Victor Shimabukuro Pastor
Assim como muitas – ou quase todas – das outras instituições que compõem o aparato estatal brasileiro, as universidades no país constituíram-se a partir da transposição de modelos europeus. Esse transplante, contudo, não se limitou às formas de organização institucional: também foram incorporadas as diferentes tradições de pensamento desenvolvidas no interior do velho continente. As missões francesas durante os primeiros anos da Universidade de São Paulo (USP), sobretudo no campo das humanidades, constituem um exemplo emblemático dessa relação – enquanto, nas ciências exatas, a influência maior coube a pesquisadores alemães. Ao voltarmos o olhar para outro contexto historiográfico, torna-se igualmente perceptível que algumas das maiores violências produzidas pela humanidade emergem dessas mesmas tradições de pensamento. Trata-se de uma tradição que não apenas fomentou tais violências, mas também buscou soterrá-las.
É a partir desse veio crítico que Gabriel Philipson constrói, com e por Vilém Flusser, uma crítica ao fazer filosófico no Brasil, ponto central de Destinações da filosofia: as quase-poesias de Vilém Flusser entre parênt(es)es e esperas.
Gabriel Salvi Philipson é doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além de bacharel e licenciado em Filosofia e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP). Realizou estágio de pesquisa na Freie Universität Berlin, na Alemanha, onde atuou como pesquisador e professor visitante do Flusser-Archive Berlin, vinculado à Universität der Künste Berlin. Também traduziu obras de Schopenhauer, Nietzsche, Byung-Chul Han, Weber e Flusser e, atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado em Estudos da Linguagem na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Originário da tese de doutorado desenvolvida por Philipson no Brasil e no exterior, Destinações da filosofia propõe – nas palavras do autor – um trabalho “sobre os textos menores de Flusser e sobre como uma análise literária e filosófica dessas produções aponta para uma reinterpretação de sua obra como um todo”. É dessa análise, situada na fronteira entre filosofia e literatura, que surge o conceito central para a construção do livro-tese: a filosofia do exílio.
Conceito que atravessa toda a obra, a filosofia do exílio é apresentada no subcapítulo “Rebeldia e filosofia do exílio” por meio de uma descrição do percurso realizado para sua formulação:
Mesmo com suas limitações e apesar delas, a prática filosófica escritural de Flusser foi se desenhando nessa leitura literária como uma atividade filosófica experimental rebelde, radical, insubordinada, inconformista, alternativa e subversiva. Ela foi demonstrando a recusa a padrões e a capturas, ou por vezes se deixou capturar apenas para desarticular os termos da captura.
O autor tece, então, por meio de (des)caminhos sinuosos, uma crítica aos métodos e ao fazer pesquisa nas humanidades no Brasil, debatendo os limites da própria disciplina. É assim que se elabora sua “crítica descolonial e antirracista das práticas filosóficas nestas terras”, como nomeia na introdução do livro. O termo-chave dessa formulação está em descolonial, conceito descrito pelo autor, já na conclusão, como “adequado para adjetivar propostas caracterizadas por desafiar estruturas de poder”.
Quanto à estrutura, o livro organiza-se como uma série de ensaios mais ou menos articulados entre si, orbitando um tema comum: Flusser e sua filosofia do exílio. Divide-se, assim, em cinco grandes seções (ou ensaios): “Destinações da filosofia”; “Estilos de Flusser”; “Por que sou tão…? Parênteses parentes”; “Assembleia de espíritos”; e “Escrever, (sobre)viver, experimentar, escapar”. Esses capítulos percorrem desde a escrita de Flusser e suas conexões com teorias descoloniais até a materialidade dos espaços e formas de sua escritura. No terceiro capítulo, por exemplo, o autor aproxima Flusser de Oswald de Andrade, discutindo seus fazeres filosóficos e os espaços ocupados por ambos, especialmente o jornal impresso.
O texto opera, então, a partir de um método atípico, estruturado sobre um triplo eixo: diacrônico, responsável por uma análise comparativa de cunho histórico da obra; arqueológico, voltado ao resgate de elementos da filosofia de Flusser relevantes para a construção da crítica descolonial e antirracista pretendida pelo autor; e sincrônico, que atravessa a produção textual flusseriana em diálogo com a bibliografia crítica e com as urgências do presente.
Longe de seguir uma metodologia rígida, contudo, Philipson trabalha de maneira mais fluida, acompanhando os movimentos da própria filosofia que busca tensionar. Seu princípio de leitura percorre as entrelinhas, friccionando espaços em branco, atravessando-os e recortando-os transversalmente na busca pelos não ditos – lendo “seus corpora pelo fluxo de desejos” –, em uma “leitura literária (e não retórica) da filosofia, interessada no fluxo desejante do texto”. Trata-se, portanto, de uma espécie de dança em torno da fórmula “destinação = errância”, mobilizada diante dos diferentes temas e contextos apresentados ao longo dos capítulos.
Retornando à apresentação do livro, encontramos, já em sua segunda página, um aspecto importante de Destinações da filosofia:
Em uma época em que o meio acadêmico está cada vez mais preocupado com a localização e especificação do conhecimento, o trabalho de Gabriel S. Philipson volta-se particularmente para o futuro, ao questionar os limites de sua própria disciplina e conectar disciplinas muito diferentes de uma forma muito convincente.
Para além de sua crítica ao fazer científico ocidental, o livro adquire relevância pela maneira como articula diferentes campos do saber e constrói sua própria investigação. A inovação, assim, manifesta-se tanto na forma quanto no método.
Nesse sentido, Destinações da filosofia: as quase-poesias de Vilém Flusser entre parênt(es)es e esperas apresenta-se como uma obra relevante para leitores interessados não só na filosofia e na literatura, mas também nos processos de escrita e produção do conhecimento nas ciências humanas de maneira mais ampla. Sua metodologia e sua abordagem interdisciplinar fazem do livro uma leitura especialmente rica para pesquisadores dos estudos literários, da filosofia e da materialidade que atravessa esses campos.
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Destinações da filosofia: as quase-poesias de Vilém Flusser entre parênt(es)es e esperas
Autor: Gabriel Salvi Philipson
ISBN: 9788526818224
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 352
Dimensões: 23 x 16 cm