A economia que pulsa e a riqueza que flui na obra de Giacomo Todeschini

Leo Pereira Muniz

Desde a Idade Média, noções econômicas são explicadas a partir de figurações linguísticas tidas como comuns no imaginário popular, especialmente na concepção europeia aplicada à economia. Partindo das figurações do dinheiro como sangue que circula no corpo econômico da sociedade e da riqueza como elemento que deve fluir e se distribuir como a água que fertiliza a terra, Giacomo Todeschini examina o desenvolvimento do pensamento econômico desde a Idade Média até a modernidade em sua obra Como a água e o sangue: origens medievais do pensamento econômico, lançamento da Editora da Unicamp.

Giacomo Todeschini é historiador italiano especializado em medievalismo. Formado pela Universidade de Bolonha, é atualmente professor de história medieval na Universidade de Trieste. Também foi professor visitante na Escola Normal Superior (Paris, 2001), pesquisador no Centro de Estudos Hebraicos e Judaicos de Oxford (Oxford, 2004/2005), membro do Instituto de Estudos Avançados de Princeton (Princeton, 2007/2008) e professor visitante no Departamento de História da Universidade de Pequim (Pequim, 2012). Seus estudos voltam-se principalmente ao desenvolvimento da teoria econômica e das línguas medievais.

O título integra a Coleção Estudos Medievais, coordenada por Néri de Barros Almeida, professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), graduada em História e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). A coleção reúne títulos que elaboram interpretações recentes capazes de ampliar a compreensão do passado medieval.

Como a água e o sangue divide-se em quatro partes, com três capítulos cada: a primeira, intitulada “Metáforas orgânicas do desenvolvimento econômico”, introduz e detalha as analogias construídas na história econômica europeia desde períodos pré-cristãos.

Para falar do dinheiro e de seu funcionamento ideal, há o hábito de imaginar a circulação regular de um fluxo dentro de um corpo. Essa imagem está tão enraizada na mente de quem pertence à cultura europeia e ocidental, que não exige explicações. Parece óbvio considerar que a saúde econômica ou física depende de uma circulação constante e controlada. Sua aceleração ou sua desaceleração levam imediatamente a pensar numa enfermidade, e sua parada, em morte. Desde tempos remotos e certamente a partir da Idade Média europeia, dinheiro e sangue, dinheiro e humores corporais, dinheiro e água, ou seja, dinheiro e líquidos vitais foram considerados semelhantes do ponto de vista de sua funcionalidade.

O autor dedica ainda essa parcela da obra a desenvolver a forma como essas analogias se associam a ideias teocêntricas pós-cristãs durante a Idade Média e à noção de “bem-estar” aplicada à economia.

Já a segunda parte, “A cidade com boa saúde”, dedica-se totalmente a desenvolver essa ideia de bem-estar e a examinar o que garante a condição de boa saúde do corpo econômico, com base na noção medieval de corpo social e místico, nas diferentes perspectivas de contrato e na saúde individual no contexto econômico.

O discurso econômico já medieval, entendido como representação do cuidado ao Corpo econômico ameaçado por todo o tipo de doenças que o desequilibrariam e o fariam definhar, indica, numa perspectiva teológico-moral e jurídica, a relação contratual, ou seja, o pacto codificado e escrito (“vestido”), mas também às vezes oral (“nu”), como forma de relação econômica capaz de garantir a equidade das trocas e, em última análise, a saúde da coletividade social e de mercado.

Já a terceira parte, “O Corpo econômico da sociedade moderna”, constrói uma ponte entre as concepções econômicas medievais e suas elaborações modernas, destacando a importância dessas construções simbólicas até os dias atuais em diferentes autores, textos, pensamentos e ideologias. A quarta parte, enfim, “Teologia econômica e economistas”, encerra o texto de Todeschini ao expor as assimetrias na ordem econômica vigente e aponta também as “vicissitudes históricas e linguísticas de algumas metáforas decisivas para a história da representação europeia e cristã da economia enquanto organização lógica do mundo”, que contribuem para a clareza e a construção da linguagem dos economistas modernos. A parte final reforça ainda a presença dessas metáforas em diferentes contextos, inclusive paradoxais, buscando apresentar as razões de sua permanência em diferentes tempos e espaços e a maneira como essa base medieval influencia os estudos econômicos atuais.

A compreensão da permanência das analogias presentes nos estudos econômicos medievais até os tempos atuais oferece um recurso linguístico fundamental para o entendimento da economia moderna e pós-moderna. O autor, Giacomo Todeschini, aborda o assunto com precisão em sua obra Como a água e o sangue, passando por concepções teológicas, jurídicas e de outras naturezas presentes nos textos de diferentes autores, sob diferentes ideologias e em diferentes tempos, com citações e análises de suas aparições. Sua pesquisa ocupa lugar fundamental nas estantes dos estudiosos de economia, principalmente daqueles que se dedicam aos estudos medievais e à história econômica, além de outros interessados em compreender mais acerca do assunto.

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Como a água e o sangue: origens medievais do pensamento econômico

Autor: Giacomo Todeschini

ISBN: 9788526819412

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 352

Dimensões: 16 x 23 cm

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