Pelos ouvidos de quem a ouviu e pelos olhos de quem a viu: uma biografia de Augusta Candiani

Victor Shimabukuro Pastor

O que leva alguém a ler uma biografia? 

Talvez a ideia de que – e aqui temos em vista as biografias de grandes personalidades da história: todos os Alexandres, Césares, Henriques, Franciscos, Elises, Elizabetes, Evas… – sua leitura possua força educacional. Como se, ao compreendermos os passos de cada uma dessas figuras, adquiríssemos algum tipo de sabedoria ou conhecimento. Ou, quem sabe, elas sejam lidas por alguma característica inspiradora, capaz de fazer nascer um entusiasmo ímpar em seu leitor, propulsionando-o a feitos tão grandes quanto aqueles realizados pelo biografado. Muito possivelmente também sejam lidas pela simples curiosidade de compreender como determinada pessoa chegou ao lugar de destaque que ocupa: foi por meio de seu próprio esforço ou por influência da família? Era de fato um gênio ou apenas teve um golpe de sorte? Independentemente do motivo, somos atraídos pelas vidas dessas pessoas que ocupam ou ocuparam um lugar de destaque em nossa sociedade.

Agora, e quanto àquelas pessoas cuja fama não nos alcançou? E todas aquelas figuras ilustres que o peso da caneta do historiador fez apagar? Entre as mulheres e demais figuras marginais soterradas pela história tradicional, qual seria o interesse em conhecer suas vidas?

Escrita por Andrea Carvalho Stark – graduada em Letras e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de mestre em História do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) –, Augusta Candiani: a prima-dona da época de D. Pedro II trata da biografia de Augusta Candiani, cantora lírica e atriz atuante durante o período do Segundo Reinado. Resultado de uma laboriosa pesquisa em diversos acervos e hemerotecas, esse trabalho original revela um episódio ainda pouco conhecido na história da ópera, da música, do teatro, das migrações e das mulheres, permitindo-nos acessar os bastidores da sociedade oitocentista ligados ao âmbito cultural.

Na obra, contudo, observamos mais do que uma simples biografia. Centrada na figura de Candiani, a autora ramifica, a partir dela, uma constelação de nomes e personalidades da época, permitindo que, ao acompanharmos seus passos, diversos retratos e pinturas da sociedade oitocentista sejam delineados. De fato, como defendido na apresentação do texto, a biografia escrita por Stark aproxima-se do estilo inglês do gênero, descrito por Hannah Arendt, em um dos ensaios de Homens em tempos sombrios, como um texto em que “a luz do tempo histórico é atravessada e refratada pelo prisma de um grande caráter, resultando em uma unidade completa da vida e do mundo”. 

Durante o primeiro capítulo, por exemplo, partindo da chegada da cantora e de seu acolhimento, aprofundamo-nos na presença italiana no Brasil do Segundo Reinado e em sua capilaridade nos diversos segmentos da sociedade, ao nos aproximarmos de nomes como Giuseppe Garibaldi, entre outros simpatizantes do movimento Jovem Itália. Já no segundo capítulo, observamos o desenvolvimento das atividades culturais no país: sua origem, com a vinda da Corte portuguesa e as ações promovidas por D. Pedro I, bem como a recepção e a participação de diferentes grupos étnicos em sua construção. Na diacronia composta por Andrea Carvalho Stark, ao longo de seis capítulos e dois anexos, descobrimos a “história de uma mulher artista imigrante, que adotou o Brasil como sua pátria”, mas não apenas isso: ao acompanharmos o percurso de Candiani, conhecemos uma legião de outras mulheres, artistas e figuras de destaque – ou não – no contexto social da época, além de toda uma sociabilidade esquecida em nossa historiografia.

Escrita visando mais ao prazer da leitura do que a uma reflexão ensaística profunda, a biografia brilha com essa trama costurada por Stark em torno da vida de Candiani, resultado que também reflete seu extenso trabalho de pesquisa. Nadando contra a corrente da história “oficial”, que muito fez para soterrar figuras como a da cantora, a autora enfrentou a falta de fontes específicas, o que fez com que seu trabalho fosse guiado “pelos ouvidos de quem a ouviu e pelos olhos de quem a viu”; ou seja, um trabalho de resgate de memória a partir das palavras de seus contemporâneos – muitos deles homens das letras que registraram suas experiências em diferentes jornais da época. Mais do que uma biografia, portanto, trata-se de um ato rememorativo sobre um período – ou sobre uma faceta dele – ignorado e esquecido pela historiografia, cuja reconstrução se dá a partir da experiência feminina.

Ao leitor interessado, para além da fruição de uma história que em si dispensa qualquer criação ficcional, Augusta Candiani: a prima-dona da época de D. Pedro II oferece uma ampla investigação sobre a teatralidade brasileira, sobre os processos de fortalecimento do circuito cultural no país e sobre as transformações da sociedade e dos sistemas da arte no século XIX.

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Augusta Candiani: a prima-dona da época de D. Pedro II

Autora: Andrea Carvalho Stark

ISBN: 9788526818248

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 664

Dimensões: 16 x 23 cm

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