
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Por muito tempo, a língua foi compreendida apenas como uma ferramenta de comunicação, um sistema utilizado para transmitir ideias, informações e sentimentos. Vista como um meio de superar barreiras como o tempo e a distância, ela é, de fato, um dos principais mecanismos que sustentam as interações sociais. No entanto, seus impactos vão muito além dessa função comunicacional. É por meio da língua que as realidades sociais e as visões de mundo são construídas, sustentadas e transformadas.
Diante disso, compreender as relações entre língua e poder torna-se indispensável, seja para interpretar as diferentes maneiras de interação, seja para entender o funcionamento das relações sociais. Nesse campo, Claire J. Kramsch dedicou anos de pesquisa, dialogando com estudiosos de diversas áreas, como filosofia, sociologia, sociolinguística e, principalmente, linguística aplicada, a fim de demonstrar de que forma a língua também se constitui como um meio de poder ideológico, cultural e econômico.
Professora da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Claire J. Kramsch é também diretora do Centro de Línguas de Berkeley e ganhadora do prêmio Kenneth Mildenberger, da Modern Language Association, por suas obras Context and Culture in Language Teaching (1993), The Multilingual Subject (2009) e The Multilingual Instructor (2018, com Lihua Zhang). Ao longo da carreira, suas pesquisas se concentraram em teoria social e cultural, análise do discurso, linguística aplicada e aquisição de segunda língua, trajetória que a levou à publicação de Língua como poder simbólico, entre outros títulos.
Fruto de anos de pesquisa e de aulas ministradas no Departamento de Alemão da UC Berkeley, a obra foi publicada pela primeira vez durante a pandemia de covid-19. Apesar do isolamento, das dificuldades de comunicação e do agravamento de problemas sociais, Língua como poder simbólico dialoga diretamente com o crescente interesse de uma nova geração por questões sociais e políticas. Nesse contexto, a Editora da Unicamp lança, pela primeira vez em português, a obra que inaugura a Coleção Linguística Contemporânea – série dedicada a compreender o papel social da língua e sua centralidade na construção das subjetividades e dos processos de cognição social.
Organizado em três partes, o livro é composto de nove capítulos – cada um iniciado por um estudo de caso que introduz o tema principal e orienta a análise, além de apresentação, introdução e um texto conclusivo que retoma os principais argumentos da obra e discute suas implicações para a pesquisa e a prática em linguística aplicada.
A primeira parte, denominada “O poder da representação simbólica”, abrange os três capítulos iniciais e baseia-se em noções linguísticas e semióticas para discutir como os símbolos linguísticos possibilitam a interpretação, a significação, a categorização e a manipulação da realidade.
No primeiro capítulo, a autora argumenta que a língua materna não pertence ao indivíduo, mas à comunidade de fala em que ela se insere. Para isso, analisa discursos de Donald Trump sobre a construção do muro na fronteira com o México, evidenciando os significados simbólicos atribuídos a esse elemento. Em seguida, dialoga com a obra Retrato do rei (1988), de Louis Marin, para discutir o poder simbólico da representação monárquica. Por fim, o terceiro capítulo analisa o livro infantil alemão Der Struwwelpeter, refletindo sobre diferenças socioculturais e a forma como narrativas infantis transmitem valores éticos e morais.
A segunda parte, “O poder da ação simbólica”, fundamenta-se em pesquisas de linguística aplicada e sociolinguística para demonstrar como a linguagem atua nas interações cotidianas, permitindo o exercício de poder e, em alguns casos, de violência simbólica. Os capítulos quatro, cinco e seis exploram diferentes formas de atuação e resistência por meio da linguagem, especialmente em contextos políticos.
No capítulo quatro, a análise das interações entre James Comey e Donald Trump evidencia como a fala e a postura se transformam conforme o contexto e o público. A autora destaca que a disciplina envolve simultaneamente ordem e vigilância, assim como a vigilância envolve liberdade e censura. Em seguida, o capítulo “Do poder simbólico à violência simbólica” utiliza relatos de jovens universitários para discutir o peso das palavras e suas implicações na vida privada e institucional. Já o capítulo “Quando a violência simbólica vira guerra simbólica” examina os efeitos da escolha lexical em declarações políticas.
A terceira e última parte, “O poder de criar a realidade simbólica”, apoia-se em teorias pós-estruturalistas e pós-modernas para analisar a língua como discurso, especialmente no ambiente digital. Os capítulos finais aprofundam questões relacionadas à construção de identidade, à circulação de informações e às novas formas de violência simbólica.
O capítulo “‘Eu sou visto e comentado, logo existo’” discute como as mídias sociais, ao mesmo tempo que amplificam vozes, também podem ser utilizadas para manipular a opinião pública e explorar dados pessoais. Além disso, o capítulo busca compreender o processo de transformação de notícias pequenas em grandes eventos midiáticos e o impacto disso. Já “Língua como poder simbólico na era digital” analisa como essas plataformas mudaram as dimensões epistemológicas, sociais e políticas da linguagem, aumentaram nossa capacidade de criar, armazenar, disseminar e impor significados, e alteraram as dimensões políticas da língua como poder simbólico. Por último, o capítulo final propõe caminhos para uma leitura crítica dos diferentes referenciais mobilizados ao longo do livro.
Dessa forma, Língua como poder simbólico dialoga com a antropologia linguística, a linguística aplicada crítica e a sociolinguística pós-moderna, contribuindo para o aprofundamento das discussões sobre as dimensões simbólicas da linguagem e seu papel na construção das subjetividades.
Ao articular teoria e prática, inclusive no que se refere ao ensino de línguas, o livro convida o leitor a revisitar conceitos tradicionais da linguística aplicada sob a perspectiva das relações de poder. Essa abordagem amplia horizontes para educadores e pesquisadores, ao mesmo tempo que evidencia o papel da língua como instrumento de poder cultural, ideológico e econômico.
Assim, o livro é uma excelente leitura para pesquisadores, professores de idiomas e todos os interessados nas relações entre língua e poder. A obra não exige conhecimento prévio e apresenta suas discussões de maneira clara, acessível e conectada à realidade contemporânea.
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Autora: Claire J. Kramsch
Tradução: Cynthia Costa
ISBN: 9788526818255
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 328
Dimensões: 16 x 23 cm