Cinema, Estado e classes populares

Por Ana Carolina Pereira

Na década de 1970, o cinema brasileiro atingiu as camadas populares de modo nunca antes visto. A partir do incentivo nacional à produção cinematográfica brasileira nesse período, os trabalhos feitos na chamada Boca do Lixo, região de São Paulo nas imediações do bairro Santa Ifigênia onde se encontravam muitas pessoas dessa área artística, ganharam espaço nas salas de cinema. Com uma fórmula baseada em comédia e erotismo – mas não apenas nisso –, a Boca do Lixo conquistou principalmente a população masculina das classes populares. Contudo, como esse fenômeno ocorreu? Qual foi o seu auge? Como foi a sua ruína?

O pesquisador e cineasta Nuno Cesar Abreu, em seu livro Boca do Lixo: cinema e classes populares, publicado pela Editora da Unicamp, busca responder a essas perguntas e documentar o que ele chama de “ciclo da Boca do Lixo”, relatando desde a ascensão até a ruína desse importante acontecimento do cinema brasileiro. Abreu dirigiu curtas-metragens, publicou o livro O olhar pornô – A representação do obsceno no cinema e no vídeo e atuou como professor do Departamento de Cinema do Instituto de Artes da Unicamp. 

A partir de suas experiências na área do cinema, o pesquisador publicou a obra Boca do Lixo, que aborda o ciclo da Boca do Lixo, que, segundo ele, foi “um processo de produção cinematográfica que teve lugar num certo período de tempo (anos 1970), num espaço determinado (a Boca do Lixo)”. Mesmo com suas precariedades, o cinema da Boca do Lixo resultou em um cinema popular com ótima resposta de público; o objetivo do livro não é apenas relatar esse fenômeno, mas também, de acordo com o autor, “compreender o papel que ele desempenhou na vida cultural brasileira, localizar seus produtos no interior da indústria cultural que começava a ganhar complexidade nos anos 1970”. 

A Boca do Lixo sempre me fascinou, exatamente por ser um lugar, um “endereço” que aglutinava pessoas que queriam fazer cinema. Diferente do formato empresarial de um estúdio, com jeito de fábrica e comandado por patrões, ela parecia um gueto de liberdade (se é possível mais essa contradição, entre tantas, que oferece). Exagerando na imagem, talvez fosse mais semelhante a uma frente de trabalho, uma fronteira econômica ou, mesmo, um garimpo.

O livro foi organizado como um documentário, reunindo diversos materiais sobre o tema para tecer uma narrativa que fosse, “na medida do possível, isenta, poética, verdadeira”. Nesse sentido, o leitor encontrará um rico levantamento de dados e, “no contexto de uma reflexão mais ampla, pequenas reflexões pontuando os vários tópicos, levantando questões, buscando respostas, fazendo diagnósticos, entrelaçadas às falas dos depoentes ou a reflexões de outros analistas”. Ademais, o ponto-chave do livro são as 16 entrevistas que o pesquisador realizou com pessoas que trabalharam na Boca do Lixo e fizeram parte de seu desenvolvimento, como atores, atrizes, diretores, produtores e roteiristas. Essas entrevistas são muito relevantes para os estudos no tema, pois trazem a memória e a fala dos sujeitos que participaram do processo relatado, dando voz aos personagens desse momento histórico.

Boca do Lixo: cinema e classes populares é composto por seis capítulos divididos em subcapítulos, o que, junto da escrita clara, deixa a leitura mais fluida. Mesmo sendo um livro técnico, é importante ressaltar que a escrita utilizada alcança não apenas o público especializado, mas também os leigos e os entusiastas da história e do cinema. Desse modo, o primeiro capítulo traz um panorama histórico-cultural que precedeu o ciclo da Boca do Lixo para contextualizar o seu surgimento. Nesse contexto, a partir do interesse em criar um cinema compatível com o mercado e com as classes populares, das iniciativas voltadas à criação de uma indústria cinematográfica paulista, da criação da Embrafilme e da formação do que hoje se chama “cinema marginal”, tem-se o pano de fundo para o surgimento da produção da Boca do Lixo. 

No segundo e no terceiro capítulos, o autor busca abordar o período em que se deu o auge da Boca do Lixo utilizando-se de sua seleção de materiais e entrevistas. Seguindo esse ciclo, os capítulos seguintes falam de sua decadência, focando problemas como o esgotamento do modelo de pornochanchada e a discussão sobre produzir ou não filmes de sexo explícito. No livro, há um capítulo dedicado a esse modelo de cinema, que aborda os aspectos estruturais do gênero e sua relação com o público, e que traz algumas falas das atrizes e a importância delas para esse modelo de filme. 

A obra é interessante não somente para os estudiosos de cinema, mas também para aqueles que estudam história, na medida em que o autor traz uma cronologia dos acontecimentos a respeito das relações cinema e Estado pós-1964, quando “a produção cultural teve de aprender a viver, com a cabeça no divã, transitando entre a cultura de massa e a militância de resistência”, e discute como essas relações foram se desenvolvendo ao longo dos anos.

Além disso, o livro Boca do Lixo apresenta uma série de documentos que podem ser utilizados para futuras pesquisas na área do cinema brasileiro. Assim, a obra tem forte caráter historiográfico por relatar um contexto histórico-social específico com pesquisa bibliográfica, levantamento de filmografia, comentários sobre filmes e entrevistas com pessoas que participaram desse ciclo, as quais estão contidas, na íntegra, junto da filmografia da Boca do Lixo, no DVD que acompanha o livro.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Boca do Lixo: cinema e classes populares

Autor: Nuno Cesar Abreu

ISBN: 9788526813052

Edição: 2a

Ano: 2015

Páginas: 224

Dimensões: 16 x 23 cm

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