Cabanagem na Amazônia: a necessidade de proteção de um estilo de vida

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Por Bianca Vasconcellos Krauze Silva

 

“Cabanagem: o termo remete a pessoas que viveram em cabanas, a moradia mais pobre da região choupanas de madeira e folhas de palmeira. ”

 

Tendo as revoltas sociais do Pará (antigo Grão-Pará) como o foco de uma pesquisa, intensa e cheia de peculiaridades, Rebelião na Amazônia — Cabanagem, raça e cultura popular no Norte do Brasil, 1798-1840, do pesquisador escocês Mark Harris, apresenta um rico panorama de uma das mais famosas rebeliões do período regencial: a Cabanagem. A revolta, datada dos anos 1835 a 1840, teve influência da Revolução Francesa, uniu índios, mestiços e escravos contra as lideranças regionais da época, por motivos políticos e econômicos.

As regiões geográficas adquiriram mais autonomia de gerenciamento devido à abdicação de Dom Pedro I, em 1831, monarca que havia levado o país à independência no ano de 1822. Atiçadas por uma forte onda liberal, em conjunto com o repúdio aos portugueses, as revoltas populares ganharam força e estouraram em diversas partes do Brasil.

O autor apresenta suas intenções logo no começo do livro:

 

“Pretendo esboçar um quadro geral das condições sociais e políticas da vida na Amazônia, no começo do século XIX, à guisa de molde em que possa situar as motivações rebeldes. Tal abordagem equivale a criar um rosto a partir de uma máscara. ”

 

Rebelião na Amazônia — Cabanagem, raça e cultura popular no Norte do Brasil, 1798-1840 conta com um acesso privilegiado a fontes históricas, fruto de uma profunda imersão do pesquisador e sua equipe in loco e em arquivo. O chamativo da composição do texto é o trabalho contínuo com moradores ribeirinhos do Pará, os quais puderam enriquecer a “reencenação imaginativa” que o autor concebe. Tal “reencenação imaginativa” é o desenvolvimento de uma abordagem que usa histórias orais (máscara) para construir um rosto (a pesquisa e o livro).

Harris contempla, de forma sistemática, o conflito entre as elites regionais e nacionais. Partindo de um quadro historiográfico da região amazônica, o livro traz análises comparativas relacionadas a outras rebeliões camponesas da América Latina e também a outros levantes ocorridos no período regencial, como a Sabinada, a Balaiada e a Revolução Farroupilha.

Além das histórias orais, houve um processo de recuperação e análise de correspondências e produções escritas, como panfletos e jornais, mas os registros mostraram que a maior parte dessas produções teve um apagamento na região do Pará, sendo encontradas em localidades como Rio de Janeiro, Lisboa, Londres e Paris.

Seu trabalho é um excelente exemplo de anos de pesquisa aprofundada sobre a mutabilidade das relações étnicas ao longo de anos de conflitos: Harris destrincha as interações entre índios, mestiços e escravos, tanto com as elites locais quanto as lideranças regionais. O autor conclui o livro com a tomada da capital paraense por um ano e com a repressão que levou à morte mais de 30 mil pessoas e compara, por fim, a Cabanagem com outras rebeliões brasileiras durante o mesmo período.

 

CapaRebelião na Amazônia – Cabanagem, raça e cultura popular no Norte do Brasil, 1798-1840

Autor: Mark Harris

Tradução: Gabriel Cambraia Neiva e Lisa Katharina Grund

ISBN: 978-85-268-1397-7

Edição: 1ª

Ano: 2017

Páginas: 400

Dimensões: 15,7×23

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