Intelectuais negros no Brasil oitocentista e a experiência de liberdade

Escritos de Liberdade Blog

Por Cristiane Trindade

Você sabia que, de acordo com o único censo realizado no Brasil durante o regime monárquico, três em cada quatro negros no país viviam em liberdade? Esse recenseamento foi feito em 1872, menos de duas décadas antes da abolição da escravatura. Apesar disso, talvez seja difícil manter uma conversa sobre a vida dos descendentes de africanos no século XIX sem que alguém mencione um episódio relacionado à escravidão.

“O que essa nossa dificuldade ou incapacidade de pensar a presença negra a partir do lugar da liberdade tem a dizer sobre a experiência nacional? Se os negros livres e libertos eram tantos, por que não conseguimos enxergá-los com facilidade em nossas projeções sobre o passado?”. Essas são algumas das questões que nos coloca Ana Flávia Magalhães Pinto, pós-doutora em história pela Unicamp e professora do Departamento de História da UnB, em seu livro Escritos de liberdade, recentemente publicado pela Editora da Unicamp. Para a historiadora, ainda que o número de pesquisas sobre a presença de africanos e seus descendentes na história do Brasil tenha aumentado bastante em anos recentes, quase sempre tem sido priorizada a abordagem da escravidão mais do que a da liberdade.

A partir dessa perspectiva, buscou-se identificar e analisar experiências vividas por um conjunto de literatos e intelectuais negros livres que atuaram em veículos da imprensa carioca e paulistana, contribuindo para a luta pela abolição da escravatura nos últimos decênios do século XIX e início do XX. Os sujeitos dessa investigação são Machado de Assis, José Ferreira de Menezes, Luiz Gama, José do Patrocínio, e, em menor grau, Ignácio de Araújo Lima, Arthur Carlos e Theophilo Dias de Castro.

A proposta inicial era produzir uma narrativa sobre a vida de cada um desses intelectuais e um estudo comparativo de suas trajetórias como homens negros livres, letrados e influentes na imprensa carioca e paulistana. Porém, com o avanço na leitura das fontes, ao perceber articulações diretas e indiretas entre esses indivíduos, Magalhães concentrou sua pesquisa em explicitar as conexões que lhes permitiram refletir em conjunto sobre as consequências do “preconceito de cor”, revelando como eles conquistaram seus espaços no debate público sobre o futuro do país.

Para a pesquisadora, o estudo da vida desses homens, marcada por diferentes interdições, contribui para as pesquisas em história social sobre as experiências negras antes e depois do fim da escravidão e principalmente para investigações sobre a identidade racial negra concebida em espaços sociais de liberdade.

A obra organiza-se cronologicamente e em três partes. Na primeira, concentra-se em expor episódios relevantes da vida de cada um dos autores examinados e retoma muitas de suas produções publicadas em jornais da época e aplaudidas por seus contemporâneos, como contos, poesias, crônicas, críticas teatrais e ensaios claramente engajados e formadores de opinião sobre questões sociais da época. Sobre o conto “Jacques Seraphim, o músico”, por exemplo, Magalhães observa que Ferreira de Menezes não apenas produziu um registro dos episódios de epidemias de febre amarela e cólera, ocorridos no início da década de 1860 no Rio de Janeiro, como também denunciou a responsabilidade do governo no cenário de analfabetismo e indigência de grande parte dos moradores, e de incompetência médica, quando especulava-se de modo irresponsável sobre a relação de tais doenças com os hábitos das populações negras, escravizadas e livres.

Nesse primeiro capítulo, tem-se a impressão de que de fato entramos na vida de cada um desses literatos, como se eles fossem personagens de um romance. Desembarcamos, por exemplo, com Ferreira de Menezes do vapor Hermes no porto de Santos em 1861, a caminho de São Paulo, quando este tinha por objetivo cursar Direito na Academia do Largo do São Francisco. Depois, acompanhamos alguns desafios enfrentados pelo jurista durante sua carreira, como a perseguição realizada por alguns professores contra os chamados “estudantes de cor” na Academia.

Nessa minuciosa investigação, nem mesmo as contradições na vida desses intelectuais passam despercebidas, como ilustra o caso em que Ferreira de Menezes, famoso abolicionista, atua na defesa de um acusado de venda ilegal de uma pessoa livre. O objetivo é evidenciar os dilemas que o escravismo e a racialização colocaram para a identificação desses intelectuais, quais as consequências disso para sua inserção em espaços e instituições da chamada “elite”, como obtiveram reconhecimento de sua produção intelectual e como estabeleceram relações entre si e com outros letrados, como Joaquim Nabuco, que contribuíram para sua trajetória.

Na segunda parte da obra, munida de um extenso conjunto de fontes, como notícias, anúncios, discursos e artigos publicados em jornais da época, Magalhães problematiza os estereótipos e os espaços sociais ocupados por indivíduos negros livres durante os últimos anos de escravidão no Brasil. No segundo capítulo dessa mesma parte, os escritos produzidos e veiculados na imprensa da época por Luiz Gama, Ferreira Menezes e José do Patrocínio são utilizados para mostrar como esses indivíduos contribuíram para a resistência do povo negro diante das limitações impostas ao exercício de sua cidadania.

Por fim, a terceira parte é dedicada a uma análise dos desafios colocados pela abolição da escravidão no Brasil em 1888. Discute-se o problema da precarização da vida dos ex-escravos e do racismo enfrentado em suas múltiplas experiências de liberdade pós-abolição, mesmo pelos letrados, nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro e como reagiram em defesa dos valores democráticos.

Escritos de liberdade faz parte da coleção Várias Histórias, da Editora da Unicamp, e resulta de uma pesquisa produzida em diálogo com vários estudos sobre o tema, como aqueles vinculados à Associação Nacional de História (Anpuh) e ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Com seu precioso resgate da trajetória de intelectuais que atuaram em defesa da abolição da escravidão, o livro deve interessar não apenas a historiadores e literatos, mas a todos que queiram conhecer o Brasil de outras perspectivas.

 

Capa_O direito dos escravos.cdr

Escritos de Liberdade. Literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista

Autor: Ana Flávia Magalhães Pinto

ISBN: 978-85-268-1479-0

Edição: 1ª

Ano: 2018

Páginas: 376

Dimensões: 14×21

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