando a forma de um conflito armado pela defesa desse local sagrado. Os guerreiros eram motivados, acima de tudo, pela recompensa espiritual que receberiam ao combater os inimigos da fé cristã. 

Em seu discurso, o papa afirma ainda que “os cristãos do Oriente pediam socorro a seus irmãos” ocidentais, uma vez que a Terra Santa estava nas mãos dos turcos, um povo pagão que atacava os cristãos e profanava os lugares sagrados de Jerusalém. Assim, a guerra sacralizada era também sustentada por uma ideia de unidade do cristianismo, em que os fiéis ocidentais e orientais tinham o dever de defender os símbolos de sua religião em Israel. 

Flori considera a fala do papa Urbano II como o marco da reconfiguração da ideologia da Igreja na Europa medieval. A argumentação desse exímio orador foi outro fator preponderante para a efetivação da revolução doutrinária do cristianismo. 

“Tal formulação de mensagem era extremamente hábil, pois recorria aos dois fundamentos principais da moral medieval expressos por uma única palavra latina: fides, , no sentido atual do termo — porém com uma tônica mais marcada que hoje na crença que une numa mesma comunidade todos aqueles que a compartilhem, distinguindo-os dos outros povos —, mas também de fidelidade, obediência vassálica, a reger as relações entre os homens, especialmente no mundo dos guerreiros, assistência militar em caso de necessidade, solidariedade entre o príncipe e sua gente.”

O afastamento da Igreja dos princípios pacifistas e seu alinhamento com a violência foi um processo de naturalização da ideia de guerra santa. Assim, a peregrinação foi ressignificada com base em argumentos políticos, morais e administrativos. Para tudo isso, a revolução doutrinária teve de ser alicerçada, inclusive, na reinterpretação da bíblia.

 Jean Flori cria uma narrativa do ideário cristão que remonta ao período entre os séculos IV e XI, reconstruindo os antecedentes históricos que levaram o cristianismo Ocidental a empreender as cruzadas. O recorte temporal escolhido tem como ponto de partida as primeiras alianças entre a Igreja e o poder político de que se tem registro, “quando Carlos Magno e seus sucessores tentam ressuscitar a antiga ficção de um império romano confundido com a cristandade”. Posteriormente, a relação entre as instituições religiosa e laica se adensa ainda mais, uma vez que o império volta sua força armada para a proteção dos bens da Igreja. No século X, a defesa da Igreja de Roma, patrimônio de São Pedro, por guerreiros do imperador, é um exemplo de “uma nova sacralização da guerra travada a favor do papado”. O ponto limite da pesquisa está em 1095, ano em que o papa Urbano II convoca os cristãos do Ocidente à guerra, justificando os combates armados com base em motivações religiosas. Inaugura-se, assim, “a era das cruzadas”.

Essa extensa obra propõe entender as Cruzadas como guerra santa, pois significa um conflito sustentado pelo papado e que aproxima os interesses religiosos dos interesses políticos, de maneira que Igreja e Estado se unem em torno desse empreendimento bélico. O ponto de vista construído por Flori permite que ampliemos nossas percepções sobre a Idade Média. Com essa tradução, o historiador brasileiro tem acesso à atualização das discussões sobre o assunto desenvolvidas na Europa e a uma importante fonte de informações sobre um momento histórico que ainda é considerado controverso.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site!

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Título: Guerra santa – Formação da ideia de cruzada no Ocidente cristão

Autor: Jean Flori

Tradutor: Ivone Benedetti

ISBN: 978-85-268-1022-8

Edição:

Ano: 2013

Páginas: 416

Dimensões: 16×23

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