Falência, emancipação feminina e racismo na República Velha

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Por Julia Helena de Oliveira

 

Júlia Lopes de Almeida foi uma escritora brasileira de grande atuação, desde os primeiros anos da República até a sua morte, em 1934. Publicado pela primeira vez em 1901, A falência foi um grande sucesso de estreia. Sendo bem recebido pela crítica, teve uma segunda publicação no mesmo ano, algo que só foi alcançado naquela década por escritores como Euclides da Cunha (Os sertões), Afrânio Peixoto (A esfinge) e Graça Aranha (Canaã). Lamentavelmente, desde então, a obra caiu no esquecimento, tendo sido trazida de volta pelo Vestibular da Unicamp, que a incluiu em sua lista de leituras obrigatórias. Em 2018, a Editora da Unicamp publicou uma nova edição da obra, organizada e comentada por Regina Zilberman, professora e especialista em História da Literatura.

No romance, Júlia Lopes de Almeida constrói um retrato da sociedade carioca do período, que se sobressai dentre suas demais obras ao evidenciar questões econômicas e morais (como o feminismo e o racismo). A narrativa se passa durante a República Velha, descrevendo as ações e os hábitos da família de Francisco Teodoro, um comerciante português que imigrou para o Brasil e construiu sua fortuna a partir de seu árduo trabalho, prosperando principalmente pelo comércio de café. Embora os integrantes da família Teodoro tenham posição central na narrativa — em especial, Francisco e sua esposa, Camila —, os amigos e os empregados que frequentavam seu círculo social são personagens importantes para que a trama seja desenvolvida; deles destacam-se: Nina, sobrinha de Camila que se tornou agregada na casa da família; o Dr. Gervásio e o Capitão Rino, ambos apaixonados por Camila (que mantém um caso com Gervásio); Noca, a leal empregada da família; Catarina, irmã mais nova do Capitão Rino; as tias idosas de Camila, Itelvina e Joana; e outros amigos de Teodoro que o visitam em seu escritório.

A construção dessa trama é feita a partir de um viés crítico e sensível que aborda temas importantes da sociedade da época, presentes ainda nos dias atuais. Isso se dá por meio de um olhar incomum e de um posicionamento feminino — muito cerceado na época.  Alguns desses temas são: adultério, racismo, diferenças sociais e econômicas, a situação das mulheres solteiras de classe média e intolerância religiosa.

Analisando primeiramente a questão da pobreza e da diferença social, é possível colocar em contraponto Francisco Teodoro e o Dr. Gervásio. Francisco é um homem rico, mas já foi pobre e passou por diversas dificuldades até chegar à sua riqueza. Em muitos momentos, ele se lembra de sua antiga vida, algumas vezes com tristeza, outras com nostalgia: ele entende o contexto da pobreza e a reconhece. Gervásio, por sua vez, vê a miséria com ares de flâneur e desconhece completamente o lado miserável da cidade onde vive. Quando visita pela primeira vez esse espaço distinto de sua realidade, fica encantado com as coisas que vê, mas não se aproxima delas; mantém o olhar distante e observador, e logo em seguida, sua mente se distrai com outras questões e ele se esquece completamente do que havia visto. Em outro momento, o descaso e a alienação da classe alta manifestam-se no excerto abaixo, ficando evidente como uma questão social é convertida em problema religioso:

 

“Já me têm pedido para organizar festas em benefício de escolas e de hospitais para pobres, como se na nossa América houvesse pobreza… Creia minha amiga, no Brasil não há miseráveis, há ateus. Precisamos regenerar o povo com exemplos de fé cristã”.

 

Ademais, há as questões de feminicídio e de adultério, representadas pela figura da mãe da personagem Catarina e do Capitão Rino, assassinada pelo marido após ele ter descoberto sua traição. O posicionamento da autora se revela pela oposição entre as reações do filho homem e da filha mulher, diferentes em razão da realidade vivida por cada um. João Rino não condena o adultério da mãe, mas aceita que o pai possa ser absolvido, pois o que ela fez era considerado crime. Sua condição de  homem fez com que ele viajasse por todo o Brasil e fosse independente. Ao sair de um lar desestruturado, seu mundo desloca-se para longe do ambiente familiar e, por isso, ele pôde superar o assassinato de sua mãe. Enquanto Catarina, presa em casa com a segunda esposa do pai, rejeita completamente a figura paterna, mas, não tendo melhores opções, é obrigada a ficar e aceitar a situação.

O adultério, segundo Regina Zilberman, só atinge as mulheres, mais especificamente as pobres. Enquanto a mãe de Capitão Rino e de Catarina é assassinada, nada é feito a respeito do caso entre Camila e o Dr. Gervásio, do qual várias pessoas têm conhecimento.

A questão feminina é uma das mais tocadas pela obra. A quase impossibilidade de autonomia financeira aparece principalmente para as jovens de classe social mais baixa, para quem o matrimônio é a única saída quando não dispõem de familiares mais velhos que as ajudem. Não é apenas um problema de gênero, mas também de condição social.

A filha mais velha de Teodoro, Ruth, é uma esperança para essa situação, pois seus pais se dedicaram a sua educação e ela teve a oportunidade de focar-se no que amava, a música. Em nenhum momento da história ela apresenta alguma pretensão de casamento e, no final da trama, torna-se uma trabalhadora autônoma. Mesmo quando pobre, sua educação se mostra útil. Na apresentação da obra, Regina Zilberman reflete que Ruth possa representar Júlia Lopes de Almeida e sua paixão pela arte, no caso a literatura, utilizando sua criatividade como uma forma de sustento. Dessa forma, Ruth apresenta-se ao mesmo tempo como exceção e como alternativa.

Em outro plano, não menos importante, há a questão do racismo. Sancha, a maior representante desse assunto no enredo, é uma criança negra, torturada por Dona Itelvina, tia de Camila. Embora os pensamentos e falas dos personagens tenham muitos elementos racistas ao se referir a Sancha, o narrador toma o partido da criança. Um exemplo disso é o momento em que Ruth compara Sancha a si mesma, “que direitos teriam uns a todas as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?”. Nesse momento, há uma crítica tanto ao racismo quanto aos cristãos fundamentalistas (as tias avós, Dona Joana e Itelvina), que passam todos os dias de suas vidas “servindo a Deus” e que, no entanto, agem de forma abominável com uma criança.

De grande importância para nossa literatura, A falência é uma produção original. Rejeita os determinismos vigentes em tantas outras obras da época ao apresentar personagens femininas com voz e determinação. As mulheres de Júlia Lopes de Almeida não dependem das figuras masculinas para destacarem-se; são complexas e corajosas. Durante a história, elas se transformam e amadurecem para começar a prover o sustento da família, já sem um homem que o faça. Mesmo que tenham se passado 100 anos desde sua publicação, o romance continua causando impacto com suas reflexões sociais e morais.

Capa_livro

 

A Falência

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Organizador: Regina Zilberman

ISBN: 978-85-268-1477-6

Edição: 1ª

Ano: 2018

Páginas: 344

Dimensões: 14x21x18

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