Machado de Assis, o leitor

Por: Jean-Frédéric Pluvinnage

O escritor Machado de Assis é estudado pela produção de seus romances, contos, crônicas, poemas, teatros, críticas e traduções, mas dentro dessa gama de produções literárias é preciso dar destaque a outro aspecto do autor: o Machado leitor. Machado era leitor assíduo dos clássicos antigos, de Shakespeare e dos romances europeus do seu tempo, e fazia questão de incluir suas leituras dentro de sua produção, mas tratava-se de um processo de apropriação que ia além da simples imitação, era subversivo, inovador a tal ponto que sua literatura periférica, não eurocêntrica, se tornou universal. Esse é o cerne do livro Machado de Assis: Lido e Relido  (2016), coletânea de artigos, interpretações e ensaios sob a organização de João Cezar de Castro Rocha (docente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Uerj) e publicado pela Editora Unicamp e Alameda.

 O livro foi publicado originalmente nos Estados Unidos, na busca por um novo público machadiano fora dos círculos brasilianistas, em um colóquio da Biblioteca do Congresso, em Washington, com o nome The Author as Plagiarist: The Case of Machado de Assis (2005). O subtítulo original remete primeiro a um prefácio escrito por Susan Sontag para a reedição em inglês de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Afterlives: The Case of Machado de Assis”. Já o título original remete a um Machado plagiário, mas conforme explica João Cezar, trata-se do plágio conforme os debates literários do século XIX, nos quais autores buscavam emular suas referências literárias. Já a versão brasileira remete à difusão de temas da coletânea, que vai além do debate da emulação e inclui principalmente estudos de literatura comparada.

São 41 ensaios que revelam o mosaico de um Machado moderno, gerado por diversos escritores e pesquisadores nacionais, como Daniel Piza, Marisa Lajolo e Regina Zilberman, assim como internacionais, como José Saramago, e Earl E. Fitz, entre muitos outros. Para esses autores, Machado é fonte abastada de estudos: o Bruxo do Cosme Velho tem consciência e vontade de não somente se apropriar dos romances que leu, mas extrapolar e inovar suas referências. Referências inúmeras, que vão da sátira menipeia, marcada pela comicidade e liberdade de texto acima do realismo, do narrador irônico de Sterne, dos protagonistas contraditórios e em eterna dúvida de Shakespeare. A apropriação de Machado também se revela pelo que busca rejeitar, como sua crítica ao naturalismo francês, visto como vulgar e sem foco nos dramas e motivações psicossociais dos personagens.

Subversivo na linguagem e nos temas, encontramos nesses ensaios o Machado que dialoga com suas leituras do passado na busca por um novo romance e um novo leitor. Encontramos assim, uma rede intertextual muito acima da realidade, uma biblioteca de Babel de sentidos e significados formados pela história da literatura sobre a contradição humana.

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Machado de Assis – Lido e relido
Organizador: João Cezar de Castro Rocha
Coedição: Alameda Editorial
Edição: 1.ª
Ano: 2016
Páginas: 752

 

 

 

 

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