Flores na senzala

Por Ana Carolina Pereira

Charles Ribeyrolles viajou para o Brasil na época da escravidão e disse: “Nos cubículos dos negros, jamais vi uma flor: é que lá não existem nem esperanças nem recordações”. Essa frase ainda hoje é famosa e capaz de incitar debates sobre a existência da família cativa nesse período do Brasil. A ideia de Ribeyrolles era consenso entre os viajantes da época que vinham da Europa e, até pouco tempo, entre os historiadores. Contudo, a noção de família escrava foi questionada, e surgiram estudos aprofundados para debater esse tema e refutar a fala de Ribeyrolles.

Entre os autores desses estudos, Robert Wayne Andrew Slenes destaca-se. Autor do livro Na senzala, uma flor, publicado pela Editora da Unicamp, Slenes objetiva, nessa obra, discutir a existência da família cativa no Brasil do século XVIII até a abolição da escravidão, resgatando a ideia de família para os próprios escravos e discutindo-a a partir da cultura centro-africana, de onde partiu a maior parte da população escravizada do Brasil que veio para o Sudeste. Como segundo objetivo, o autor pretende documentar no livro a presença da família escrava nas áreas de plantation do Sudeste do Brasil utilizando registros diversos para isso, principalmente inventários post-mortem e processos-crimes. Assim, Slenes desafia a frase de Ribeyrolles, que deu base ao título do livro, e mostra que encontrou flores nas senzalas.

Robert Slenes é doutor em História pela Stanford University; em sua trajetória acadêmica, focou suas pesquisas em História Social do Brasil e da África, produzindo diversos artigos e ensaios, alguns dos quais fazem parte do livro Na senzala, uma flor. Ademais, Slenes orientou alunos nesse mesmo recorte temático e, depois da publicação desse livro, continuou os seus estudos sobre família na escravidão brasileira. Ele foi professor titular do Departamento de História da Unicamp até 2013, sendo atualmente professor colaborador na mesma instituição. 

Entre os estudos e as pesquisas anteriores do autor, está o livro Cafundó: a África no Brasil (1996), também publicado pela Editora da Unicamp e escrito por Carlos Vogt e Peter Fry com colaboração de Robert W. Slenes, sendo o capítulo “Histórias do Cafundó” majoritariamente de autoria de Slenes. Esse capítulo apresenta a reconstrução da história familiar do grupo morador do bairro rural negro Cafundó a partir de um estudo longitudinal de uma família escrava de Sorocaba. Tal estudo foi importante para que Slenes direcionasse as suas pesquisas para as reflexões culturais a respeito da família escrava de modo mais focado, o que, provavelmente, ajudou-o a escrever o livro Na senzala, uma flor anos depois. Assim, Cafundó: a África no Brasil também é uma leitura interessante para quem quiser se aprofundar no assunto, sendo possível saber mais sobre o livro no blog da Editora da Unicamp: Luta e vivência no Cafundó.

A obra Na senzala, uma flor é dividida em quatro capítulos, cada um composto de subcapítulos, tornando a leitura mais fluida. Além disso, o livro traz dois prefácios, um para a primeira e um para a segunda e atual edição. Ler os dois prefácios é muito interessante, pois o primeiro mantém o que o autor pensou ao escrever e publicar a obra, enquanto o segundo traz uma atualização de informações apresentando pesquisas mais recentes na área, já que a primeira edição do livro data de 1999. Os novos trabalhos citados reforçam os argumentos já feitos, mostrando que o autor estava no caminho certo em sua pesquisa.

O livro tem dois objetivos, como citado anteriormente, e, para atendê-los, o autor utilizou documentação em grande parte qualitativa e não seriada, não limitada a Campinas, que foi interpretada “à luz dos novos resultados demográficos, mas também no contexto de fontes primárias e secundárias sobre a África Central ocidental, a região de origem de grande parte dos cativos trazidos para o Sudeste no período em questão”. Um interessante dado pontuado pelo autor são as relações consensuais duradouras entre pessoas escravizadas que chegaram a ser ratificadas nos registros de casamento da Igreja católica, sendo uma das provas da existência da família cativa desse período.

“Segundo, procurei recuperar no livro os significados da família e do parentesco – metaforicamente, a ‘flor na senzala’ – para os próprios escravos. O esforço era necessário, já que não era mais sustentável o argumento, comum na bibliografia clássica sobre a escravidão no Brasil e especialmente no Oeste Paulista, de que as condições do trabalho forçado e as decisões maquiavélicas dos senhores haviam destruído as famílias dos cativos, deixando-os na ‘anomia’, isto é, sem normas e nexos sociais, e portanto sem condições para se mobilizarem de forma ‘politicamente’ consequente contra seus opressores.”

Embora o livro seja datado, como pontua o autor, “foi escrito em uma conjuntura intelectual específica e teve certa influência no debate historiográfico subsequente”, a discussão proposta continua relevante, o que pode ser comprovado pela procura por uma segunda edição quando a primeira havia esgotado. Nesse sentido, Na senzala, uma flor é uma importante obra para os estudos sobre a família escrava no período do século XVIII até a abolição, sendo muito interessante não apenas para os pesquisadores dessa área, como para os amantes de história, pois, mesmo com sua escrita técnica e acadêmica, a leitura é clara e fluida.

Para saber mais sobre os livros de Slenes, visite o nosso site!

Na senzala, uma flor

Autor: Robert W. Slenes

ISBN: 9788526809444

Edição: 2a

Ano: 2012

Páginas: 304

Dimensões: 16 x 23cm

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