
Victor Shimabukuro Pastor
Todos sabemos que a língua é algo vivo. De expressões idiomáticas que caducam a sentidos e palavras inéditas, a língua, como qualquer outra entidade viva, se transforma e adquire novas formas. Pensando somente no português – descrito, certa vez, por Olavo Bilac como a “última flor do Lácio” –, um exemplo célebre pode ser encontrado no desenvolvimento do pronome você, que, derivado do pronome de tratamento “Vossa Mercê”, passa por diversas formas, como “vossemecê”, “vosmecê” e “vomecê” até chegar à sua forma atual.
Mas, para além da palavra, e a língua em si mesma? De onde vem e como toma a forma que hoje carrega?
Para responder a essa questão, voltaremos ao verso de Bilac. Se destrincharmos a construção “última flor do Lácio”, poderemos encontrar duas informações preciosas para compreender a natureza histórica da língua: a primeira delas remetendo à flor, a segunda ao Lácio. A imagem construída pelo substantivo flor nos remete à botânica e à estrutura biológica que permite o surgimento de novos indivíduos de dada espécie de planta. Vem, contudo, acompanhada de um adjetivo, última, que implica a existência de outras flores.
A essa imagem se associa um local. Região central da península itálica e seio da civilização romana, o Lácio, se associado ao português, nos permite rapidamente chegar à raiz da metáfora bilaquiana: o latim. Nomear o português como a “última flor do Lácio” equivaleria, portanto, a compreender o idioma como o último descendente dessa língua já há muito morta; último, pois a lista de línguas derivadas do latim é extensa – sem pensar muito, podemos nomear algumas, como o francês, o espanhol e o italiano.
É sabido que o português advém do latim; contudo, qual sua relação com esses outros idiomas? E, dessa relação, seria o latim sua verdadeira raiz? É nesse contexto que brota História das línguas românicas, lançamento da Editora da Unicamp.
Georg A. Kaiser é professor titular de Linguística Românica na Universidade de Constança (Alemanha), instituição onde, além de cursos regulares no Departamento de Linguística, mantém um programa de estudos românicos destinados à comunidade. Foi professor convidado em diversas universidades do mundo lusófono, como as universidades portuguesas do Minho e do Porto e, no Brasil, as universidades federais do Ceará e de Santa Catarina. Também foi professor convidado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É graduado e doutor pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), com pesquisa focada na área da sintaxe.
A tradução é assinada por Rodolfo Ilari, Renato M. Basso e Maurício Resende. Ilari, professor sênior do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp e membro fundador do Departamento de Linguística desse mesmo instituto, é doutor em Linguística pela Unicamp, com pós-doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA); Basso é mestre e doutor em Linguística pela Unicamp e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); e Resende é professor adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com doutorado e pós-doutorado em Linguística também pela Unicamp.
O objetivo de História das línguas românicas é, desde o prefácio, muito claro: apresentar, de forma didática e com escrita acessível e sucinta, o básico sobre a história das línguas românicas. Tal objetivo advém da compreensão de que o conhecimento dessa história, junto de um melhor entendimento das “estruturas e contextos linguísticos” dessa linhagem, pode fornecer insights importantes para o estudo de uma língua românica específica. Para isso, a obra adota o aspecto comparativo das línguas como elemento central do texto. Um último objetivo do livro está em despertar o interesse do público por questões relacionadas à Linguística Histórica e à história das línguas românicas.
Pensando nessa função introdutória, o texto se constrói a partir de três balizas fundamentais: 1 – a seriedade e a clareza no tratamento dos assuntos; 2 – a quantidade e a qualidade dos dados apresentados; e 3 – a noção de que os leitores podem não possuir conhecimentos prévios compreendidos como “lugares comuns” do campo, sobretudo quando se trata de fatos com raízes no latim. A isso se alia uma forma inovadora utilizada pela editora original (Editora Wilhelm Fink) em sua série UTN-Basics, que, pensando nos estudantes, apresenta um texto segmentado em diferentes partes compostas de resumos, definições diretas, citações, perguntas e questões motivadoras e digressões sobre o assunto – todas elas legendadas e sinalizadas em espaços específicos no decorrer do texto. Essa organização permite que o leitor se localize melhor no percurso construído pela obra, facilitando sua orientação e compreensão dos assuntos abordados. Um último ponto de interesse para o formato do livro está no robusto índice de assuntos que acompanha o volume, algo que possibilita a criação de verdadeiros roteiros de leitura no interior do livro, permitindo a construção de respostas completas a questões específicas. Um bom exemplo tanto do registro quanto da linguagem empregada no interior da obra pode ser visto no excerto a seguir, extraído do primeiro capítulo do livro.
O termo “Linguística Histórica” refere-se a uma subárea da Linguística, na qual, com o auxílio de métodos científicos, se procura, por um lado, responder perguntas relativas à origem da(s) língua(s) investigada(s) e, por outro, descrever e explicar os processos de mudança dessa(s) língua(s). Essas tentativas de explicação levam em conta, simultaneamente, tanto fatores externos à língua – em particular, os acontecimentos históricos – quanto internos. A disciplina que se dedica a essas questões é chamada Linguística Histórica ou Linguística Diacrônica.
Passando, então, para os temas abordados pela obra, teremos de início um rico panorama da Linguística Histórica Românica, conteúdo do primeiro capítulo. O segundo capítulo é dedicado a questões mais gerais desse campo e a demonstrar, a partir de abordagens teóricas selecionadas, como se podem explicar e descrever processos histórico-linguísticos. Já o terceiro capítulo discorre sobre a classificação dessas diferentes línguas românicas no interior da família linguística indo-europeia a partir de suas estruturas.
O grosso do livro se dá, contudo, a partir do quarto capítulo, no qual nos é apresentado o latim vulgar, considerado ponto de partida para o desenvolvimento dessas línguas. O quarto capítulo enfoca essa vertente do latim, base para toda a família de línguas românicas, para, então, no quinto capítulo, serem apresentadas suas peculiaridades – segmentadas em quatro grandes linhagens: particularidades fonético-fonológicas, morfológicas, sintáticas e lexicais – quando comparado ao latim clássico.
Por fim, nos últimos dois capítulos há uma análise e uma reflexão sobre os desenvolvimentos sofridos por cada uma dessas línguas. No capítulo seis, portanto, se constrói uma análise detalhada dos principais e mais importantes desenvolvimentos observados na fragmentação das línguas românicas, como, por exemplo, desenvolvimentos no domínio de consoantes e vogais ou no domínio de verbos e nomes; no sétimo, vemos uma discussão sobre possíveis razões para esses desenvolvimentos, que passam pelos efeitos da romanização e pelas influências de línguas estrangeiras.
Mesmo voltado principalmente para pessoas que estudam línguas românicas como parte de programas de bacharelado ou licenciatura, História das línguas românicas, pela riqueza de seu conteúdo, ultrapassa barreiras e se põe como leitura indispensável não só para estudantes, pesquisadores e professores, mas para qualquer entusiasta ou interessado nas áreas das linguagens e da história.
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História das línguas românicas
Autor: Georg A. Kaiser
Tradução: Rodolfo Ilari, Renato M. Basso e Maurício Resende
ISBN: 9788526819252
Edição: 1ª
Ano: 2026
Páginas: 400
Dimensões: 23 x 16 cm