Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “O maldito no feminino”

Em entrevista ao Jornal da Unicamp, a autora comenta o processo de criação e os critérios que orientaram a escolha das obras e dos autores analisados.

Jornal da Unicamp – Como surgiu a ideia de escrever O maldito no feminino e como foi o processo de criação do livro?

Maria Lúcia Dal Farra – Sempre me interessei pela escrita literária feminina, até porque também a pratico e me sinto afetada pelos preconceitos que historicamente a cercam. Desde o início da minha vida acadêmica, acompanho de perto a obra da poetisa portuguesa Florbela Espanca [1894—1930], que atravessou um verdadeiro calvário de maledicências durante sua vida literária. Sempre me perguntei que “crimes” ela teria cometido para ser tratada com tamanha hostilidade, sobretudo, após sua morte.

Essa inquietação me levou a investigar outras escritoras em língua portuguesa e a perceber reações semelhantes diante da poesia das brasileiras Gilka Machado e Yde Schlöenbach Blumenschein, conhecida como “Colombina”, e da portuguesa Judith Teixeira. Todas foram duramente criticadas por praticarem uma escrita livre, muitas vezes de contornos eróticos. Percebi, então, que esse tipo de reação não surgia do nada. No século 19, [o poeta francês Paul] Verlaine já havia formulado a ideia de “maldição” literária, não como algo negativo, mas como uma forma de transgressão capaz de desafiar as normas sociais. Entre os autores que ele menciona, aparece apenas uma mulher: Marceline Desbordes-Valmore. A partir daí, ampliei a pesquisa, retrocedendo na literatura de língua portuguesa até os livros de linhagem, do século 14, e avançando até a contemporaneidade.

Jornal da Unicamp – Quais critérios orientaram a escolha dos autores e textos analisados no livro?

Maria Lúcia Dal Farra – O objetivo foi fazer um recorte histórico dentro das literaturas de língua portuguesa. No entanto, para compreender melhor o conceito de “maldito”, também foi necessário considerar influências de outras tradições literárias. Por isso, recorri a autores como Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire, cujas teorias estéticas valorizam o grotesco, o anormal e os mundos artificiais – elementos associados ao “maldito”. Também examinei o papel de Verlaine e de Marceline Desbordes-Valmore nesse debate.

Outro ponto interessante foi perceber como a própria escrita masculina construiu certas imagens do “maldito”. Um exemplo é o modernista português Mário de Sá-Carneiro, que em A confissão de Lúcio reúne personagens inspiradas em bailarinas do início do século 20 associadas a uma ideia de transgressão.

Jornal da Unicamp – Ao observar produções da Idade Média à contemporaneidade, que semelhanças ou diferenças aparecem nas representações do “maldito” no feminino?

Maria Lúcia Dal Farra – Simplificando uma questão complexa, percebi que desde a Idade Média existem duas grandes imagens no feminino. De um lado está a mulher associada ao modelo de Maria, símbolo de pureza. De outro, aparece a figura ligada a Lilith, considerada “maldita” e associada à bruxaria — visão reforçada, por exemplo, pelo Malleus Maleficarum, um manual da Inquisição. Esses modelos continuam a aparecer, com variações, até hoje. Ao mesmo tempo, o repertório contemporâneo do “maldito” feminino se amplia e passa a incluir outras identidades e experiências, como as expressões homoeróticas ou bissexuais.

Há, ainda, interpretações críticas que associam essa figura à própria modernidade. A partir de fragmentos de Walter Benjamin, por exemplo, é possível que, se o herói moderno é um anti-herói, frequentemente representado pelo poeta trágico, a figura feminina correspondente poderia ser a da lésbica, entendida como uma espécie de anti-heroína da modernidade.

Jornal da Unicamp – Que impactos essa “maldição literária” ainda provoca nas condições femininas da atualidade?

Maria Lúcia Dal Farra – Hoje, essa condição muitas vezes é apropriada pelo próprio mercado cultural. Aquilo que antes era visto como marginalidade passa a funcionar como um valor comercial, uma espécie de marca de distinção capaz de atrair leitores.

Um exemplo emblemático é o caso de Florbela Espanca. A forma como sua obra foi explorada após sua morte revela situações bastante problemáticas. Acompanhei de perto as negociações envolvendo o espólio da autora e vi como interesses comerciais acabam prevalecendo. Em determinado momento, chegou-se a ameaçar fragmentar o acervo para obter maior lucro no mercado editorial. Além disso, foram publicadas edições de sua obra completa organizadas de maneira bastante questionável, com datas e disposições de poemas alteradas.

Assim, enquanto Florbela passou a ser celebrada como uma “maldita” no sentido produtivo que discuto no livro, houve também quem se aproveitasse dessa imagem de forma oportunista. Nesse caso, a verdadeira “maldição” talvez esteja menos na autora e mais na exploração comercial de sua obra.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

O maldito no feminino: a escrita literária transgressiva em língua portuguesa

Autora: Maria Lúcia Dal Farra

ISBN: 9788526817685

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 448

Dimensões: 16 x 23 cm

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