Será que estamos trabalhando demais?

TEMPOS MODERNOS, JORNADAS ANTIGAS - Vidas de trabalho no início do século XXI - Pietro Basso

 

Por Jessica Moreira Siqueira

 

Século XXI, revolução tecnológica, globalização. As dinâmicas de trabalho atuais são cada vez mais influenciadas por uma demanda ligada à produção própria da lógica capitalista acelerada. As máquinas auxiliam e, muitas vezes, chegam a substituir a força de trabalho humana. Esse é um cenário que, em teoria, seria totalmente diferente da época da Revolução Industrial, quando a jornada de trabalho, repetitiva e mecanizada, mais de 15 horas por dia. No entanto, o sociólogo Pietro Basso defende que não estamos tão longe assim dessa conjuntura.

No livro Tempos modernos, jornadas antigas, o autor argumenta que, paralelamente ao desemprego, a doença do século XXI é o trabalho excessivo. Há desequilíbrio entre as horas trabalhadas e o pagamento recebido. E gradualmente temos perdido a fronteira entre tempo de trabalho e tempo de “vida global”. Nesse estudo, o sociólogo busca compreender quais teriam sido as causas para o entrave no desenvolvimento dos direitos dos trabalhadores, principalmente em relação ao tempo que suas funções exigem.

Para Basso, não estamos retornando à época da Revolução Industrial, mas, sim, continuamos presos às mesmas estruturas: “Na verdade, isso tudo jamais desapareceu da história e da realidade das relações sociais capitalistas, tanto é que aflige as condições de trabalho e de vida em áreas onde vivem quatro quintos da humanidade”. Muitas vezes, países em desenvolvimento industrial impõem longas jornadas de trabalho e salários baixos. Não é difícil encontrar notícias denunciando a exploração do trabalho humano por empresas globalizadas.

Porém, o excesso de trabalho não ocorre apenas na indústria. De acordo com o autor, o chamado “terceiro setor”, de “serviços”, também sofre desse mal. Aliás, ele considera errônea a utilização desse termo, pois “terciário” teria sido uma categoria inventada para tentar explicar o fenômeno pós-industrial da diversificação das ocupações, mas que não consegue abarcar a pluralidade existente de funções. Além da dificuldade de classificação, entre tal variedade de ocupações, a economia capitalista influencia o processo de trabalho. O “tempo da indústria está penetrando cada vez mais profundamente no mundo por definição empoeirado e lento dos aparatos burocráticos”. Um dos exemplos disso está na privatização dos serviços públicos. Some-se a isso, o uso de certos equipamentos e tecnologias que tornam as atividades automatizadas, assemelhando-se às tarefas exercidas em fábricas.

Existe também a questão das divergências no cálculo das horas trabalhadas. Basso argumenta que os defensores da lógica capitalista utilizam a contagem anual, que proporciona uma perspectiva diferente da contagem diária. Desse modo, não se considera o tempo de convívio social do indivíduo. Do ponto de vista anual, ocorreu uma diminuição de horas trabalhadas. Porém, essa subtração foi decorrente das férias e dos sábados livres. Aí não está incluída a necessidade de vida social do assalariado, que não deveria se restringir apenas aos finais de semana. Dessa forma, o autor sustenta que é preciso ter em mente a jornada de trabalho diária, afirmando que “não se pode ter um papel ativo na vida social e política apenas nos finais de semana ou nas férias de verão, nos resíduos de tempo do trabalho alienado. Isso só pode ser feito ‘cotidianamente’”.

Pietro Basso adota o método histórico-comparativo em seu estudo que se concentra principalmente no Ocidente, tendo por base os Estados Unidos, que, segundo ele, é o país que melhor representa “as tendências de fundo do capitalismo mundializado”. A partir desse parâmetro, o autor estabelece os casos de alguns países da Ásia e Europa, que confirmam ou são exceção à regra.

Assim, Tempos modernos, jornadas antigas oferece uma investigação do problema da relação entre tempo de trabalho e tempo social no século XXI, cujas raízes se situam no processo histórico social e na interferência do capitalismo nas relações sociais.

TEMPOS MODERNOS, JORNADAS ANTIGAS - Vidas de trabalho no início do século XXI - Pietro BassoTempos modernos, jornadas antigas

Autor: Pietro Basso
Tradutor: Patrícia Villen

ISBN: 978-85-268-1393-9

Edição: 1a

Ano: 2018

Páginas: 392

Dimensões: 14 x 21

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