
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Paixão possui mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado em Teoria e História Literária pela Unicamp. Atualmente, é docente de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais na Educação, da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. Na entrevista a seguir, o autor comenta as motivações por trás da obra e compartilha algumas das contribuições do pensamento de Williams para a manutenção da democracia nos dias atuais.
Jornal da Unicamp – Quais foram as principais motivações para a escolha dos temas abordados no livro?
Alexandro Paixão – O livro é o resultado de uma tese de livre-docência defendida na Faculdade de Educação da Unicamp em novembro de 2023. É fruto de dez anos de pesquisa, dedicada ao estudo dos escritos inéditos de Raymond Williams [1921–1988] sobre a educação, em grande parte financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo [Fapesp]. Uma das minhas primeiras realizações foi encontrar esse material nos Arquivos Richard Burton, da Universidade de Swansea, no País de Gales, em 2015. Isso me motivou a iniciar um trabalho de organização, tradução e análise dessas fontes primárias, a fim de apresentar uma parte da produção intelectual de Williams ainda desconhecida não apenas pelo público em geral, mas também por educadores, sociólogos e críticos.
Jornal da Unicamp – De que forma a obra contribui para ampliar os estudos sobre a produção de Williams e sua relação com a educação?
Alexandro Paixão – A relação de Williams com a educação, especialmente com a educação de adultos, ainda é um tema praticamente inédito em língua portuguesa. Em inglês e espanhol há outras obras, mas em português contávamos apenas com alguns artigos, sem que houvesse um livro que sistematizasse o assunto. Isso significa que apresentamos uma produção original sobre educação a partir da perspectiva do autor. Seu projeto pedagógico consistia em dotar as pessoas dos significados comuns e das habilidades necessárias para viverem e se desenvolverem em sociedade. Segundo ele, a ignorância de qualquer ser humano nos diminui, e a capacitação de todos amplia nossos horizontes coletivos.
Jornal da Unicamp – Qual é a importância da perspectiva de Williams para os debates atuais sobre educação e democracia?
Alexandro Paixão – O tema central do livro é a relação entre educação e democracia, um dos grandes impasses tanto da época de Williams quanto da nossa. Embora ele não trate do Brasil, já que seu contexto era outro, suas reflexões sobre a necessidade de uma sociedade mais educada e participativa são decisivas. Para Williams, a educação não é treinamento para o emprego, mas um processo de formação de cidadãos conscientes, ativos e úteis, pois ele acreditava profundamente na democracia. Tutor na educação de adultos e, posteriormente, professor universitário em Cambridge, ele defendia a educação popular. Para ele, um processo educacional democrático efetivo é aquele que oferece, primeiro, meios educacionais imediatos – como fala, escrita e leitura desenvolvida – e, depois, uma formação humanística e especializada completa.
Jornal da Unicamp – Qual é o papel da educação em nossa sociedade, especialmente diante dos desafios contemporâneos, como as redes sociais e a inteligência artificial?
Alexandro Paixão – É necessário repensar o currículo do século 21, sobretudo em função das novas tecnologias. No entanto, o projeto pedagógico crítico permanece o mesmo: oferecer uma educação humanística para todos. Vivemos um momento de grande expansão das tecnologias de comunicação e, ao mesmo tempo, estamos descobrindo suas contradições. Na época de Williams, o rádio e a televisão representavam desafios culturais semelhantes, por se tratar de instituições de comunicação segregadoras, estruturadas na propriedade privada. Ele defendia a participação estatal e compreendia a comunicação não como uma troca lucrativa de informações, mas como um processo que envolve instrução de alto nível humano e tecnológico – afinal, comunicação é educação. Caso contrário, é preciso repensá-la.
Jornal da Unicamp – Como seu livro pode colaborar para uma melhor recepção da obra de Williams no Brasil?
Alexandro Paixão – A defesa da educação popular, o método de ensino baseado na “discussão” e os temas abordados por Williams em suas aulas – como cultura, sociedade, arte, cinema, tecnologia e ecologia – serviram de base para a produção de obras fundamentais, como Cultura e sociedade, O campo e a cidade e Communications [este, inédito no Brasil]. Isso significa que o leitor encontrará, no livro, as referências que sustentam tanto o projeto intelectual de Williams nos estudos culturais quanto seu projeto político, denominado “a longa revolução democrática”. Considero que já não é possível ler Cultura e sociedade, sua obra capital, sem levar em conta seus escritos sobre educação.
Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.
Autor: Alexandro Henrique Paixão
ISBN: 978-85-268-1797-5
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 160
Dimensões: 14 cm x 21 cm