Sob as sombras dos ancestrais

ancestrais e suas sombras imagem blog

por Everaldo Rodrigues

Diante do tratamento desrespeitoso que o governo e parte da sociedade civil têm concedido às comunidades indígenas, com exploração, genocídio e apagamento cultural, é sempre interessante quando um estudo é realizado com o objetivo de celebrar e valorizar os povos que sofrem desde que o primeiro homem branco pôs os pés em solo americano. Resgatando e documentando procedimentos e rituais indígenas, obtém-se um belo retrato da riqueza de costumes dessas comunidades, desmistificando sua imagem e nos aproximando da complexidade e beleza de seus ritos.

Tal é o resultado do estudo de Antonio Guerreiro, doutor em Antropologia Social e professor do Departamento de Antropologia da Unicamp que, após vários meses de convívio com os habitantes da aldeia Aiha, escreveu Ancestrais e suas sombras: Uma etnografia da chefia Kalapalo e seu ritual mortuário, obra publicada pela Editora da Unicamp em 2015 e que ficou em 3º lugar no Prêmio Jabuti de 2016, na categoria “Ciências Humanas”.

O autor mergulhou na cultura dos Kalapalo, comunidade indígena que vive no Alto Xingu, complexo sociocultural multiétnico e multilíngue localizado na região sul do Parque do Xingu. Primeiro território indígena homologado pelo governo federal, em 1961, o Parque do Xingu abriga hoje cerca de 5500 índios de quatorze etnias diferentes. Antonio Guerreiro estudou e aprendeu a língua utilizada pelos Kalapalo, o karib, a ponto de dominá-la não apenas na comunicação cotidiana, como também na compreensão de registros formais em que são realizadas narrativas e discursos cerimoniais. Isso lhe permitiu descrever com fidelidade o famoso ritual Quarup, rito mortuário feito em memória dos chefes indígenas e membros ilustres da tribo após seu falecimento. A celebração é considerada uma grande honraria aos mortos homenageados, já que os coloca no mesmo nível de seus ancestrais, conectando-os até a mais antiga linhagem – tempo em que, segundo suas crenças, os deuses conviviam com os humanos. Passando por toda a descrição do ritual (que envolve, entre outros detalhes, a reunião com membros de outras tribos, o corte e a decoração de troncos de kuarup para representar os homenageados e as tradicionais lutas entre os membros mais jovens), o estudo de Guerreiro busca estabelecer, em um foco antropológico, as questões políticas em volta da cerimônia. O principal interesse da obra, então, não é o ritual em si, seus procedimentos ou resultados, mas as figuras dos chefes indígenas (anetü, para os Kalapalo, significa mais do que “chefe”, apresentando diversos sentidos, como “nobre” ou “pessoa importante”). O texto investiga e demonstra o lugar dos anetü na organização do complexo regional xinguano, e as mudanças pelas quais eles, agentes transformadores dessas comunidades, junto com seus rituais, têm passado em suas relações com o mundo externo, o mundo não indígena. Como os Kalapalo pensam a chefia? Como a chefia é reconhecida por eles? Quais os riscos inerentes à posição de anetü, e como esses homens e mulheres lidam com essas dificuldades? São essas as questões que o livro procura esclarecer, por meio da abordagem etnográfica. O ritual Quarup surge então como uma estrutura de desenvolvimento espiritual e político, produzindo novos chefes por meio da consagração de chefes mortos ao status de ancestrais, em uma celebração religiosa que sustenta e evidencia as tradições desses povos.

Ao observar o ritual Quarup como uma experiência de campo, o antropólogo foi capaz de esmiuçar a política envolvida na sua preparação e execução, revelando a noção indígena da liderança, que difere em muitos níveis da noção que os não indígenas possuem. Além disso, a obra como um todo colabora para desconstruir uma visão errônea dos rituais dos povos ameríndios. Oferecendo ao leitor a oportunidade de compreender a festa mortuária alto-xinguana, que vai muito além da simples representação mística indígena idealizada, o livro Ancestrais e suas sombras captura um momento único das celebrações dos Kalapalo, e revela sua dimensão política com originalidade.

 

capa ancestrais e suas sombras

Ancestrais e suas sombras – Uma etnografia da chefia Kalapalo e seu ritual mortuário

Autor: Antonio Guerreiro

ISBN: 978-85-268-1300-7

Edição:

Ano: 2015

Páginas: 520

Dimensões: 16×23

 

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