O esquecimento como política do Estado

Por Ana Carolina Pereira

Podemos considerar que recordação e esquecimento andam sempre juntos e que um não existe sem o outro. Na cultura grega antiga – por exemplo, pelo imaginário sobre os rios Lete, o rio do esquecimento, e Mnemosyne, o rio da recordação – era atribuído um teor negativo ao esquecimento, enquanto Sócrates colocava o ato de lembrar como forma de atingir a verdade; e, mais recentemente, a psicanálise surgiu trazendo a recordação como terapia. O esquecimento (e a recriação) das memórias do passado também pode ser uma ferramenta a serviço dos interesses do Estado e de outros grupos dominantes, inclusive com ideais negacionistas. Assim, a construção da autoimagem de comunidades, culturas e nações muito se relaciona com a memória e o esquecimento.

A partir dessas considerações sobre memória e esquecimento, desdobra-se o livro A virada testemunhal e decolonial do saber histórico, de Márcio Seligmann-Silva, publicado pela Editora da Unicamp. Seligmann é tradutor, teórico e crítico literário, tendo escrito e traduzido diversos livros, como a obra História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes, também publicada pela Editora da Unicamp. O autor é formado em história pela Pontifícia Universidade Católica, com mestrado pela Universidade de São Paulo, doutorado pela Freie Universität Berlin e pós-doutorado pela Zentrum Für Literaturforschung Berlin e por Yale. Atualmente, é professor de teoria literária na Unicamp e pesquisador do CNPq.

A virada testemunhal e decolonial do saber histórico traz uma discussão sobre memória, trauma e esquecimento atrelados à violência inerente ao processo da modernidade. No livro, o autor retoma eventos históricos em suas discussões, como a política de desaparecimento da América Latina durante os regimes ditatoriais e o genocídio da população armênia que ocorreu na Primeira Guerra Mundial, o qual foi “acompanhado de sua negação por parte dos nacionalistas turcos que, até hoje, mantêm na Turquia leis que proíbem que se aborde de modo crítico esse evento terrível”. Além disso, destaca a importância da fotografia para preservar a memória. Ainda, o autor afirma que “dessas tensões e ambiguidades devem se desdobrar os capítulos deste livro. São tentativas, sempre parciais, de enfrentar esses dilemas”. Nesse sentido, a obra pretende “ajudar a gerar argumentos para desconstruirmos essa lógica colonial que nos engessa e tende a reproduzir a violência colonial em nossos dias”. 

Seligmann defende que a relação entre memória e esquecimento foi alterada pela presença cada vez maior de vídeos e imagens. Com a existência de diferentes formas de armazenamento de arquivos, passou a não ser mais necessário se lembrar de algo por si mesmo, além de, com o passar do tempo, ter se tornado cada vez mais prático consultar dados graças ao avanço da tecnologia. Sócrates afirmou que a escrita levaria ao esquecimento e, atualmente, algo parecido pode ser dito sobre a presença dos mega-arquivos virtuais, o que também é discutido no livro. Contudo, existe o esquecimento natural e as políticas de esquecimento endossadas pelo Estado.

As políticas de esquecimento foram muito importantes para a construção de nações, com países utilizando as disciplinas de história, literatura, antropologia e linguística como um dos meios para justificar suas fronteiras e suas ambições coloniais. Segundo o autor, “todo ato de lembrar encerra atos de esquecer”; como não existe recordação sem esquecimento, no processo para que a narrativa de um dado país tivesse sucesso, outras narrativas precisavam ser apagadas. A história contada é a história dos vencedores. Os escolhidos para serem os heróis da história – que, essencialmente, não foram os preteridos nesse processo – também serviram para endossar uma narrativa de progresso. No Brasil, por exemplo, há monumentos, memoriais e nomes de ruas inseridos na “lógica monumentalista e colonial herdada do século XIX”, produzindo marcas conservadoras que “constroem muros que barram a construção de outras memórias, dificultam a inscrição de outras narrativas e a produção de novas subjetividades resistentes à colonialidade”.

A existência desses monumentos é sustentada pela política de esquecimento da violência colonial que ocorreu no Brasil e em outros países colonizados. O autor julga fundamental enfrentar a violência colonial que, ainda hoje, é endossada pelo mundo ocidental: “As políticas do esquecimento precisam ser enfrentadas, já que elas sustentam quadros de memória que banalizam a repetição da exploração e da violência”. Nesse contexto, as políticas de inscrição e resistência de memória são relevantes para que não se esqueçam as violências passadas. Como exemplo, Seligmann cita a ascensão do negacionismo no Brasil, com fatos históricos sendo distorcidos por um grupo de pessoas, contribuindo para a eleição de um presidente negacionista que ignora os atos da ditadura militar brasileira e os males causados por esse regime para a história do nosso país.

“A memória da ditadura é fundamental se quisermos construir um país mais igualitário e democrático. Foi a manipulação dessa memória a partir de 2013 que, em boa parte, pavimentou o caminho, em termos do imaginário da nação, para a eleição de um presidente negacionista, adepto de práticas ditatoriais e representante acabado da nossa colonialidade.”

No combate ao esquecimento do passado, o autor comenta sobre artistas, cineastas e escritores importantes para a construção de uma memória ética feita com base em novas sensibilidades e reflexões críticas. Ele destaca a cinematografia desenvolvida a partir do registro da ditadura militar brasileira e a obra de Rosana Paulino, que utiliza fotografias coloniais para ressignificá-las e conquistar uma versão diferente das versões colonialistas da história.

“Nestas páginas, procurei reunir trabalhos meus em torno do tema da memória e do testemunho, que, desde 2018, ganharam uma urgência inimaginável até então” – assim, o autor vai contra a afirmação popular de que não há memória no Brasil e defende que algumas memórias são tendencialmente apagadas, como as daqueles que buscam uma sociedade mais justa. Em A virada testemunhal e decolonial do saber histórico, ele defende que a história precisa ser pensada no tempo presente, e esse pensamento não pode aceitar conviver com homenagens de diversas formas a presidentes e generais torturadores. É preciso reverter esse cenário de comemoração da colonialidade e monumentalização da barbárie para conquistar uma sociedade justa, e é por isso que a leitura deste livro se faz muito valiosa para o momento histórico que se vive.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

A virada testemunhal e decolonial do saber histórico

Autor: Márcio Seligmann-Silva

ISBN: 9788526815315

Edição: 1a

Ano: 2022

Páginas: 368

Dimensões: 16 x 23 cm

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