Troca-se a lente, muda-se a História

Victor Shimabukuro Pastor

Um leitor de poesia provavelmente está familiarizado com o costume de capitalizar certos substantivos para lhes conferir maior destaque ou uma segunda camada interpretativa. Falar do amor, portanto, pode não ser necessariamente o mesmo que discutir o Amor. Longe do campo poético, essa prática também aparece em outros contextos, como no trabalho sobre a História e a história. 

Tradicionalmente, a História, grafada com inicial maiúscula, pode remeter ao campo da historiografia, às narrativas oficiais e ao trabalho da disciplina histórica como um todo. Já a história, em caixa baixa, permite evocar as pequenas narrativas: histórias infantis, histórias em quadrinhos ou histórias daqueles que não ocupam posições de poder. 

É com o advento da Escola dos Annales que observamos uma importante mudança de perspectiva. Ao voltar seu olhar para outras entradas possíveis de análise – como estruturas econômicas, sociais e culturais –, esse movimento desloca o foco da História para sujeitos antes apagados pelas grandes narrativas. Com essa virada, desenvolve-se uma ampla gama de estudos voltados a esses agentes históricos, desconstruindo pressupostos que antes organizavam a História tradicional. Entram em cena as críticas aos apagamentos produzidos pelo fazer historiográfico e conceitos como agência, novos sujeitos e novos paradigmas. 

É nesse horizonte interpretativo que surge O escravismo de ponta-cabeça: a força das senzalas, racialização, classe e paternalismo, novo volume da Coleção Várias Histórias

A organização do livro reúne Antonio Luigi Negro, doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de História na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Elciene Rizzato Azevedo, também doutora pela Unicamp, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e autora de Orfeu de carapinha, outro volume da Coleção Várias Histórias; Felipe Azevedo e Souza, professor do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutor em História Social pela Unicamp; Fernando Teixeira da Silva, professor titular do Departamento de História da Unicamp; e Juliana Barreto Farias, professora da licenciatura em História na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). 

A proposta de O escravismo de ponta-cabeça é direta: construir um panorama consistente da renovação dos estudos sobre a escravidão. Ao longo de dez capítulos, a obra sustenta reflexões que incorporam, entre outros temas, processos de racialização, experiências de classe e dinâmicas de gênero. O mérito do projeto está justamente em conseguir articular múltiplas frentes analíticas e convergi-las para um ponto central: as senzalas, compreendidas como núcleo do sistema escravista. O estudo, contudo, não se limita a esse recorte espacial e costura, entre os capítulos, demonstrações sobre como formas locais de agência podem afetar o desenrolar de transformações históricas mais amplas.

A obra organiza-se em quatro partes, estruturadas por uma lógica interna própria, mas sem abandonar diálogos transversais entre os temas abordados. São elas: “As tredas senzalas”, “Liberdade, igualdade e insurgência em tempos beligerantes”, “A reprodução e a persistência do escravismo” e “Remissivas senzalas”. 

Em “As tredas senzalas”, são apresentadas perspectivas inovadoras sobre um tema clássico da historiografia: a rebeldia escrava. Com foco na agência dos sujeitos escravizados, essa primeira parte percorre diferentes experiências de insurgência em distintas regiões do país, em um método alinhado ao defendido pelos organizadores na apresentação da obra: “A retomada dessa perspectiva centrada na agência nos permite conceber o potencial transformador dos incêndios de lavouras e casarões senhoriais em ações que impactam diretamente as expectativas sobre o futuro da escravidão e sua rentabilidade”.

Já em “Liberdade, igualdade e insurgência em tempos beligerantes”, os capítulos voltam-se ao contexto internacional do continente americano no século XIX e à circulação de informações entre populações escravizadas e homens livres de cor. 

A terceira parte, “A reprodução e a persistência do escravismo”, reúne análises quantitativas sobre centros produtores de café e cana-de-açúcar em São Paulo e na Bahia. Os capítulos se destacam pela forma como tensionam interpretações já consolidadas, sobretudo no que diz respeito às relações de maternidade nas senzalas e à perpetuação do trabalho escravizado durante a expansão dos cafezais paulistas até os momentos finais do escravismo.

Por fim, em “Remissivas senzalas”, observa-se um deslocamento em relação às partes anteriores. Em vez de tomar as insurgências escravas como contraponto do domínio senhorial, os estudos concentram-se no período pós-abolição, especialmente nas permanências do paternalismo senhorial, demonstrando a força de suas estruturas e sua capacidade de reinvenção. Como apontam os organizadores:

Desfeitas as hierarquias de classe e raça sustentadas pelo escravismo, é na memória, por vezes afetiva ou nostálgica, do paternalismo senhorial que os autores observam novos significados atribuídos aos direitos e deveres entre patrões e seus trabalhadores na busca de um novo ordenamento social.

Retomando a organização da coletânea, a escolha por uma seção dedicada às relações de dominação após o fim da escravidão fortalece o conjunto da obra, conferindo mais densidade às análises apresentadas anteriormente e às suas implicações historiográficas. Ao mesmo tempo, ajuda a costurar os capítulos, demonstrando que os estudos reunidos não se limitam à descrição das relações senhoriais, mas propõem novas perspectivas para compreender as dinâmicas da escravidão no século XIX.

A obra, portanto, constitui uma leitura valiosa para interessados na temática da escravidão e da agência negra e na área da história social como um todo, mas não apenas. Pesquisadores e leitores voltados a estudos quantitativos, a memória histórica, a circulação de ideias e a história do Brasil e das Américas também encontrarão, no livro, discussões relevantes. 

Para conhecer mais sobre o título, visite nosso site!

O escravismo de ponta-cabeça: a força das senzalas, racialização, classe e paternalismo

Organização: Antonio Luigi Negro, Fernando Teixeira da Silva, Felipe Azevedo e Souza, Juliana Barreto Farias e Elciene Rizzato Azevedo

ISBN: 9788526818736

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 512

Dimensões: 21 x 14 cm

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