Augusto reaviva força poética de Keats

Por: Júlia Rodrigues

Poeta delicado e complexo, frágil e poderoso, amado e incompreendido. Essas aparentes contradições marcam a forma com que o poeta inglês John Keats é representado pela crítica e pelo senso comum. Keats é uma das principais figuras do Romantismo inglês e há muitos mitos em torno de sua vida e de sua obra. É perfeitamente compreensível que Keats sintetize tão bem um ideal de poeta romântico: quando vivo, recebe críticas quase sempre negativas e morre precocemente aos 25 anos em decorrência de uma tuberculose (considerada a “doença do século” de seu tempo). Para muitos, os ataques ao poema longo “Endymion”, recebidos no ano anterior à sua morte, teriam acelerado seu declínio (ninguém menos que Percy Shelley imortalizou essa hipótese no prólogo da elegia “Adonais”, a qual homenageia Keats). Como se não fosse o bastante, Keats viveu ainda uma intensa história de amor inacabada com a jovem Fanny Brawne, com quem o poeta não pôde se casar devido a seu grave estado de saúde e sua falta de recursos financeiros.

No entanto, Keats não é somente o poeta apaixonado que teve o azar de morrer sem usufruir de prestígio e do casamento com seu grande amor. Keats, sobretudo após sua morte, se torna uma das vozes poéticas mais importantes de sua geração em meio a uma grande instabilidade política e social: a Londres do momento efervescia após a Revolução Industrial, a população urbana aumentava de forma alarmante e a desigualdade social era imensa. Nesse contexto tão instável, Keats, que enfrentou sérios problemas financeiros, insistiu em sua vocação poética a todo custo e deixou um legado belíssimo, fruto de seu talento e autodidatismo. Hoje, Keats é um dos poetas ingleses mais amados, e seus poemas e cartas estão entre os textos mais lidos e analisados no campo dos estudos literários.

É esse Keats ambivalente e instigante que Augusto de Campos reaviva com suas traduções no volume Byron e Keats: entreversos, publicado pela primeira vez em 2009 pela Editora da Unicamp. O poeta e tradutor celebra, com razão, sua longevidade, que o possibilitou voltar a Byron e Keats com olhar renovado, lendo-os e traduzindo-os “apaixonadamente”. Campos destaca que alguns dos poemas incluídos na edição são os mais belos da história da poesia. O desafio de traduzi-los, claro, não é pequeno. Campos, modestamente, afirma: “Não é sempre que se consegue chegar a alguma coisa que se pareça com a beleza do original. Prefiro a moderação das traduções escassas à complacência das versões totalizantes e diluentes”.

São muitas as belezas conquistadas em suas traduções. Hoje, data de nascimento John Keats, poeta que enfrentou inúmeros percalços, trazemos a excelente tradução do bem humorado “To Mrs Reynolds’ Cat” [“Ao gato da Sra. Reynolds”], que imagina as desventuras de um felino. Não deixe de conferir a edição para conhecer mais poemas de Keats e, ainda, uma introdução e uma “pós-tradução” iluminadoras de Campos.

 

Ao Gato da Sra. Reynolds

Gato! que já passaste o grande climatério,
Quantos ratos e camundongos já comeste?

Que petiscos roubaste? Ergue-me o olhar, reveste
De verde lânguido os teus olhos de mistério.

Alça as orelhas de veludo, mas não queiras

Fincar em mim as tuas úngulas latentes,

Faz teu meigo miado e conta as sorrateiras

Caças de ratos, peixes, pintos nos teus dentes.

Não baixes os teus olhos, nem lambas agora

As patas, apesar da asma e dos apuros

Da cauda cetinosa que te falta; e embora

As servas te enxotassem com castigos duros,

Teu pêlo ainda é suave e lembra como outrora

Te esquivavas dos cacos de vidro pelos muros.

To Mrs Reynolds’s Cat

Cat! who hast pass`d thy grand climacteric,
How many mice and rats hast in thy days
Destroy`d? – How many tidbits stolen? Gaze
With those bright languid segments green, and prick

Those velvet ears – but pr`ythee do not stick
Thy latent talons in me – and upraise
Thy gentle mew – and tell me all thy frays
Of fish and mice, and rats and tender chick.

Nay, look not down, nor lick thy dainty wrists –
For all the wheezy asthma, – and for all
Thy tail’s tip is nick`d off – and though the fists

           Of many a maid have given thee many a maul,
Still is that fur as soft as when the lists
In youth thou enter`dst on glass-bottled wall.

—-

 

Byron e Keats: Entreversos
Autor: Byron, Keats
Tradutor: Augusto de Campos
Reimpressão: 1ª – 2011
Páginas: 192

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