O espelho: identidade e acessibilidade

machado fone

Por Laís Souza Toledo Pereira

 Quem é você quando ninguém está olhando? O conto O espelho provoca reflexões que continuam nos intrigando, complicados humanos que somos, mesmo muitos anos depois de terem sido propostas por Machado de Assis, em 1882. Se um clássico for “um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, como especulou o escritor Italo Calvino, O espelho é, sem dúvida, um conto clássico. E talvez ele tenha ainda mais a nos dizer hoje em dia, em um contexto marcado pela presença das redes sociais, que nos colocam em exposição o tempo todo. De qualquer forma, não é preciso gastar linhas recomendando Machado: o bruxo do Cosme Velho se garante. Sem contar que provavelmente muitos de vocês, leitores, estão aqui porque esse conto integra a lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp e é sempre bom ter lido os livros (e comentários) antes da prova, né?! Neste “Livro da vez”, vamos falar um pouco sobre o texto e depois sobre uma particularidade dessa nova edição. Ela é diferente das anteriores por algumas razões: o conto pode ser lido, ouvido, assistido e até confundido com o ambiente onde acontece a leitura! Custa-lhes acreditar, não? Mas vão entender…

 

O conto

O espelho: Esboço de uma nova teoria da alma humana foi publicado pela primeira vez em 1882 no jornal carioca Gazeta de Notícias. Pouco depois, no mesmo ano, Machado o incluiu em sua coletânea Papéis avulsos. A simplicidade do seu enredo e sua brevidade não enganam: as reflexões levantadas são profundas. Assim, é preciso algum esforço para compreender o texto, e sua nova edição auxilia nessa tarefa em alguns sentidos.

Em primeiro lugar, há um glossário, já que algumas palavras utilizadas por Machado não são muito usuais atualmente. Há também uma apresentação escrita pela professora Marisa Lajolo, especialista em literatura e leitura, em que são explicitados os intertextos do conto, isto é, as menções que Machado faz a outros textos ou acontecimentos históricos. Ainda nessa apresentação, a professora destaca como o escritor rompeu com a forma tradicional de se escrever um conto, uma vez que ele narrou uma história para demonstrar uma teoria, ou, como ele diz no título, o “esboço de uma nova teoria da alma humana”. Segundo essa teoria, cada pessoa teria não apenas uma alma, mas duas: uma interior (que olha de dentro para fora) e uma exterior (que olha de fora para dentro). Em outras palavras, cada pessoa assumiria uma identidade diferente conforme a situação, sendo que a alma exterior se deixaria levar mais facilmente pelo olhar alheio. Essa é a teoria. E a história que a ilustra é a situação exposta por João Jacobina, um dos narradores e protagonista do conto. Ele relatou que, ao ser promovido a alferes (um cargo militar), foi tão bajulado por algumas pessoas que, para elas, deixou de ser o “Joãozinho”, tornando-se apenas o “senhor alferes”. E os aplausos recebidos o afetaram de tal forma que, ao ficar sozinho, passou a não ser mais capaz de enxergar nitidamente seu reflexo em um espelho: precisava vestir a farda de alferes para voltar a se ver.

Tanto a teoria quanto a história podem parecer estranhas em um primeiro momento, mas pensemos. As roupas que você usa, os livros que lê, a profissão que tem ou gostaria de ter… Todas essas coisas e muitas outras refletem realmente os seus desejos, a sua “alma interior”, ou elas compõem a imagem (ou as imagens) que você quer passar para os outros? As curtidas que recebe em suas redes sociais seriam como os aplausos a Jacobina ao conquistar seu cargo como alferes? Sem a aprovação alheia, você não consegue se enxergar com clareza? E qual pode ser a solução para você voltar a se ver no espelho: uma “farda” de nerd, de patricinha, de esportista…? Se há “fardas” que podem encobrir nossa alma interior (como a de alferes para Jacobina ou um jaleco de médico), o que dizer daquelas que podem nos tornar invisíveis para o olhar dos outros (como as de gari)?

