
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Jornalista, cronista, contista e romancista, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) tornou-se um dos nomes mais populares e estudados da literatura nacional. Sua participação ativa na vida intelectual carioca foi marcada por inúmeras críticas a obras de grandes escritores da época, como Eça de Queirós e seu romance O Primo Basílio. Apesar de elogiar o estilo da obra, Machado criticou duramente a construção da personagem Luísa, apontando a escassez de aprofundamento psicológico. Além disso, manteve colunas em jornais como o Diário do Rio de Janeiro e a Gazeta de Notícias e escreveu textos sobre questões de nacionalidade, além de teorias sobre o conto e o romance. Assim, sua atuação como crítico contribuiu para uma transformação significativa no cenário literário e cultural brasileiro.
Por meio da análise de obras de terceiros e da popularidade alcançada por essas críticas, Machado auxiliou na construção de uma identidade para a literatura nacional. O contexto sociocultural, político e econômico passou a ser abordado em inúmeros textos de diferentes autores, inclusive nos do próprio escritor, sem que essas temáticas recaíssem em clichês ou banalizações. Dessa forma, obras características do Romantismo, marcadas pelo sentimentalismo exagerado, pela idealização, pela exaltação da natureza e pelo resgate das tradições populares, abriram espaço para textos pautados pela objetividade, pela ironia, pela crítica social, pela análise psicológica e, principalmente, pelos temas urbanos. Cronologicamente, essa transição literária do Romantismo para o Realismo no Brasil é marcada pela publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881.
Iniciada com uma dedicatória peculiar – “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas” –, a obra é narrada pelo icônico defunto-autor Brás Cubas. Por meio dessa inovadora forma de narração, o romance apresenta a perspectiva única e irônica de alguém que, por estar morto, possui o privilégio da franqueza e, assim, liberdade para expor em detalhes as estruturas sociais do Rio de Janeiro da época. Na narrativa, Brás Cubas conta sua trajetória, marcada pela mediocridade e pela busca incessante de realização pessoal e reconhecimento social, na tentativa de encontrar algum júbilo para sua existência no além-vida. Entretanto, após um longo percurso permeado por negativas, hipocrisias e niilismos, o defunto-autor encontra consolo em não ter deixado descendentes e, consequentemente, em não transmitir sua miséria a outros.
Apesar de ser repleta de detalhes e reflexões sobre a sociedade fluminense do período, Memórias póstumas de Brás Cubas tornou-se um romance atemporal. Após 145 anos de sua primeira publicação em livro – o título foi lançado originalmente em capítulos de jornal ao longo de 1880 –, a obra segue constantemente revisitada e estudada, gerando novos debates e reflexões não somente sobre literatura, mas também sobre as estruturas sociais.
Diante da importância do romance para o cânone literário brasileiro e de sua permanência ao longo do tempo, a Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) incluiu o título na lista de leituras obrigatórias do Vestibular Unicamp para os anos de 2027, 2028 e 2029. Pensando nisso, a Editora da Unicamp preparou uma edição especial da obra, com apresentação de Lucia Granja, para auxiliar os estudantes na preparação para a prova.
Professora titular de literatura brasileira no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp), Lucia Granja construiu grande parte de sua trajetória acadêmica na Universidade. Graduada em Letras, com mestrado e doutorado em Teoria e História Literária, a pesquisadora dedicou seus estudos à compreensão da obra de Machado de Assis e de suas relações com o mercado editorial. Atualmente, investiga as crônicas do escritor e os diálogos entre jornalismo e literatura na produção machadiana. Sua trajetória inclui ainda passagens por importantes universidades europeias, como a Sorbonne Nouvelle, em Paris, e a Universidade Nova de Lisboa.
Por conta de sua vasta expertise na obra de Machado de Assis, a Editora da Unicamp convidou a professora e pesquisadora para elaborar a apresentação da nova edição de Memórias póstumas de Brás Cubas. Nesse texto introdutório, o romance é abordado sob diferentes perspectivas, que buscam não somente elucidar a obra, mas também expandir o entendimento do leitor para além do texto literário.
Estamos diante de um escritor que lutou para publicar e manter os direitos autorais sobre suas Memórias póstumas de Brás Cubas transformadas em livro; estamos também diante de uma alta consciência sobre a relação entre texto e suporte, com olhar apurado para a forma “livro” e para todo o processo de produção editorial.
A apresentação oferece uma rica leitura bibliográfica de autores críticos da obra machadiana, além de uma análise teórica aprofundada e de um panorama abrangente do contexto sociocultural da época, tudo isso em linguagem clara e acessível. Dessa forma, permite que leitores diversos, sejam estudantes em preparação para o Vestibular Unicamp, professores da área de Humanidades ou interessados em literatura, compreendam plenamente a obra e estabeleçam diálogos entre o romance e os pilares fundamentais da ficção ocidental do período, além de se preparem para trabalhá-lo em diferentes contextos.
Para além de Memórias póstumas de Brás Cubas, o catálogo da Editora da Unicamp reúne diversas outras obras do autor, como Casa Velha – integrante da Série Leitura Obrigatória para o Vestibular Unicamp, com apresentação de Paulo Franchetti –, além da Série Crônicas de Machado de Assis, composta de edições comentadas por especialistas e títulos dedicados aos aspectos teóricos da produção machadiana.
Para conhecer mais sobre o livro, acesse nosso site!

Memórias póstumas de Brás Cubas
Autor: Machado de Assis
Apresentação: Lucia Granja
ISBN: 9788526819023
Edição: 1ª
Ano: 2026
Páginas: 384
Dimensões: 14 x 21 cm