Método, história e filosofia: a ciência das partículas aos astros

Por Beatriz Burgos

“Neutrinos são partículas fundamentais da natureza, ou seja, são partículas que, até onde sabemos, não são formadas por entes ainda mais fundamentais. São como elétrons, quarks (que compõem prótons e nêutrons) ou fótons (as partículas que compõem a luz). Não possuem carga elétrica, e sua massa é muito pequena, mais de um milhão de vezes menor que a massa do elétron.”

É assim que Pedro Cunha de Holanda, autor de Neutrinos solares e o método científico, mais um lançamento da Editora da Unicamp, define os neutrinos. Eles “não fazem parte do nosso dia a dia, como fótons, elétrons, ou prótons e nêutrons. A razão disso é que neutrinos quase não interagem com a matéria”. Essa pouca interação dos neutrinos com a matéria provavelmente seja uma das causas para que seu nome não seja tão familiar; contudo, os neutrinos são extremamente abundantes: depois dos fótons, eles representam as partículas encontradas em maior quantidade no universo.

Os neutrinos solares, especial tema de estudo do autor, são aqueles produzidos na fusão de prótons no Sol, a partir de uma reação de fusão nuclear. O crescente programa de pesquisa dessas partículas é fundamental para que possamos compreender melhor o que acontece no interior do Sol e obter pistas sobre o astro e suas propriedades. Essa possibilidade se dá devido à fraca interação dos neutrinos solares com qualquer matéria: enquanto a luz pode demorar milhares de anos para escapar do interior do Sol em virtude das interações com a matéria solar, os neutrinos escapam rapidamente e sem sofrer desvios. Por isso, são capazes de fazer o trajeto até a Terra em muito menos tempo do que o fazem os fótons de luz.

Cunha de Holanda é graduado, mestre e doutor em Física pelo Instituto de Física da Unicamp (IFGW), onde também é professor livre-docente e atua na área de fenomenologia e astrofísica de neutrinos. Na obra Neutrinos solares e o método científico, o autor apresenta a história do programa de pesquisa em neutrinos solares, utilizando-se dele para ilustrar algumas controvérsias acerca do método científico e enriquecendo, assim, o debate. Cunha de Holanda apresenta exemplos da aplicação do método científico para elucidar levantamentos recentes a respeito dos fundamentos da atividade científica. Tópicos como realismo, falseabilidade de hipóteses e valores na ciência são abordados por meio de referências extraídas do plano de pesquisa em neutrinos solares. O livro tem, portanto, dois enfoques paralelos, uma vez que intercala a apresentação histórica do programa com algumas discussões a respeito de filosofia da ciência.

O programa de pesquisa em física de neutrinos solares iniciou-se com experimentos de detecção dos neutrinos criados em reações nucleares que ocorrem no interior do Sol. A detecção desses neutrinos confirmaria o modelo de geração de energia solar; no entanto, já nos primeiros resultados, notou-se que, ao contrário do que se esperava, poucos neutrinos estavam sendo detectados, demonstrando que a compreensão do Sol, ou dos neutrinos, não era tão completa assim. A resolução da questão envolveu uma grande comunidade de pesquisadores e mais de quatro décadas de pesquisa.

Desde o início de suas atividades profissionais, Cunha de Holanda vem se dedicando ao tema abordado nesta obra. O autor divide o livro em sete capítulos, sendo o terceiro, “O problema dos neutrinos solares”, inteiramente dedicado ao assunto. No entanto, não se propõe a apresentar uma descrição do problema, mas a comentar os principais passos tomados pela comunidade científica até o estabelecimento de um consenso. Diz que o livro “pode ser lido como uma espécie de roteiro de um livro de mistério, no qual as pistas vão sendo construídas aos poucos, e o desfecho, apresentado após um longo processo de investigação”. E sugere àqueles que quiserem saber de pronto a solução da questão, uma rápida busca na internet. Afinal, como o autor mesmo coloca, “o que seria da ciência sem quebra-cabeças para instigar e excitar o cientista? E de onde podemos esperar que venham as grandes e emocionantes descobertas, senão desses mesmos quebra-cabeças?”.

Para Cunha de Holanda, “o programa de pesquisa em física de neutrinos solares pode colaborar para a compreensão da aplicação do método científico e fornece exemplos que podem enriquecer e ilustrar os debates que acompanharam o seu desenvolvimento pela filosofia”. Neutrinos solares e o método científico, no entanto, não é uma obra exclusiva àqueles que estudam filosofia da ciência ou astrofísica, tampouco é necessário, para lê-la, que já se tenha conhecimento prévio sobre método científico ou sobre essas partículas tão fascinantes e intrigantes, conquanto, para a maioria das pessoas, pouco familiares. O livro de Pedro Cunha de Holanda, apesar de ser de divulgação científica, é, do começo ao fim, instrutivo e acessível, progride com calma, clareza e regularidade na elucidação dos conceitos – sem, no entanto, deixar de se aprofundar neles. Aqueles já familiarizados com os conceitos apresentados encontrarão uma historiografia completa e organizada sobre a pesquisa dos neutrinos e os problemas envolvidos nesse percurso; o autor, porém, não entrega respostas prontas, mas instiga, provoca, estimula o leitor – desperta seu interesse e o impulsiona a buscar mais e mais. É, logo, um livro para todos, que, assim como o “jogo” nele proposto, a cada página “fica mais recompensador e mais delicioso”.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Neutrinos solares e o método científico

Autor: Pedro Cunha de Holanda

ISBN: 9788526815520

Edição: 1a

Ano: 2022

Páginas: 160

Dimensões: 16 x 23 cm

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