Uma (segunda) viagem pelo nosso maravilhoso idioma

portugues brasileiro imagem blog

por Everaldo Rodrigues

“A língua é um organismo vivo.” Tal comparação se vale de uma característica muito particular da linguagem para revelar um fato interessante: em constante transformação, a língua comporta-se de maneira praticamente adaptativa, ajustando-se às necessidades culturais e sociais, assimilando mudanças organicamente, evoluindo com o passar do tempo, aperfeiçoando-se ou simplificando-se de acordo com os contextos e ambientes. Como um ser vivente, a língua é dinâmica, maleável e diversa. No entanto, tal comparação torna-se quase uma expressão cunhada no senso comum quando mostra-se difícil de explicar. A língua se adapta como? Ajusta-se de que maneira? Assimila mudanças por quê? Como demonstrar os aperfeiçoamentos ou simplificações de idiomas que parecem tão enraizados em nossos cérebros?

Para a compreensão dessas e mais diversas perguntas, existem os estudos diacrônicos da língua, ou seja, os estudos baseados nas mudanças que ocorrem e se revelam através do tempo (diferentemente do estudo sincrônico, que se baseia em um recorte histórico, em uma fase determinada e isolada). Estudos diacrônicos partem da comparação de dados produzidos ao longo do tempo a fim de observar sua evolução. Alterações e influências são analisadas teórica e matematicamente, e os resultados podem jogar luz sobre questões antes sem respostas. As pesquisas sobre o desenvolvimento do português brasileiro ganharam um importante impulso, em 1993, com o seminal Português brasileiro: Uma viagem diacrônica, organizado por Ian Roberts e Mary A. Kato. O livro demonstrou que o português falado no Brasil passara, com o decorrer dos séculos, por uma reorganização interna coerente, e que, ao contrário de uma suposta decadência gramatical, esta reorganização caracterizava a variação do idioma, tornando-o legitimamente brasileiro.

Depois de um quarto de século de pesquisas produzidas, Ian Roberts e Mary A. Kato, agora com o auxílio da linguista Charlotte Galves, organizam uma segunda investida na exploração das mudanças orgânicas do nosso idioma com Português brasileiro: Uma segunda viagem diacrônica. Lançado pela Editora da Unicamp, a obra reúne textos que dão continuidade aos estudos do livro inicial, jogando mais luz sobre conceitos e tópicos pontuais para a compreensão das mudanças da língua. O livro é também uma homenagem à professora Ilza Ribeiro, grande incentivadora dos estudos diacrônicos da língua no Brasil, colaboradora das pesquisas lançadas em 1993, que veio a falecer em 2017.

Para compreender Português brasileiro: Uma segunda viagem diacrônica não é necessário ter lido o livro de 1993, já que o lançamento retoma e atualiza diversos temas a respeito do idioma falado no Brasil e abordados no primeiro livro, como sujeito nulo, enfraquecimento da concordância, objeto nulo, verbos auxiliares, morfossintaxe dos pronomes clíticos, sintaxe de posse, assim como aborda também fenômenos não considerados na época, como o Sintagma Nominal. Além disso, há uma grande novidade no livro: os estudos que analisam os fenômenos de paralelismo e contato linguístico.

O ensaio que abre Português brasileiro, intitulado Gramáticas “marginais” e mudanças sintáticas “extremas”: O inglês e o português brasileiro, escrito por Ian Roberts, propõe uma proximidade tão interessante quanto inesperada entre o inglês moderno e o português brasileiro. Para o professor, ambas as línguas seriam “marginais sintáticas” dentro de suas respectivas famílias, no caso, as línguas germânicas para o inglês e as românicas para o português. Tal definição surge por se observar, tanto numa língua quanto na outra, fenômenos sintáticos que os diferenciam profundamente das línguas às quais estão “geneticamente” conectadas. Entre os fenômenos observados por Roberts, destaca-se a ausência do verbo em segunda posição no inglês, cuja perda se deu pelo contato linguístico entre as populações escandinavas e as anglo-saxãs. No português brasileiro, o autor aponta, entre outros, o movimento do verbo e o sistema de clíticos, particularidades que ocorrem graças ao contato com as línguas do grupo Bantu trazidas ao país pelo tráfico negreiro.

Os efeitos do contato do português com tais línguas é o foco principal do ensaio que vem logo em seguida ao primeiro, intitulado Sobre o papel do contato linguístico nas origens do português brasileiro e escrito por Juanito Ornelas de Avelar. Nele, o autor busca, a partir da análise de fatos gramaticais anômalos ao português europeu que surgem amplamente nas variedades brasileiras e africanas da língua, associar tais mudanças ao contato surgido nesse eixo África-Brasil. Tais influências geraram traços inovadores no idioma, em ambos os lados do Atlântico. Para o autor, os dados dão razões suficientes para um maior investimento em uma agenda de investigação direcionada às dinâmicas de contato linguístico no Brasil e na África, com o objetivo de esclarecer questões históricas importantíssimas para a formação do português brasileiro.

Esses estudos se somam a outros textos que investigam as mudanças do idioma falado no Brasil, como o capítulo escrito por Maria Eugênia Lammoglia Duarte, que aborda o sujeito nulo para questionar casos representativos da Teoria de Parâmetros de Chomsky; o texto de Charlotte Galves sobre o enfraquecimento da concordância no português brasileiro; ou o capítulo escrito por Kato sobre as interrogativas-Q da nossa língua, demonstrando a evolução dessas estruturas a partir de perda de ordem e reduções.

Os onze textos que formam o livro permitem entender minuciosamente a complexa formação do nosso português, uma língua que há muito já se tornou independente daquela trazida pelos conquistadores lusitanos. Examinando em perspectiva histórica diversos tópicos dos estudos linguísticos, Português brasileiro: Uma segunda viagem diacrônica é uma obra valiosa e de leitura obrigatória para todos os estudiosos do idioma oficial do país, além de importante referência para linguistas e pesquisadores.

Capa-Português brasileiro.inddPortuguês brasileiro: Uma segunda viagem diacrônica

Charlotte Galves, Mary A. Kato e Ian Roberts

ISBN: 978-85-268-1485-1

Edição:

Ano: 2019

Páginas: 360

Dimensões: 16×23

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