 

O livro

O breve conto de Machado propicia reflexões importantes como essas, mas, além disso, essa nova edição traz recursos que tornam a relação com a obra ainda mais interessante: você pode baixar um aplicativo de celular que interage com o conteúdo impresso do livro, expandindo a experiência com o texto para além da leitura. Nele, há um vídeo em que Marisa Lajolo desenvolve algumas ideias de sua apresentação e mostra, por exemplo, como Machado nos estimula a ser leitores ativos, que devem desconfiar do que Jacobina nos conta (afinal, é fundamental não acreditar em tudo o que lemos!). O aplicativo oferece também efeitos de Realidade Aumentada: com eles, a narrativa e o ambiente onde acontece a leitura se misturam, permitindo que o leitor entre no quarto de Jacobina, olhe-se no espelho, vista sua farda e até interaja com os animais da fazenda. Por fim, esse aplicativo ainda tem a importante função de tornar o conto acessível a surdos e a pessoas com deficiência visual.

O livro é acessível a pessoas surdas por meio de traduções para Libras (Língua Brasileira de Sinais): do conto, do glossário e do vídeo de apresentação de Marisa Lajolo. Você pode estar se perguntando sobre o motivo dessas traduções. Acontece que Libras é uma língua – não uma linguagem ou um código – diferente do português, com estrutura e gramática próprias. Logo, muitas pessoas surdas aprendem primeiro Libras e o português é estudado depois, como uma segunda língua (da mesma forma que muitos no nosso país aprendem primeiro português e depois inglês, por exemplo). Para quem tem português como língua materna é mais fácil ler nesse idioma do que em outros, certo? Ligue os pontos e você entenderá a importância dessa tradução para Libras. Além disso, ela pode ser interessante também aos ouvintes, pela oportunidade do contato com essa língua. Muitas pessoas valorizam ser bilingues em inglês, mas não seria interessante também conhecer, ao menos um pouco, de Libras, a segunda língua oficial do nosso país? Assim, seríamos capazes de trocar experiências com pessoas que, muitas vezes, parecem ser encobertas por uma daquelas “fardas” de invisibilidade comentadas um pouco antes.

Já a acessibilidade a pessoas com deficiência visual é alcançada por meio do livro no formato ePub 3, que permite a navegação em dispositivos com tecnologia assistiva e contém audiodescrição de todas as imagens e efeitos. No aplicativo está disponível também uma narração artística, seja para pessoas com deficiência visual, seja para aquele que gosta de ouvir uma boa história.

A Unicamp tem algumas iniciativas para tornar acessível o ingresso e a permanência de surdos e de pessoas com deficiência visual no ensino superior, como o Laboratório de Acessibilidade e a Central de Tradutores e Intérpretes de Libras. Profissionais desses órgãos fizeram parte da equipe de produção da nova edição de O espelho. E a parceria foi além, contando com a atuação de pessoas de outras unidades da Unicamp: Instituto de Estudos da Linguagem; Instituto de Artes; Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo; Sistema de Bibliotecas da Unicamp; TV Unicamp e Rádio Unicamp. Essa edição ainda recebeu apoio da Comissão Permanente para os Vestibulares e da Secretaria Executiva de Comunicação e foi testada por Raquel Sotilo Benedetti, Isabelle Santos da Silva, Vilson Zattera e Valéria de Cassia Cândido Vieira, que ofereceram valiosas sugestões. Enfim, essa diversa cooperação não só proporciona o acesso a um livro exigido pelo vestibular da Unicamp, mas sobretudo permite que quem quiser possa conhecer melhor um texto fundamental de nossa literatura: O espelho. Um conto clássico que ainda não terminou (e talvez nunca termine) de dizer o que tinha para dizer, seja em português ou em Libras, seja por escrito ou em áudio.

 

O Espelho – Machado de Assis

 

O espelho – Esboço de uma nova teoria da alma humana

Autor: Machado de Assis
Organizador: Marisa Lajolo

ISBN: 978-85-268-1481-3

Edição: 1ª

Ano: 2019

Páginas: 72

Dimensões: 10,5 x 8

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