
Victor Shimabukuro Pastor
Nas grandes arenas e festivais, nos bares e bodegas, nas caixas de som dos carros e dos celulares, em fones de ouvido ou espalhada pelo ambiente, a música é presença constante em nossas vidas. Movimentando toda uma indústria, já se passou o tempo em que a música se comportava apenas como forma de arte e sociabilidade; mesmo com sua inserção nas lógicas mercadológicas do capitalismo tardio, contudo, não deixou de carregar sua importância social e cultural.
O fazer e o vivenciar musicais constroem-se em diversos níveis e de diferentes maneiras, muitas delas ainda por serem descobertas e estudadas. É nesse horizonte que Musicar local: trilhas para estudos musicais se insere, ao abrir novos caminhos a serem explorados por musicólogos, etnomusicólogos e cientistas sociais.
Organizado por Suzel Ana Reily – doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professora titular de etnomusicologia do Departamento de Música da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) –, Flávia Camargo Toni – professora titular da USP e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros dessa instituição – e Rose Satiko Gitirana Hikiji – professora livre-docente do Departamento de Antropologia da USP e coordenadora do grupo Pesquisas em Antropologia Musical (PAM) e do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa-USP) –, Musicar local se desenvolve como um ambicioso projeto de etnomusicologia voltado a pensar a performance musical em relação ao espaço.
Musicar local parte, portanto, de dois conceitos básicos – o de musicar e de local (ou localidade) –, a fim de explorar suas interações. Essas categorias, maleáveis e amplamente debatidas, têm suas balizas teóricas apresentadas já na introdução do livro: o musicar como qualquer forma de engajamento com a música – escolha justificada pela intenção de explorar os limites do que pode ser considerado música – e o local como ideal de vivência e convivência em comunidade, baseado na ideia de Raymond Williams sobre estruturas de sentimento.
Mais do que os conceitos isolados, contudo, o destaque do estudo está em sua articulação: “como o musicar é impactado pelo local?” e “como o local é impactado pelo musicar?”. Essas são as duas questões centrais da obra. Um esquema elucidativo desse arcabouço teórico pode ser encontrado no prefácio desta edição, escrito por Anthony Seeger:
Com efeito, o fazer musical local diz respeito a como os indivíduos e os grupos, em qualquer lugar, criam espaços sonoros, grupos sociais e experiências profundamente marcantes de forma coletiva, por vezes nos lugares mais inesperados.
A forma como o livro se estrutura é tão inovadora quanto suas bases teóricas. Resultado de um projeto coletivo de pesquisa realizado ao longo de seis anos, envolvendo mais de 80 pesquisadores, Musicar local apresenta dez capítulos escritos coletivamente por grupos de, em média, cinco estudiosos. Partindo de diferentes objetos, contextos etnográficos e metodologias, esses grupos se organizam em torno de temas comuns para construir argumentos compartilhados.
Para ilustrar essa metodologia pouco usual, destaca-se o segundo capítulo, “Comunidades musicais de prática”, que reúne estudos sobre um coral masculino em Nancy (França), um grupo de teatro musical em Barbacena (MG), uma banda do interior de São Paulo, uma Folia de Reis em Osasco (SP), um bloco carnavalesco em Belo Horizonte (MG) e um atajo de negritos, prática afro-peruana de El Carmo (Peru). Apesar das distâncias geográficas e culturais, todos esses musicares se articulam em torno da ideia de comunidade musical.
A coletânea organiza-se a partir da relação entre musicares e localidades. Como sintetiza a introdução:
Nesta coletânea, todos os capítulos lidam com algum aspecto da relação entre musicares e localidades, seja evidenciando o impacto do musicar sobre a localidade em que ocorre, seja, ao contrário, evidenciando o impacto da localidade sobre os musicares que nela ocorrem.
Os capítulos interligam, portanto, musicar e localidade por diferentes vias, geralmente organizadas em eixos temáticos. Em alguns casos, privilegia-se o olhar do musicar em relação à localidade, como no capítulo sobre comunidades musicais ou nas discussões sobre corpo e dança. Em outros, destaca-se o impacto das localidades sobre os musicares, como no capítulo dedicado à glocalização musical no Brasil, que aborda práticas entre grupos migrantes, ou ainda nas análises das reconfigurações de comunidades musicais durante a pandemia de covid-19.
Ao enriquecer o campo de estudos sobre música em contextos locais, Musicar local: trilhas para estudos musicais se afirma como um projeto robusto de etnomusicologia contemporânea. Em seu movimento final, a obra demonstra que, embora “todo musicar seja localizado”, essa constatação não esgota a complexidade da relação entre música e contexto. A verdadeira riqueza está nas múltiplas formas pelas quais essa relação se configura.
Trata-se, assim, de uma leitura essencial tanto para estudiosos da música quanto para aqueles interessados em antropologia e etnologia.
Para saber mais sobre o livro, visite nosso site!

Musicar local: trilhas para estudos musicais
Organizadoras: Suzel Ana Reily, Flávia Camargo Toni e Rose Satiko Gitirana Hikiji
ISBN: 9788526818262
Edição: 1ª
Ano: 2026
Páginas: 392
Dimensões: 23 x 16 cm