A memória, a história, o esquecimento e o perdão depois do século XX

a memória, a história, o esquecimento - Paul Ricœur
Nazi War Crimes Trials in Nuremberg, Germany

Por Cristiane Trindade

 

Os grandes crimes do século XX – como genocídios, guerras e ditaduras –, caracterizados por graves violações aos direitos humanos, contribuíram para a necessidade de repensar o papel da memória e da historiografia no mundo contemporâneo. Essa preocupação orienta a investigação de Paul Ricœur em A memória, a história, o esquecimento. Tendo como pano de fundo o acontecimento-limite da Shoah, a obra busca pensar sobretudo a relação entre a memória e a historiografia e a necessidade de uma política de justa memória como tema cívico.

Para isso, o autor empreende primeiro uma extensa reflexão sobre a memória, partindo das primeiras discussões sobre o tema na Grécia antiga, quando a memória era considerada um modo de educação que proporcionava às pessoas uma técnica de memorização de textos tradicionais, como as grandes epopeias. Mas o interesse de Ricœur é outro; ele busca refletir sobre a memória a partir de sua função específica de representar o passado, reflexão que coloca necessariamente, segundo o autor, a problemática da dimensão veritativa da memória. Ou seja, se pensarmos a memória a partir de sua função de representar o passado, é necessário pensarmos também de que modo ela o faz.

Sob a carga dessa função tão importante, o autor propõe que a memória pode possuir um lado ativo, podendo ser vista como uma prática. Isso ocorre quando se empreende um esforço deliberado de recordar algo do passado. Se pensado socialmente, isso abre a possibilidade de que tanto a memória como o seu oposto, o esquecimento, sejam manipulados por diferentes indivíduos, inclusive os detentores do poder – que podem, por exemplo, empreender seletivamente expressões públicas de determinada memória para legitimar sua autoridade.

Com a possibilidade dessa manipulação, Ricœur pensa a memória a partir de sua relação com a produção do conhecimento histórico, refletindo sobre as três fases da operação historiográfica: (i) o estágio do testemunho e dos arquivos, objetos de estudo do historiador que têm a memória como matriz; (ii) o estágio em que o historiador compreende e explica seu objeto de estudo, produzindo sua própria representação do passado – e que coloca, para Ricœur, a necessidade do questionamento sobre suas escolhas: por que, por exemplo, determinados objetos são considerados privilegiados em detrimento de outros?; e (iii) o estágio em que essa representação é levada ao conhecimento dos leitores de história, determinando o modo como compreendem, em seu presente, o passado histórico.

Considerando o impacto dessa representação, Ricœur propõe a necessidade não só de uma reflexão sobre o modo de compreensão do historiador implicado na produção do saber histórico, mas também uma imposição de limites a qualquer pretensão totalizante desse saber.

Para o autor, o esquecimento precisa ser pensado como igualmente importante em seu estudo. Na esfera social, ele ocorre quando se destrói um arquivo, um museu ou uma cidade inteira, por exemplo, sendo o principal inimigo da memória e da história, seu desafio por excelência. Mas é possível que o esquecimento se apresente também como um aliado delas. Práticas institucionais de esquecimento jurídico promovidas pelo Estado, como a anistia, por exemplo, tendem a colocar, deliberadamente, graves crimes cometidos no passado fora dos debates públicos, aproximando-os de uma amnésia comandada e assim privando as futuras gerações de reapropriar criticamente esse passado.

O “perdão” a esses crimes deve ocorrer, segundo Ricœur, apenas na medida em que possibilita a superação do passado e o fim de sua repetição, mas sem deixar de observar a herança deixada por ele. Por meio da crítica histórica – função que o autor atribui sobretudo aos cidadãos, e não aos historiadores apenas – pode-se chegar a uma memória que tenha como horizonte a justiça.

São muitos os campos com os quais o livro de Ricœur se comunica. Poderíamos pensar, por exemplo, no caso brasileiro, em que a questão da anistia ressoa como um impasse em nosso passado histórico. Ainda que o livro retome diversos autores clássicos, ao final da leitura a impressão de uma obra atual não poderia ser maior; isso porque os três tópicos de investigação delimitam um amplo universo de preocupações, e sua interessante abordagem mira, declaradamente, uma política da justa memória.

a memória, a história, o esquecimento - Paul Ricœur

 

 

A memória, a história, o esquecimento
Autor: Paul Ricœur
Tradução: Alain François et al.
ISBN: 978-85-268-0777-8

1a edição: 2007; 7a reimpressão: 2018
Páginas: 536

Dimensões: 16 x 23 cm

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