Cartografias de vivências feministas

As questões pertinentes ao feminismo são o ponto norteador de A aventura de contar-se: Feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade, de Margareth Rago e publicado pela Editora da Unicamp. O livro, através de um olhar histórico, traça um panorama das mudanças ocorridas nas últimas quatro décadas por meio de militantes feministas vindas de contextos diversos e com histórias de luta singulares, além de trazer o paralelo com a pesquisa da própria autora, incorporando aspectos da filosofia de Foucault e Deleuze.

A autora traz muito de sua experiência acadêmica, usando de anos de pesquisa sobre o feminismo no Brasil e em outros países, além de envolver muito das trocas intelectuais que teve no Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp com o grupo de pesquisa “Gênero, subjetividade, cultura material e cartografia”, conceitos que foram claramente incorporados ao livro e à forma de contar todas as histórias que estão incluídas no mesmo.

Tudo isso é feito sem perder a sensibilidade e o olhar envolvido, interessado e até carinhoso para cada uma das histórias representadas, além da evidente paixão pelo tema em si. São retratadas no livro sete militantes, tendo suas trajetórias descritas através de suas ambiguidades e de uma explanação feminista e engajada.  As mulheres retratadas nasceram entre os anos 1940 e 50, sendo determinantes em pequenas revoluções, que as fizeram escapar a microestruturas de poder e levar adiante muitos dos ideais feministas.

São elas Maria Amélia de Almeida Teles, a “Amelinha”, e Crimélia Alice de Almeida Schmidt, ex-presas políticas e fundadoras da União de Mulheres de São Paulo (UMSP), associação que luta pelos direitos das mulheres; Gabriela Silva Leite, líder do movimento das prostitutas brasileiras, fundadora da ONG Davida, no Rio de Janeiro; Ivone Gebara, filósofa e uma das principais expoentes da Teologia Feminista na América Latina; Maria Lygia Quartim de Moraes, socióloga, exilada política e fundadora do jornal feminista Nós Mulheres;  Norma Abreu Telles, historiadora e antropóloga, e Tânia Navarro Swain, historiadora e teórica feminista, editora da revista digital internacional Labrys, estudos feministas.

Essas mulheres e suas diferentes narrativas do ser feminino e principalmente dos aspectos políticos do que é ser mulher em uma sociedade patriarcal, apresentam com sua vivência pessoal um mecanismo valioso para que a autora nos aponte ações políticas e culturais pouco estudadas. Vale ressaltar também que aqui, “os feminismos” não se restringem a movimentos autodenominados feministas, mas a qualquer ação social, cultural, política ou linguística que de alguma forma colabora para que as mulheres se vejam livres de imposições misóginas e depreciativas.

A aventura de contar-se traz já em sua introdução os aspectos que serão, como diz no próprio livro, as balizas do estudo: dividida entre “Essas mulheres” e em “Feminismos, artes do viver e escrita de si”, temos um panorama geral da forma como são estruturadas as ideias apresentadas na obra: tanto essas mulheres retratadas, como os ideais feministas e especialmente a escrita de si trazem conceitos que de cara rebatem os estigmas machistas do patriarcado.

O livro é dividido em três partes, cada qual trazendo uma contextualização histórica entremeada com os depoimentos, escritos e entrevistas das sete mulheres já citadas, além do oitavo elemento, a própria Margareth que acaba trazendo muito da sua própria subjetividade e escrita de si – de forma não literal, mas ainda assim de intensa presença –  tornando-se parte desta publicação.  É cativante então a forma como as histórias contadas se relacionam com a filosofia de teóricos (como os já citados Foucault e Deleuze), trazendo possibilidades e interpretações para a vida da mulher e não apenas da mulher militante.

Na primeira parte, “Experimentações”, a geração de mulheres da década de 1970 aparece representando um momento de descobertas e novas vivências em que muitos dos conceitos teóricos (como as ideias marxistas, por exemplo) ainda não eram amplamente acessíveis no Brasil. A dificuldade em se encontrar material sobre esse período deve-se também ao violento regime ditatorial, que através dos escritos masculinos e do desaparecimento de muitos registros, tornou invisíveis muitas das militantes na época. De qualquer forma, Margareth Rago consegue que essa geração seja muito bem representada através de uma contextualização histórica que busca essas militantes e mulheres que seguiram no movimento da contracultura.

Em seguida, em “Cartografias”, já tratando da segunda metade da década de 1970 a década de 80, são apresentados os primeiros movimentos denominados feministas em um fluxo de militância das minorias que sentiram a necessidade de uma identidade própria. Aqui, tais movimentos passam a tratar de diversas pautas em esfera pública, e levam seus questionamentos a diversas esferas sociais.

“Um lugar no mapa…” nos coloca então no ponto onde esses movimentos desembocaram nos anos 90: uma abertura no local de fala e no espaço de movimentação para este grupo e outros que relacionaram sua luta à das mulheres, como é o caso dos movimentos por moradia, LGBT, negro e outros. Aqui, é ilustrado justamente este “lugar no mapa” que se alcançou, que ainda não é o de protagonismo, mas que cresceu, tomou forma e agora aparece com sua identidade.

O livro segue então para a conclusão “…é também um lugar na história”, que reforça o alcance e a nova imagem dos movimentos e especialmente das mulheres retratadas em todo o livro. São utilizadas diversas fontes, apresentadas no fim do livro. Entre elas, publicações feministas, jornais das décadas de 70 a 90, documentos diversos e arquivos que trazem novas possibilidades de leitura e aprofundamento do estudo nos temas tratados por Margareth.

Os temas que se referem à mulher e ao seu espaço em sociedade são cruciais para a compreensão de cada momento histórico que vivemos, cabendo sempre o questionamento de padrões machistas e falocêntricos de comportamento que reduzem a relevância da mulher, do feminino, das subjetividades e invisibilizam demandas pertinentes. Margareth Rago traz então tais questionamentos, abordados através de uma fundamentação teórica e de vivência prática, percorrendo um panorama histórico completo que nos faz compreender desde os primórdios este movimento que vem em uma crescente, estabelecendo novos comportamentos e ideais. A leitura de A aventura de contar-se acaba sendo, além de tudo, uma leitura de si mesma e das mulheres que nos cercam.

 

*No destaque, foto de Gabriela Leite, ex-prostituta hoje grande símbolo do feminismo no Brasil


rago.jpg A aventura de contar-se – Feminismos, escrita de si e invenções da subjetividade
Autor: Margareth Rago
ISBN: 978-85-268-1017-4
Edição: 1ª
Ano:
 2013
Páginas: 344

 

 

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