As feiticeiras de Moçambique

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Por Thaissa Ribeiro

Qual a primeira imagem que vem à sua cabeça quando você lê “ feiticeira de ervas”? “Bruxa macumbeira”? “Curandeira africana”? É uma imagem boa? E se eu disser que a imagem negativa sobre elas pode ter passado pelo filtro de uma estratégia política europeia? E se eu contar que elas são as vítimas da história? Pegue seu chá e venha comigo anotar esta dica de livro.

Nyanga e tinyanga são termos próprios da língua changana falada entre os povos que habitam a região sul de Moçambique, os quais podem ser traduzidos como médico-sacerdote e seu plural. Da perspectiva do grupo de tinyanga, para estar saudável é necessário haver harmonia entre os vivos, o ambiente social e natural e, principalmente, na relação com os antepassados, ou seja, a mente, o corpo e o espírito precisam ser tratados em comunhão para que haja saúde completa.

Em meados de 1920, nas cidades africanas, sobretudo naquelas situadas no meio rural, era muito comum que os tinyanga oferecessem assistência. As mulheres, além de atuarem como curandeiras, eram vistas como detentoras dos valores sociais e morais da sociedade, “oferecendo alívio para o sofrimento de seus clientes e promovendo o equilíbrio social nos agregados familiares”. As tinyanga eram conhecidas na comunidade como portadoras de poderes espirituais. Os homens tinyanga também possuíam importância social no sul de Moçambique, mas como o patriarcado não era absoluto, e tendo em vista a atuação das mulheres na mediação familiar, elas possuíam uma voz muito marcante na sociedade.

O grupo de tinyanga trabalhava em suas casas, em troca de pequena remuneração. Para cada caso havia um ritual diferente, envolvendo ervas e cantos, pois eles faziam o papel de médicos, psicólogos e dirigentes espirituais. Justamente por serem tão importantes para a sociedade moçambicana, foram alvos estratégicos do Estado português.

A colonização, iniciada em 1927, introduziu mudanças importantes na organização econômica, religiosa e jurídica das sociedades africanas. Os grupos sociais que possuíam influência na administração do antigo Estado foram desmembrados. O maior exemplo é o grupo de tinyanga que foi submetido a uma política estatal cujo objetivo era a marginalização e o descrédito de sua autoridade, ocasionando maior fragilidade perante os cidadãos moçambicanos.

Durante o período de 1927 a 1935, médicos-sacerdotes estavam sujeitos ao confisco de seus pertences de fé, ao julgamento em tribunais, a prisões e até a castigos corporais, caso continuassem a atender a população. Com essas ações, o governo, os missionários e os próprios médicos portugueses desqualificavam a terapia moçambicana, classificando-a como primitiva, diabólica e charlatã, oferecendo vantagens aos cidadãos que aderissem ao novo governo e às novas práticas.

É nesse contexto de luta que segue a dica de hoje. Escrito pela historiadora Jacimara Santana, o livro Médicas-sacerdotisas: Religiosidades ancestrais e contestação ao sul de Moçambique (c. 1927-1988) relata a experiência do grupo de tinyanga durante a colonização portuguesa. A autora analisa o período entre 1927, início da implantação do Estado colonial português em Moçambique e da interdição mais forte das atividades dos tinyanga, passando por 1975, ano de independência do país – com igual proibição das atividades – até 1988, quando o Ministério da Saúde debate a possibilidade de reconhecer oficialmente tal trabalho. Revela ainda as consequências da ação do Estado português sobre o grupo de curandeiros de Moçambique.

O livro é dividido em quatro capítulos. O primeiro aborda as barreiras impostas aos tinyanga e como elas se desenvolveram durante o período. O segundo trata das leis de controle criadas pelo governo português, que tinham a intenção de coibir as atividades dos tinyanga. O terceiro examina a interação entre os saberes europeus e africanos na área da saúde, considerando as reformas do período colonial. Esse capítulo também descreve como a população atuava para driblar a proibição de consultar seus sacerdotes. Já o quarto e último capítulo relata como foi o processo de reconhecimento oficial do grupo após a independência do país, e qual é, atualmente, a importância dos tinyanga no território africano.

A obra contém transcrições das fontes orais, coletadas durante as pesquisas da autora, além de imagens dos tinyanga atuais. Esses recursos possibilitam ao leitor uma imersão maior no tema. O livro faz parte da coleção Várias Histórias, que procura divulgar pesquisas recentes sobre a diversidade da formação cultural brasileira e já conta com 45 volumes publicados.

Venha conhecer um pouco mais as curandeiras e sacerdotisas dessa região da África e descobrir que quase tudo o que contaram para você sobre feiticeiras, bruxas e ervas malignas era regido por interesses políticos e econômicos.

Médicas-sacerdotisas - Religiosidades ancestrais e contestação ao sul de Moçambique (c.1927-1988)

Médicas-sacerdotisas – Religiosidades ancestrais e contestação ao sul de Moçambique (c.1927-1988)

Autor: Jacimara Souza Santana

ISBN: 978-85-268-1467-7

Edição: 1ª

Ano: 2018

Páginas:

Dimensões: 14×21

 

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