Antropologia do policiamento

Por Ana Carolina Pereira

Em muitos lugares do mundo, policiais são considerados tanto uma presença positiva, quanto negativa. No Brasil, por exemplo, enquanto a força policial age com violência e parcialidade em regiões da periferia das cidades, as ações dessa instituição em bairros de classe média e alta são bastante diferentes. Polícia e policiamento tem sido um tema muito debatido nos dias de hoje, principalmente a violência policial que vem acontecendo e se acentuando em diversos países. Essa força usada pelos Estados pode ser analisada a partir de vários teóricos e teorias, mas, mesmo o controle social e o crime sendo preocupações recorrentes ao longo do tempo, há uma lacuna que precisa ser preenchida com mais estudos na área.

Para suprir essa lacuna, o livro Policiamento e governança contemporânea: a antropologia da polícia na prática foi escrito e publicado pela Editora da Unicamp em 2018. William Garriott é quem organiza a antologia composta por diversos artigos de autoria de especialistas da área. Garriott é antropólogo e sua pesquisa foca-se em lei, crime, justiça criminal, drogas, vícios, policiamento e governança. Autor do livro Policing methamphetamine: narcopolitics in rural America, atualmente é professor associado da Drake University. Os autores dos ensaios que compõem a obra são professores e pesquisadores de diferentes focos dentro do tema e atuam em renomadas universidades.

O livro foi traduzido por Daniela Ferreira Araújo Silva e passou por revisão técnica de Susana Durão, que também redigiu o Prefácio à edição brasileira. As profissionais demonstraram um cuidado particular com os textos para que a tradução mantivesse o mesmo sentido dos trabalhos originais. O policiamento é uma parte constitutiva da sociedade e compreendê-lo é fundamental para se estudar assuntos socioculturais. Nesse sentido, a diversidade teórica presente na obra traz contrapontos que, em alguns casos, desafiam-se e, em outros, complementam-se, o que torna o livro uma importante leitura para estudiosos da área. 

A obra Policiamento e governança contemporânea traz um assunto bastante atual para ser discutido sob a luz de teorias diversas, para entender o policiamento a partir de uma provocação crítica e vigorosa diferente em cada capítulo, trazendo teóricos como Foucault, Marx, Walter Benjamin e Weber. Nesse sentido, como aponta Susana Durão no Prefácio, “os policiais representam a lei e a ordem, seus limites e a própria desordem”, e entender essas nuances é fundamental para se compreender mecanismos utilizados pelos Estados para manter a sua governança, incluindo os meios de repressão de crimes e, até mesmo, de grupos minoritários. Ela completa: “Quem chegar ao fim deste volume não mais duvidará de que estudar a polícia, e mais ainda as plurais, confusas e complexas formas de governo como policiamento e do policiamento como governo, como defende Garriott na Introdução, nos permite avançar com contributos expressivos, tão fundamentais quanto sensíveis, para a teoria social e cultural”.

Policiamento e governança contemporânea marca o estabelecimento da antropologia do policiamento como um campo investigativo crítico, por isso a sua importância para os estudos da área, tornando-se uma leitura obrigatória para quem estuda a segurança, o policiamento, o Estado e as sociedades liberais contemporâneas. Nesse sentido, o estudo das sociedades contemporâneas e os elementos que as perpassam tornou-se ainda mais válido quando a antropologia “deixou de ter como seu principal tema as ‘sociedades tradicionais’, trouxe tanto o colonialismo quanto a ordem mundial moderna para sua alçada analítica e, mais recentemente, deu crescente atenção ao Estado-nação e suas transformações”. Essa mudança de foco foi importante para desenvolver a área de antropologia policial, embora ela ainda esteja em crescimento.

A obra “levanta um grande número de questões, e um número de grandes questões, algumas delas tratadas aqui, e outras que requerem maior reflexão”. No final do volume, o autor Joseph Masco traz questionamentos relevantes e provocadores para os leitores: “o que e quem defendem e defenderão, no futuro, os policiais? Para onde se expandirá o policiamento e suas privatizações que aparentemente prescindem a de noções de ‘direitos civis’? Que noções de ‘justiça’ e contratos sociais através da lei e da sua aplicação serão engendrados daqui em diante?”. Essas perguntas convidam o leitor a continuar se questionando e incentiva-o a se aprofundar no assunto discutido no volume.

O livro Policiamento e governança contemporânea é uma importante leitura para antropólogos e cientistas sociais que pesquisam o policiamento, a segurança e a governança na contemporaneidade. Discutir a polícia e os temas que a rodeiam auxilia a compreensão de cada sociedade, pensando na visão positiva e também na negativa que as pessoas têm dessa instituição usada como meio de repressão ao crime – e a grupos minoritários – pelo Estado. Assim, é possível perceber que, “acima de tudo, estes textos demonstram que a polícia participa de uma cultura nacional”, criando distintas culturas de policiamento. Ou seja, compreender uma sociedade está intrinsecamente relacionado à compreensão do funcionamento da polícia na região em estudo.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Policiamento e governança contemporânea: a antropologia da polícia na prática

Organizador: William Garriott

ISBN: 978-85-268-1458-5

Edição: 1a

Ano: 2018

Páginas: 360

Dimensões: 15,7 x 23 cm

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