Viagens, traduções, revistas e peças teatrais: Pontes entre Brasil e França no século XIX

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Por Luísa Rosa

Os portos nunca foram meros lugares de chegada e partida de indivíduos e mercadorias, foram também pontos de passagem de ideias e representações culturais que circularam no século XIX. Livros, periódicos, mediadores e trupes de teatro que viajaram entre Europa e América são temas explorados em Deslocamentos e mediações, organizado por Claudia Poncioni e Orna Levin.

O livro é resultado do projeto “Circulação transatlântica dos impressos: A globalização da cultura no século XIX”, coordenado por Márcia Abreu e Jean-Yves Mollier. Desenvolvido por uma equipe internacional de pesquisadores, o estudo deu origem a outros dois volumes: Suportes e mediadores e Romances em movimento. A presente obra é dividida em três partes, contendo, ao todo, dez ensaios de diferentes autores que estudam o circuito das trocas culturais estabelecido principalmente entre Brasil e França.

Uma das partes tem como tema a construção e a veiculação de estereótipos europeus a propósito da sociedade brasileira, presentes nos relatos de viagem. Essa literatura era muito popular na época, um sucesso editorial. Quem lia os relatos sobre o Brasil acreditava haver aqui uma fauna e uma flora extremamente ricas, além de indígenas nada civilizados. A imagem brasileira que circulava pela Europa era caracterizada pelo exotismo, que estava na moda desde o século XVIII. Muito disso se deve a obras que foram traduzidas para o francês, como Caramuru, do frei José de Santa Rita Durão, poema épico que foi transformado em prosa por Eugène de Monglave e tematiza o descobrimento da Bahia.

François-Auguste Biard, pintor que teve sucesso com suas cenas de viagem, chegou ao Brasil em 1858 esperando encontrar aquela imagem estereotipada, mas se decepcionou ao desembarcar. Depois de desenhar os negros no Rio de Janeiro, avançou para o Norte, onde retratou os Mundurucu em troca de cachaça, tornando-os objeto de entretenimento para os europeus. Seu relato de viagem foi publicado na revista Le Tour du Monde, em uma série intitulada “Voyage au Brésil”, ao longo do segundo semestre de 1861. No ano seguinte, o relato transformou-se no livro Deux années au Brésil, que incomodou os brasileiros, mas agradou aos franceses.

O jornal Le Figaro e a revista La Mode também veicularam uma imagem negativa do Brasil em suas publicações acerca do exílio de D. Pedro I em Paris. O primeiro pintava um país de selvagens, com abundante violência social e política, aproximando-o das outras repúblicas sul-americanas. A segunda condenava o monarca por ter abandonado seu filho de seis anos em uma terra supostamente não civilizada.

No entanto, nem todas as representações eram negativas. Ferdinand Denis e Victor Chauvin, por exemplo, retrataram os indígenas como valentes e bons ao relatarem a viagem de um italiano que fora abandonado na Amazônia. Também os literatos brasileiros representaram escritores franceses de maneira positiva, conferindo-lhes uma posição de prestígio e glória, enquanto estes, na verdade, se encontravam em estado de crise, como os próprios brasileiros. Um dos ensaios até coloca Honoré de Balzac e Joaquim Manuel Macedo em pé de igualdade, uma vez que ambos trabalhavam sem cessar a fim de tirar a maior renda possível dos seus escritos para pagar as enormes dívidas.

A difícil situação financeira de muitos literatos brasileiros era agravada pela falta de regulamentação dos direitos autorais, o que possibilitava que suas obras fossem publicadas pelos editores sem autorização nem pagamento. Em contrapartida, a ausência de tal regulamentação favorecia as trupes de teatro, que reproduziam textos em língua original ou traduzidos, como as operetas de Offenbach.

No século XIX, algumas empresas teatrais, assim como certas livrarias e editoras, alcançaram escala internacional. Deslocamentos e mediações, em seus estudos sobre o movimento intercontinental de pessoas, textos e ideias, deixa de lado a noção de influência eurocêntrica, adotando o conceito de “circulação”, que enfatiza a ideia de movimento, sem estabelecer lugares fixos de partida e de chegada.

Para saber mais sobre o projeto “Circulação transatlântica dos impressos: A globalização da cultura no século XIX”, acesse: http://www.circulacaodosimpressos.iel.unicamp.br/

 

Deslocamentos e mediações livro

Deslocamentos e mediações: A circulação transatlântica dos impressos (1789-1914)

Organização: Claudia Poncioni e Orna Levin

ISBN: 978-85-268-1478-3

Edição: 1a

Ano: 2018

Páginas: 344

Dimensões: 16 x 23

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