As narrativas de vida e a construção do currículo escolar

Por Everaldo Rodrigues

Você já parou para pensar em que fatores, ao longo da história, foram determinantes para a construção do currículo escolar? E como ele pode definir as narrativas de vidas das pessoas? Essas são questões presentes no livro Currículo, narrativa pessoal e futuro social.

A obra é uma reunião de dez artigos escritos pelo educador e teórico inglês Ivor Frederick Goodson, que debate e expõe as influências sociais e políticas na construção do currículo e sua relação com as narrativas biográficas. Professor na Universidade de Brighton e reconhecido na área educacional, Goodson escreveu e organizou mais de uma dezena de livros, alguns dos quais publicados no Brasil. Suas teorias são fundamentais para a compreensão das dinâmicas escolares como componente curricular, graças à atenção que dá aos campos sócio-históricos envolvidos. Grande parte da pesquisa do autor é conduzida pela ideia de que é necessário entender o pessoal e o biográfico se quisermos compreender o social e o político. Em Currículo, narrativa pessoal e futuro social, ele analisa as profundas mudanças socioeconômicas ocorridas a partir dos anos 2000, o embate entre políticas governamentais individuais e coletivas, como também a potência da narrativa pessoal, para compreender e explicar suas influências na construção do currículo escolar.

Na introdução do livro, o autor destaca que, em períodos em que o capital apresenta forte influência sobre as políticas públicas, a escolarização tende a ser conduzida pelos valores de mercado. A reificação tenderia a se espalhar sobre terrenos considerados inatingíveis até então, atividades que deveriam integrar a máquina pública e servir para o desenvolvimento generalizado da sociedade, direito de todos os cidadãos, e os transformaria em desenvolvedores de uma cultura de serviços e mão de obra. Tal fator seria determinante para a estrutura curricular exigida a partir daquele momento, com disciplinas e conhecimentos baseados em uma hierarquia relacionada com seu status mercantil. 

Segundo a professora e pesquisadora Maria Inês Petrucci-Rosa, que escreveu o prefácio à edição brasileira do livro, o autor problematiza a influência do mercado sobre a educação e “denuncia os limites e a crise do currículo como prescrição, destacando que tal perspectiva apenas atende a uma possibilidade de aprendizagem como repetição”. Ela também salienta o caráter crítico da obra:

Para Goodson, é preciso questionar a validade das prescrições já assimiladas que são muito comuns no currículo formal, à medida que nos encontramos num mundo em constante mudança e fluxo. Em contraposição, Goodson propõe a ideia de currículo como narrativa, pensado como processos educativos que se constituem a partir de narrativas pessoais e das histórias de vida.”

A obra divide-se em três partes: na primeira, o autor considera uma gama de questões acerca do currículo escolar, analisando o desenvolvimento da escolarização em massa, as reformas educacionais em diversos países europeus e o papel da narrativa pessoal como ferramenta pedagógica fundamental na aprendizagem baseada em investigação. Nas duas partes restantes, seu objetivo é estudar os aspectos biográficos e de narrativa de vida de diversos profissionais, em especial o professor, para quem dá atenção especial.

Ao focar na construção social do trabalho de criação do currículo, Goodson retrocede aos anos de 1980 para dissertar sobre as transformações do currículo desenvolvidas desde então. Para ele, é grave a influência capitalista sobre as definições curriculares, resultando em uma “negação do conhecimento” e em uma espécie de colonização da “educação pública como um lugar de acumulação de lucro”. Tal controle é verificado no estudo histórico que ele faz da escolarização enquanto processo em massa, decorrente de construções prévias outrora em funcionamento na educação superior e religiosa, ou seja, na criação de modelos educacionais na Europa Ocidental que, mais tarde, seriam utilizados como padrão pelo resto do mundo. Tais modelos, ao serem replicados fielmente em outras regiões do mundo, não levariam em conta a estrutura social do lugar onde eram implantados, resultando em uma organização estratificada dos alunos, associada a um currículo prescritivo e sequenciado, ou seja, estabelecido não necessariamente de acordo com a realidade dos estudantes. A partir dessa constatação, Goodson é capaz de tecer um diagnóstico relevante acerca da situação educacional dentre os países que adotaram modelos neoliberais de ensino e destacar o quanto esses modelos são decadentes no que diz respeito ao nível de desenvolvimento intelectual.

Outro ponto fundamental abordado pelo autor é como forças implícitas, como a busca por status profissional, influenciam na construção do currículo no âmbito particular. As condições impostas pelo mercado de trabalho, pelo país em que se vive e pelas estruturas políticas, sociais e culturais levam os profissionais a definirem seus currículos como um conjunto de caminhos que conferem identidade ao sujeito no processo de formação e se estabelecem como “aprendizagem narrativa”. Em níveis distintos, a aprendizagem narrativa é significativa pois envolve a construção de uma história sobre si mesmo e sua vida. Segundo Maria Inês Petrucci-Rosa,

O currículo como narrativa traz a possibilidade de se constituir coletivamente um capital narrativo que dialoga com aprendizagem que conjugam sonhos, missões e visões pessoais. Em outras palavras, a aprendizagem narrativa tem a ver com aprender sobre si mesmo e definir um projeto identitário”.

Informativo e esclarecedor, Goodson não se limita ao campo acadêmico, trazendo também referências da cultura popular para construir e detalhar seu argumento, citando, por exemplo, músicas que corroboram sua interpretação de que o pessoal e biográfico influenciam o social e político. Essencial para educadores e estudantes da área, Currículo, narrativa pessoal e futuro social revela as entrelinhas do currículo escolar e mostra que a maneira como ele é montado fala muito sobre nós e sobre a sociedade em que estamos inseridos.

Para saber mais sobre o livro e adquirir o seu exemplar, acesse o nosso site

Capa_Currículo, narrativa pessoal e o futuro social_14 x 21 cm.

Título: Currículo, narrativa pessoal e futuro social

Autor: Ivor F. Goodson

Tradutor: Henrique Carvalho Calado – Revisão técnica: Maria Inês Petrucci-Rosa e José Pereira de Queiroz

ISBN: 978-85-268-1515-5

Edição:

Ano: 2019

Páginas: 296

Dimensões: 14×21

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