Ser e não ser, eis a questão

Por Beatriz Burgos

Em nosso dia a dia, falamos de muitas coisas que existem – seja essa existência concreta, quando falamos de pessoas e objetos, seja essa existência abstrata, quando falamos, por exemplo, de sentimentos, ideias e relações. Essa “existência” é o fenômeno que a filosofia chama de “ser”, estudado pelo ramo denominado ontologia. As coisas que “são” são as coisas que “existem”, as que “não são”, as que “não existem”. Porém, o que significa existir e não existir?

Essa questão foi primeiro introduzida no Ocidente por Parmênides e percorreu a história da filosofia por séculos, sendo discutida por grandes pensadores como Platão, Hegel e Descartes. No entanto, a tradição filosófica dos gregos em diante sempre identificou o ser como a presença no mundo, isto é, “ser” significava tudo aquilo que nele estava presente, e “não ser”, aquilo que não estava. Martin Heidegger, filósofo, escritor e professor universitário alemão, afastando-se do pensamento tradicional desenvolvido até então, trouxe uma modificação notável na maneira de refletir sobre a questão do ser e sobre o próprio ser humano. Considerado um dos pensadores mais importantes do século XX, Heidegger, em sua fundamental e célebre obra Ser e tempo, publicada originalmente na Alemanha em 1927 e traduzida pela Editora da Unicamp em 2012 como parte da coleção Fausto Castilho, busca desenvolver o que seriam as questões propriamente ontológicas sobre o Ser. 

Segundo o autor, se se entende por “existência” a possibilidade de ocupar lugar no espaço e no tempo, está-se considerando como existente somente aquilo que é concreto e tomando como resposta geral sobre a questão do ser uma explicação que pode servir, somente, para o ser dos objetos materiais. Assim, ao tomar como referencial a descrição do “ser” de objetos materiais, generalizam-se para todos os outros entes – isto é, tudo aquilo de que se fala e a que se refere – as características do “ser” de outros entes em particular. Para Heidegger, porém, a resposta da questão do ser só poderia ser obtida mediante o exame particular do ser dos entes, partindo, especificamente, não dos objetos, mas daquele ente único que se questiona sobre o ser: o homem.

Segundo Heidegger, o homem não é um ente como os outros: por manter uma relação de compreensão com o seu ser próprio, é imediatamente ontológico, e, em Ser e tempo, o autor lhe designa o importante conceito de Dasein. O termo alemão, embora signifique simplesmente “existência”, é geralmente traduzido como “Ser-aí”, porque isso facilita a posterior compreensão dos jogos conceituais que Heidegger faz com o “da” (aí) e o “sein” (ser). Ainda, o Ser-aí é, segundo o autor, aquele ente capaz de se perguntar sobre o ser, aquele ente que se põe como intérprete privilegiado do ser dos outros entes, capaz de se apoderar deles. Também diferentemente dos demais entes, o Dasein não é um ser no mundo, mas um ser ao mundo – indica possibilidade ontológica, jamais podendo ele ser um objeto para percepção. Esse conceito é um ponto-chave para compreender a filosofia de Heidegger e uma das mais fundamentais concepções desenvolvidas em Ser e tempo.

A obra é dividida em duas grandes partes, a primeira delas – “A interpretação do Dasein referida à temporalidade e a explicação do tempo como horizonte transcendental da pergunta pelo ser” – publicada integralmente pela Editora da Unicamp. Nela é que se trava contato com esse importante vocábulo, após ser proposto que se reveja a história da ontologia como um todo. Aqui, outros léxicos também são ressignificados a partir da diferenciação estabelecida entre Ser e ente, negando verificações tradicionais da metafísica anterior que considerava o Ser das coisas como substância e interpretava tudo o que “existe” como o que está presente. A primeira parte divide-se em três seções, que o autor nomeia de “A análise fundamental preparatória do Dasein”, “Dasein e temporalidade” e “Tempo e ser”.

Na segunda parte – “Linhas fundamentais de uma destruição fenomenológica da história da ontologia pelo fio condutor da problemática da temporalidade” –, com a maior parte dos conceitos distintivos clarificados fenomenologicamente, o autor irá se concentrar apenas no Ser da presença. Conceitos vistos na primeira parte serão confrontados com outros mais elaborados, sempre a fim de chegar ao núcleo do ser em si e desvendar sua natureza. Aqui, Heidegger faz também uma tríplice divisão em seções: “A doutrina kantiana do esquematismo e o tempo como degrau prévio de uma problemática da temporalidade”, “O fundamento ontológico do ‘cogito sum’ de Descartes e a assunção da ontologia medieval na problemática da ‘res cogitans’” e “O tratado de Aristóteles sobre o tempo como discriminante da base fenomênica e dos limites da ontologia antiga”.

Entender, assim, que todo comportamento humano, inclusive o mais banal, implica uma certa compreensão em torno do ser – do sentido do ser, ainda que não tenhamos consciência disso – é cardeal em Heidegger. O ser não é uma noção vazia e indeterminada; ao contrário, o seu sentido determina a nossa compreensão de nós mesmos e do mundo, e nosso comportamento em relação aos demais entes.Heidegger, portanto, contribuiu para o pensamento filosófico moderno não somente contestando a tradição, como também criando conceitos, revirando ideias, pensando, talvez pela primeira vez, a linguagem em relação ao ser, e assim elaborando novos termos. É inegável a abstração da linguagem do autor, que tece suas ideias com passagens obscuras e pouco ilustrativas, o que pode representar um obstáculo àqueles que estão iniciando na leitura filosófica. Apesar disso, a cuidadosa edição de Ser e tempo que traz a Editora da Unicamp, única edição bilíngue existente no Brasil, garante que nada se perca: Fausto Castilho, responsável pela rica tradução do texto integral, diretamente do alemão, comenta: “traduz-se para levar à leitura do original”. É esse, sobretudo, um livro – ou, como o autor mesmo chama, um tratado – que nunca se considera totalmente lido, porque talvez não seja simplesmente para ler, mas para estudar, descobrir, investigar e sempre rever coisas já lidas e repensar conhecimentos pré-adquiridos.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Ser e tempo

Autor: Martin Heidegger

ISBN: 978-85-268-096-35

Edição: 1a

Ano: 2012

Páginas: 1.200

Dimensões: 16 x 23 cm

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