
No livro Biotempo: origem e evolução do relógio biológico, o pesquisador Tiago Gomes de Andrade explica conceitos da cronobiologia – campo da ciência que estuda os ritmos biológicos – de uma forma descomplicada, utilizando uma linguagem clara e acessível. Em entrevista ao Jornal da Unicamp, o autor explica como sua obra propõe novos rumos para os estudos do ciclo circadiano, além de apresentar reflexões relevantes sobre as relações entre o ser humano e o ambiente. Confira a seguir.
Jornal da Unicamp – Qual é o leitor para quem seu livro foi pensado e de que forma você definiria, brevemente, o conceito de biotempo?
Tiago Andrade – Biotempo é um neologismo: uma tentativa de capturar simbólica e linguisticamente uma propriedade dos organismos vivos que é ubíqua, ou seja, está presente em todos os grupos filogenéticos – de bactérias a baleias-azuis – e que compreende os ritmos biológicos. Trata-se de um programa genético herdado evolutivamente, capaz de produzir repetições periódicas [na fisiologia e no comportamento] que são harmonizadas com os ciclos ambientais diurnos, mensais e sazonais, entre outros. O livro foi pensado para leitores interessados em biologia e evolução. Como foi escrito em linguagem acessível, pode ser compreendido como uma obra de divulgação científica, mas também traz exemplos, conceitos e hipóteses que podem ser explorados em sala de aula – do ensino médio à pós-graduação.
Jornal da Unicamp – Como a obra pode ajudar as pessoas a compreender o funcionamento do próprio corpo ao longo das 24 horas do dia?
Tiago Andrade – Os ritmos circadianos, que produzem uma ritmicidade de aproximadamente 24 horas e são sincronizados por pistas temporais ambientais como o ciclo claro/escuro, além dos horários de alimentação e de atividade física, são produto de uma longa história evolutiva. Estamos falando, provavelmente, de bilhões de anos de evolução do relógio biológico. Compreender essa dimensão histórica da nossa biologia, forjada na interrelação com um mundo natural cíclico, amplia a compreensão dos impactos da vida moderna sobre nossa fisiologia e nossos comportamentos.
Muitas doenças metabólicas e psiquiátricas decorrem da perturbação do relógio biológico por fatores externos, um fenômeno chamado cronodisrupção. Nosso DNA contém “genes-relógios”, que regulam pelo menos 50% do genoma. Portanto, não podemos ignorar o relógio biológico. O livro contribui para situar essa discussão em um contexto ecológico e histórico, além de descrever aspectos estruturais e funcionais do relógio biológico, na espécie humana e em outras.
Jornal da Unicamp – De que forma o livro abre caminhos para novos estudos sobre os relógios biológicos das espécies?
Tiago Andrade – A incorporação da cronobiologia à pesquisa abre perspectivas para uma melhor compreensão dos fenômenos estudados. Seja a pesquisa de natureza ecológica ou biomédica, realizada com espécies selvagens, modelos animais e pacientes – ou mesmo em comparações entre eles. O livro contribui nesse sentido formativo.
Apresento também algumas hipóteses ainda pouco exploradas na literatura científica, como a possibilidade de uma continuidade evolutiva do relógio biológico entre procariotos e eucariotos, que contrasta com a visão, talvez majoritária, da convergência evolutiva. Outro exemplo seria a contribuição potencial da endossimbiose [relação simbiótica na qual um organismo vive dentro de outro] nesse mesmo cenário. Concordando-se ou não com essas hipóteses, acredito que elas podem fomentar um debate qualificado e estimular novas pesquisas.
Jornal da Unicamp – Como a obra pode impactar o meio acadêmico e contribuir para a formação de novos profissionais da área?
Tiago Andrade – A cronobiologia é uma disciplina que ainda carece de um espaço maior nos currículos das áreas biológicas e da saúde. Apesar da relevância da dimensão temporal para o entendimento da vida e, no contexto clínico e da fisiopatologia, de seus impactos sobre o diagnóstico e tratamento, muitos profissionais são formados sem contato com conceitos, paradigmas e terminologias da área, que vai muito além da fisiologia do sono. O livro se soma a uma literatura já existente, mas ainda escassa, especialmente no que diz respeito à temática central da obra, que é a evolução. E, como disse [Theodosius] Dobzhansky [geneticista e biólogo evolutivo ucraniano], “nada em biologia faz sentido senão à luz da evolução”. Incluindo os problemas médicos.
Jornal da Unicamp – Ao relacionar o biotempo às interações entre o ser humano e o ambiente, como podemos pensar os impactos das ações humanas nos fenômenos cíclicos das espécies?
Tiago Andrade – Essa é uma questão importante e ainda pouco refletida pela sociedade. Se a dinâmica temporal da vida social impõe impactos ao nosso organismo – tais como acordar mais cedo do que o ideal, expor-se à luz noturna e se alimentar tardiamente –, nossas cidades afetam a vida selvagem. Diversas pesquisas mostram o efeito da atividade humana, especialmente da poluição luminosa, sobre o comportamento circadiano e sazonal de diferentes espécies. Como resultado, há um deslocamento da fase de atividade desses animais. Em geral, para uma maior noturnidade.
Além disso, o aquecimento global interfere no alinhamento que deveria ocorrer entre a duração do dia e a temperatura, dois fatores cruciais para várias espécies sazonais. Tudo isso impacta a adaptabilidade dos organismos e produz consequências degradantes em larga escala, com possíveis repercussões evolutivas.
Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.
Biotempo: origem e evolução do relógio biológico
Autor: Tiago Gomes de Andrade
ISBN: 9788526817333
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 176
Dimensões: 14 cm x 21 cm